Ato V
A mesma cena do 4º ato.
Cena I
FIRMINO, PEREGRINO e SILVIA que logo se retira.
FIRMINO.-Que demora!
SILVIA.-Eu estava no 2º andar.
FIRMINO.-E Corina?
SILVIA.-Recolheu-se ao quarto da srª. d. Suzana.
FIRMINO.-Ainda!
PEREGRINO.-Procurou a melhor companhia que pode ter na ausência de minha madrasta.
FIRMINO.-Em todo caso não te afastes do lugar onde ela se acha, e cumpre as ordens que tens recebido. (Entra no gabinete.)
PEREGRINO.-Silvia, põe-te a janela, e se minha madrasta chegar antes que eu tenha saído, corre logo a prevenir-me. Basta que te mostres à porta desta sala.
SILVIA.-Pode ficar descansado.
PEREGRINO.-Com certeza d. Corina não recebeu hoje carta, nem recado?...
SILVIA.-Nem recado, nem carta.
PEREGRINO.-Vai para a janela.
(Vai-se SILVIA.)
FIRMINO.- (Saindo.) Paga bem a essa criada: é o único meio de impedir que ela venda iguais serviços a outro.
PEREGRINO.-Não terá tempo: amanhã será o dia afortunado, se minha madrasta não se opuser à partida de Corina.
FIRMINO.-Teodora abateu-se, coitada: parece castigar-se pela injusta difamação de Corina: já lhe perdoei; perdoa-lhe também: foi devaneio de mãe.
PEREGRINO.-Aprova ela a retirada da sua pupila para a chácara de Andaraí?
FIRMINO.-Tanto ela como Corina concordaram nisso desde que souberam que a tia Suzana vai também para a chácara.
PEREGRINO.-Eis o essencial: o mais é simples.
FIRMINO.-Peregrino, nós nos expomos a um grande opróbrio; que ao menos o resultado compense o escândalo.
PEREGRINO.-Agora o meu empenho é salvar meu pai da mais leve suspeita de conivência comigo. Amanhã de manhã vossa mercê escreverá ao dr. André, marcando-lhe dia e hora para tratar do seu casamento com a sua pupila, a quem dará a agradável notícia; a retirada para a chácara explica-se pela conveniência de separar Corina de mim e de Carlos que pretendíamos a sua mão.
FIRMINO.-E que mais, Peregrino?...
PEREGRINO.-Amanhã vossa mercê procurará o juiz dos órfãos que, sem dúvida, tomará todas as suas resoluções e principalmente aquela que fará distanciar de seus filhos a noiva do dr. André.
FIRMINO.-E à tarde levarei Corina e a tia Suzana para a chácara...
PEREGRINO.-E Silvia e Roberto as acompanharão, ficando lá a seu serviço e em sua guarda...
FIRMINO.-E tu?...
PEREGRINO.-A chácara é solitária, meu pai; as noites de junho são longas, e as que estão correndo agora, escuras e propícias aos ladrões e aos amantes: Silvia e Roberto me estão dedicados; o seu feitor é criatura minha, e tarde, bem tarde, vossa mercê saberá que um filho ingrato lhe roubou a pupila.
FIRMINO.-Peregrino!
PEREGRINO.-Tenho tudo pronto, meu pai: o clorofórmio para o lenço que sufocará os gritos de Corina, e a tornará por minutos... insensível... a carruagem para fugir; o abrigo ermo e seguro para ocultar-me por alguns dias...
FIRMINO.-Mas se ela morresse... se involuntariamente a matasses com a perigosa aplicação de clorofórmio...
PEREGRINO.-Que receio inconseqüente!... Não vê que eu tenho necessidade de Corina viva?... Sei o que vou fazer.
FIRMINO.-Tu nem calculas com a desesperada resistência da vítima!...
PEREGRINO.-Meu pai... amanhã à noite eu me despedirei, ressentido de vossa mercê, recusando o seu desamor e revoltando-me contra a sua autoridade: naturalmente o sr. Teófilo estará aqui, e será testemunha da minha desobediência e ingratidão: um filho tão mau... um filho que desacata seu pai...
FIRMINO.-Que queres dizer?...
PEREGRINO.-Digo que tudo está calculado por mim, e que vossa mercê deve poupar-me às explicações. Eu vou ser opressor... algoz durante alguns dias para ser feliz, rico e esposo estremecido toda minha vida.
FIRMINO.-Oh, meu filho... deveras que planejamos um crime... sim... o mundo, porém, aí está erigindo altares ao ouro... a sociedade aí está honrando, purificando a riqueza ainda mesmo provinda de fontes turvas e lodosas... e escarnecendo da pobreza ou pelo menos, aviltando-a como o desvalimento do homem de honra que é pobre... Peregrino, o teu casamento lavará a nódoa... vou... não hesito mais... vai... mas lembra-te bem: nestes casos extremos há só um crime que é imperdoável...
PEREGRINO.-Qual?
FIRMINO.-O malograr-se o atentado.
PEREGRINO.-Posso contar com meu pai?...
FIRMINO.-Farei tudo por ti.
PEREGRINO.-Corina será sua nora. (Beija a mão de FIRMINO.)
FIRMINO.-Julgas que desde hoje devo mostrar-me favorável ao dr. André?
PEREGRINO.-Não, meu pai; só amanhã: é preciso não dar tempo nem aos assomos da esperança. (SILVIA chega à frente e faz-se sentar, tossindo.) Ah, chega minha madrasta: sairei sem que ela me veja. (Vai-se.)
FIRMINO.-Silvia! (Aparece SILVIA.) A senhora já entrou?...
SILVIA.-Entraram todos pelo jardim, onde passeiam.
FIRMINO.-Todos quem?
SILVIA.-A senhora e seus filhos e o sr. Teófilo.
FIRMINO.-Ah!... Teófilo... vou encontrá-lo...
Cena II
SILVIA, SUZANA e CORINA.
SUZANA.-Já chegaram?... eu ouvi a voz de Júlia...
SILVIA.-Estão no jardim.
SUZANA.-Queres descer ao jardim, Corina?...
CORINA.-Para que, tia Suzana?... Esperemo-los aqui...
Cena III
SUZANA, CORINA, TEODORA, SILVIA que se retira.
TEODORA.-Tia Suzana! Adeus Corina: (Tirando o chapéu e a manta.) você guarda (sic) isto, (A SILVIA que vai-se.) passei pelo seu quarto, tia Suzana... (Ansiosa.)
SUZANA.-Saímos dele agora mesmo...
TEODORA.-Escutam: tia Suzana, eu imponho segredo: se falar, me fará mal: Corina será discreta: é de seu interesse.
CORINA.-Meu Deus!
TEODORA.-Resistam, oponham-se à partida para a chácara do Andaraí... não vão... resistam...
SUZANA.-Por que?...
TEODORA.-Peregrino, o meu nobre enteado preparou um plano para o rapto de Corina... e este desterro para a chácara isolada... deserta...
CORINA.- (Abraçando-se com SUZANA.) Oh!
SUZANA.-E Firmino?
TEODORA.-É pai e ambicioso, como sou mãe, e fui má: não tenho o direito de acusá-lo... perdão para ambos!... e agora...
SUZANA.-Agora é o crime que provocou a vingança do senhor!...
TEODORA.-Silêncio, minha tia; façam o que disse: resistam ambas: não vão para a chácara... mas... segredo: volte para o seu quarto e leve consigo Corina... depressa... não me convém que nos achem conversando...
SUZANA.-Por que tem medo de fazer o bem?...
TEODORA.-Oh! depois direi, confessarei tudo: retirem-se... depressa... já sinto passos. Deixem-me só...
CORINA.-Tia Suzana! vamos... (Levando-a.)
SUZANA.- (Indo e apontando para TEODORA.) Ali também há pecado, Corina!... (Vão-se.)
TEODORA.- (Caindo em uma cadeira.) Ah!... (Levanta-se risonha à chegada dos que entram.)
Cena IV
TEODORA, JÚLIA, TEÓFILO, CARLOS, FIRMINO.
FIRMINO.- (A TEODORA.) Eu saí por uma porta e tu entraste por outra.
TEODORA.-A procurar-me?... Foi o que me aconteceu, procurando-te: quando entrei por uma porta, tinhas saído pela outra.
FIRMINO.-Ao menos voltaram mais cedo do que eu esperava e com o melhor dos nossos amigos.
TEODORA.-E apanhado por feliz acaso: está escrito que Júlia é a mais ditosa das criaturas. (Sentam-se.)
JÚLIA.-Nem tanto; pois que a minha companhia não pode vencer de todo a preocupação amarga do senhor Teófilo.
TEÓFILO.-Eu protesto: trazia sobre o coração o peso de grande desgosto e quase que o esqueci, achando-me a seu lado...
JÚLIA.-Devo perdoar-lhe o quase?...
TEÓFILO.-Deve; porque o desgosto era profundo, e o seu prestígio fez-me alegre...
JÚLIA.-Oh, não! O seu olhar e a sua voz foram os bálsamos milagrosos que me curaram a ferida: a sua virtude e consolação angélica que me afoga a lembrança de uma ação indigna de um atentado horrível, que embora me sejam estranhos, abriga a minha reprovação e o meu aborrecimento.
FIRMINO.-Um segredo?...
TEÓFILO.-Que não é meu, e que posso docemente esquecê-lo aqui.
FIRMINO.-Santas palavras! Janta hoje conosco?
JÚLIA.-Janta, sim: e eu hei de obrigá-lo a não pensar mais nesse ruim segredo: serei capaz de conseguí-lo?
TEÓFILO.-Pergunta se pode fazer o milagre depois de tê-lo feito? O que de resto me preocupa é o meio de vê-la aflita por sua vez.
JÚLIA.-Como? Por que?...
TEÓFILO.-Porque se chegar a saber do que se sabe, há de revoltar-se ainda mais do que eu...
TEODORA.-Algum fato escandaloso...
JÚLIA.-Nada há de triste ou de desairoso que possa ter comigo relação...
TEÓFILO.-Oh, certamente; mas os corações generosos choram os males, os martírios alheios como se fossem próprios.
JÚLIA.-Os martírios!!!
Cena V
TEODORA, JÚLIA, FIRMINO, CARLOS, TEÓFILO e um CRIADO que traz uma carta.
CRIADO.-Pelo correio urbano uma carta para sr.ª Suzana.
(TEÓFILO e JÚLIA conversam.)
TEODORA.-Uma carta para minha tia!... Que novidade!...
FIRMINO.- (Tomando a carta e a TEODORA.) Não conheço a letra do subscrito.
TEODORA.-Nem eu.
FIRMINO.- (A TEODORA.) Desconfio desta carta: não a devemos entregar.
TEODORA.- (A FIRMINO.) Cuidado! Teófilo está presente e talvez nos observe... não seria bonito...
FIRMINO.- (Ao CRIADO.) Leva a carta à sr.ª d. Suzana. (Vai-se o CRIADO.) É a primeira vez que a nossa velha tia recebe carta pelo correio... o fato nos tornou curiosos.
TEÓFILO.-Ah!
CARLOS.-D. Corina será a primeira a ler a carta; porque sempre que se acha com a tia Suzana é a sua leitora obrigada.
TEÓFILO.-Então d. Corina vive confinada aos cuidados da sr.ª d. Suzana?
TEODORA.-Apenas quando saímos sem ela: fora desses casos vive sempre com Júlia, de quem nunca se separa.
TEÓFILO.-Perdão... escapou-me uma pergunta indiscreta.
FIRMINO.-Oh, não houve indiscrição... (Conversa com TEODORA.)
JÚLIA.-Pergunte-me tudo: desejo e estimo que conheça toda a nossa vida.
TEÓFILO.- (Baixo.) Deveras d. Corina é aqui sua companheira inseparável?
JÚLIA.-De dia sempre juntas estudando ou brincando; à noite dormimos na mesma sala.
TEÓFILO.-E que pensa de d. Corina?...
JÚLIA.-É tão bonita, como boa.
TEÓFILO.- (Baixo e sério.) Em tudo soa igual?
JÚLIA.- (Estremecendo de leve.) Senhor! Tão pura como eu.
CORINA.- (Dentro, grito pungente.) Oh!...
JÚLIA.-Um grito de Corina!... (Em pé.)
TEODORA.-Que será?... (Querendo ir.)
FIRMINO.-Vamos ver... (Indo.)
Cena VI
TEODORA, JÚLIA, FIRMINO, CARLOS, TEÓFILO, CORINA e SUZANA que a segue tendo na mão uma carta aberta.
CORINA.- (Em desespero e pranto.) Justiça de Deus!... Oh... justiça!...
FIRMINO, TEODORA, CARLOS, JÚLIA.-Que é?...
CORINA.-É o horror... a infâmia! (Vendo TEÓFILO.) Oh!... Senhor Teófilo, é falso, é falso é falso... (Afoga-se em pranto.)
FIRMINO.- (A SUZANA.) Que foi isto?...
SUZANA.-A serpente da calúnia mordeu-a no seio virginal.
FIRMINO.-Minha filha!...
SUZANA.-Não é sua filha, é sua vítima!
TEODORA.-Minha tia, não estamos sós...
SUZANA.-Que todos me ouçam! Esta inocente menina é uma vítima, para quem dois abismos estão cavados pelo crime: um deles se preparava na chácara maldita, para onde não irei, nem ela irá...
FIRMINO.-Senhora... senhora...
SUZANA.-O outro é a difamação aleivosa, com que para arredar o mancebo honesto que o céu lhe destina para esposo atacam, despedaçam o seu crédito, e com a mais vil calúnia ultrajam a sua pureza!...
JÚLIA.-Corina!... A pureza de um anjo. (Abraça CORINA.)
FIRMINO.-Senhor Teófilo, não posso explicar o que diz esta senhora... sou alheio a tudo... minha pupila está consternada: enquanto me informo do que se passa, ela vai recolher-se ao seu quarto.
TEÓFILO.-Não, senhor Firmino; o assunto é gravíssimo: trata-se da honra de sua pupila, e ela deve estar presente ao processo e à sentença. Aquela carta é do doutor André de Araújo que nela expôs à protetora de d. Corina horríveis informações que recebeu hoje em outra carta anônima.
FIRMINO.- (Tomando a carta da mão de SUZANA.) Quero ver... (Lê.) Corina... amante de Peregrino!... Oh!... como isto é inf... (Encarando TEODORA.) Eu juro que é falso!
JÚLIA.- (Com veemência.) Que aleive infernal! Que perversidade!... Veja, minha mãe! Veja aquela carta!...
TEODORA.- (Luta íntima.) Já sei tudo... delírio de ambição...
JÚLIA.-Perversidade!... veja!...
TEODORA.-Oh, minha filha... sim... perversidade... perversidade... e castigo de Deus!... (Senta-se à mesa e escreve agitada duas cartas.)
SUZANA.-Mas a honra de Corina?... Quem a caluniou?... Quem lhe arma traição? É preciso tudo patente e claro, ou eu sairei à rua, e bradarei pela justiça da terra!
CARLOS.-Sim; porque eu também maldigo do caluniador e quero minha reputação ilesa: qual é o crime que se preparava na chácara?... Devo saber...
FIRMINO.-É inútil e imprudente explorar seguidos sinistros, ou suspeitas indecorosas: a partida para a chácara não se efetuará: deixemos isso de parte... está acabado: já tenho confusão e vergonha de sobra...
TEÓFILO.-Sim; esqueçamos o mistério da chácara: seja o que for, esqueçamo-lo pelo brio da família a que vou pertencer; a carta anônima, porém, compromete o nome e a honra de uma donzela inocente... ei-la em torturas de aflição...
JÚLIA.-Minha Corina! Minha irmã...
SUZANA.-Cada tormento da inocência vale uma coroa no céu. Levanta a cabeça menina!
CORINA.-Quando minha mãe morreu, eu tinha seis anos: ela me chamou para junto de si... olhou-me... disse chorando: «pobre mártir»... e em um beijo -o último- exalou a vida nos meus lábios. Quando meu pai morreu, eu tinha dez anos... em seu agonizar... (A FIRMINO.) o senhor estava lá... ele lhe disse: -seja-lhe pai, meu amigo! Lembra-se?... Depois encostando a cabeça no meu seio... murmurou quase já sem voz: -coitadinha! E... (Em pranto.) adeus, meu pai... adeus, meu pai!...
JÚLIA.-Corina!... (Chorando.)
CORINA.-Palavras proféticas de minha mãe e de meu pai: previram na hora da morte: -pobre mártir, coitadinha. Eis o que sou. (JÚLIA abraça-a.)
TEODORA.- (Da mesa.) Carlos! (CARLOS chega-se.) Por todo o amor que me deves, por compaixão ao menos, vai a correr e entrega estas duas cartas... depressa... tu sabes onde... aí vai indicado no sobrescrito de ambas: uma no escritório comercial: a outra é para Estefânia: corre, meu filho; eu te peço que corras.
CARLOS.-Sim, minha mãe... seja o que for... devo correr. (Vai-se.)
TEODORA.- (A CORINA, pondo-lhe a mão no ombro.) Corina!... Tu és inocente e casta, como Júlia! A calúnia será destruída...
TEÓFILO.-D. Corina, tranquilize-se: ninguém crê nessa aleivosia satânica; ninguém a ofenderia com uma suspeita, ou eu faria ajoelhar a seus pés o miserável ofensor.
CORINA.- (Levantando a cabeça.) Mas a aleivosia feriu a triste órfã; e que ela diga mil vezes: -é falso. A malícia de uns... a simples dúvida de outros, abafadas, embora no silêncio, estarão sempre a procurar a mancha negra no véu branco da donzela... oh!... Uma pobre menina que já não tem pai, nem mãe, devia ser objeto da compaixão de todos!... Como é que me assassinam assim!...
FIRMINO.-Corina... minha filha...
CORINA.- (Forte.) Sua filha?... E a minha reputação?... Oh!... Tome para seu filho toda a riqueza que meus pais me deixaram; mas eu quero insuspeita a minha honra: eu quero!... Meu tutor! A honra da sua pupila?... Amigo suposto de meu pai! A honra da filha do seu amigo?... Meu Deus!... (Com desespero.) A minha pureza aos olhos do mundo?... Eu sou inocente!... Sou inocente!...
Cena VII
TEODORA, JÚLIA, CORINA, SUZANA, TEÓFILO, FIRMINO, CRIADO, que logo se retira, e ANDRÉ.
CRIADO.-O senhor doutor André de Araújo pede para ser recebido.
(Sensação geral.)
CORINA.-Oh! (Cobrindo o rosto com as mãos.)
FIRMINO.-Dá-lhe entrada.
SUZANA.- (A CORINA, apertando-lhe as mãos.) Filha! Tem fé!...
CRIADO.- (Da porta.) O senhor doutor André de Araújo.
(Vai-se. Cumprimento geral.)
FIRMINO.-Tenha V.S.ª a bondade de sentar-se.
ANDRÉ.-V.S.ª me desculpe: sou um cavalheiro que profundamente ofendido vem dar e exigir contas.
FIRMINO.-Exigir?...
ANDRÉ.-Amo sua pupila e por ela autorizado, pedi-lha em casamento: V.S.ª negou-ma: não quero esclarecer o motivo; sou, porém, tão conhecido e, direi, tão estimado nesta capital, que ter-me-ia sido fácil obrigá-lo a sujeitar-se ao que me recusou.
FIRMINO.-Senhor doutor...
ANDRÉ.-Não quis fazê-lo: confiando plenamente na senhora que amo, preferi esperar a expô-la e expor-me às discussões públicas sobre a noiva em depósito e o casamento com intervenção da autoridade. Eu desejava receber minha esposa no altar, sem notoriedade de oposição e de contendas; para que não atacasse de leve nem o mais rápido olhar de reparo injustamente malicioso. V.S.ª me obrigou ao contrário.
FIRMINO.-Tutor de Corina, só darei ao juiz dos órfãos contas do meu proceder, enquanto ela for solteira, e de sua fortuna a seu marido logo que se case. Não tenho a honra de ver em V.S.ª nem juiz, nem marido.
ANDRÉ.-Venho da casa do juiz dos órfãos que condenando a recusa, com que V.S.ª me repeliu, ofereceu-me toda ação da sua autoridade e nem para isso precisei mostrar-lhe o que o meu amor e o santo pudor de sua honestíssima pupila impunham-me o dever de ocultar. V.S.ª sabe o que é...
FIRMINO.-Mas ignoro ainda o fim da acerba visita de V.S.ª
ANDRÉ.-Exigir explicações desta carta anônima, caluniosa e malvada que hoje recebi. (Apresenta a carta.) Tenha a bondade de lê-la! V.S.ª, como tutor, tem obrigação de destruir torpes falsidades e de vingar a honra ultrajada da sua pupila. Senhor Firmino! Vim pedir-lhe... quero o nome do difamador aleivoso... quero-o! porque em falta do tutor... eu, o noivo de Corina, tenho o direito e o dever de punir o miserável...
TEÓFILO.-André!...
FIRMINO.-V.Sª. certamente não teve a idéia de referir-se a mim, quando pronunciou as palavras difamador e miserável...
TEÓFILO.-É preciso não esquecer que ele ama d. Corina, e que o seu coração deve estar abrasado de cólera... André! André!...
ANDRÉ.- (A FIRMINO.) Eu não estaria falando a V.S.ª se o julgasse autor desta afronta: as culpas do tutor são grandes... mas são outras: tenha a bondade de ler. (Apresenta a carta.)
FIRMINO.-Uma carta anônima rasga-se e despreza-se.
ANDRÉ.-Mas eu li esta carta, senhor! V.S.ª deve lê-la também! Ela mancha a sua casa... traz uma nódoa para a sua família... deve lê-la...
FIRMINO.-V.S.ª tem necessidade de acalmar-se: quero ceder... lerei este vergonhoso escrito.
(Recebe a carta e lê: TEÓFILO procura sossegar ANDRÉ: comoção geral.)
Cena VIII
TEODORA, JÚLIA, CORINA, SUZANA, TEÓFILO, FIRMINO, ANDRÉ e PEREGRINO.
PEREGRINO.- (Indo a JÚLIA.) Que é isto aqui por casa?
JÚLIA.- (A PEREGRINO.) Começo a crer que é a providência que vai entrar nela.
PEREGRINO.- (A JÚLIA.) A providência? Não conheço tal senhora.
JÚLIA.- (A PEREGRINO.) Pois talvez tenhas de sentir que ela te conhece.
FIRMINO.- (Rasgando a carta.) É uma falsidade indigna que, despedaçada pelo desprezo, o meu criado varrerá do chão.
ANDRÉ.-Mas eu não posso prescindir do nome e da confissão do caluniador!...
Cena IX
TEODORA, JÚLIA, CORINA, SUZANA, TEÓFILO, FIRMINO, ANDRÉ, PEREGRINO, CARLOS, ESTEFÂNIA e SIMÃO de Souza.
CARLOS.-E ei-los aqui minha mãe.
TEODORA.- (Correndo a porta.) Bem-vindos sejam! (Toma as mãos de ESTEFÂNIA e SIMÃO, vem com eles à frente.) Senhor doutor André de Araújo, quer o nome e a confissão do caluniador?... (Ajoelha-se.) a caluniadora fui eu! Mas que castigo! Meu filho, sem o pensar, maldisse de mim; minha filha, sem o pensar, chamou-me perversa! (Comoção dos filhos.) Deus puniu a mãe com a sentença dos filhos!...
ESTEFÂNIA.-Teodora... eu não compreendo...
SIMÃO.-E eu ainda menos...
TEODORA.-Com o fim de arredar pretendentes de Corina, a quem eu por vil ambição destinava para a esposa de meu filho, disse em pérfido segredo a Estefânia e ao sr. Simão de Souza que essa aliás, virtuosa donzela, entretinha relações secretas... era... oh!... perdão!... Estefânia! Senhor Simão de Souza! Eu menti!... caluniei a pupila do meu marido!... Perdão... oh... e tu, Corina, pelo amor de Deus, perdão... (Chorando.)
CORINA.- (Correndo a ela.) Minha mãe... eu lhe perdôo e a amo!...
(Abraça TEODORA: CARLOS e JÚLIA vão levantar TEODORA: Carlos beija a mão de CORINA.)
FIRMINO.-Basta, Teodora.
TEODORA.-Não: confessei o meu crime; não carregarei, porém, com o de outrem. Eu não fui autora da carta anônima, em que se explorou a minha calúnia; não fui: juro-o!...
ANDRÉ.-Quem foi então o desgraçado?...
CARLOS.- (Olhando PEREGRINO.) Se ele está presente, e não ousa declarar-se, é muito infame!... (Confusão de PEREGRINO.)
TEODORA.- (Com os olhos em PEREGRINO.) É muito infame!
CORINA.- (Voltando o rosto com desprezo.) É muito infame!...
ANDRÉ.- (Olhando PEREGRINO.) Por minha voz... é muito infame!... (Silêncio.) Segue-se que o criminoso não nos ouve; porque o último dos homens saberia responder à provocação que lhe atiro ao rosto, como se fosse uma bofetada!...
PEREGRINO.- (Trêmulo e furioso.) Meu pai... o insulto é a mim...
FIRMINO.- (A PEREGRINO.) Sim... é... mas, se não sabes matar... sabes morrer, ou abisma-te na terra... sai!... Retira-te!
(Vai-se PEREGRINO.)
ANDRÉ.- (Vendo PEREGRINO sair.) Senhor Firmino, estou satisfeito.
FIRMINO.-Eu não o estou: Corina é sua noiva: a solene confissão de minha mulher lavou-a da nódoa do aleive; mas a carta anônima, ignóbil, embora, foi escrita por meu filho, e os insultos e a bofetada que o senhor lhe atirou ao rosto, aqui estão queimando a face do pai! O tutor cedeu..., o homem revoltou-se, o pai exige desafronta...
SUZANA.-Perdão a todos em nome de Deus!...
TEÓFILO.-André, meu amigo!...
CORINA.-André!...
ANDRÉ.-Peço ao pai que me desculpe das injúrias que dirigi ao filho... esqueçamos tudo... (Oferece a mão a FIRMINO.)
TEODORA.-Firmino, fomos tão culpados!...
(FIRMINO imóvel.)
JÚLIA.-Meu pai, o esquecimento do passado é o futuro cheio de flores para a sua Júlia.
TEÓFILO.-Senhor Firmino...
SUZANA.-És tu, Firmino, que precisas tanto do perdão e da misericórdia do Senhor!...
FIRMINO.-É assim: foi a providência que me castigou em meu filho... senhor doutor... perdoe-nos todos. (Dá a mão a ANDRÉ que a aperta.)
JÚLIA.- (Correndo a CORINA.) Corina! (Abraça-a.) Portanto não tenho de esperar um ano! Papai; é claro que tudo acabou o melhor possível!
FIM DA COMÉDIA