745- Se fôssemos sinceros em dizer o que sentimos e pensamos uns dos outros, em declarar os motivos e fins das nossas ações, seríamos reciprocamente odiosos e não poderíamos viver em sociedade.
746- Somos atletas na vida; lutamos com as paixões dos outros homens, e com as nossas.
747- Refletindo cada um sobre si mesmo, acha sempre com que humilhar o seu amor-próprio, e com que satisfazê-lo e consolá-lo.
748- Fingimos desprezar a morte para ocultar o horror que ela nos causa.
749- A virtude nos diviniza, o vício nos embrutece.
750- O império da moda é tão soberano, que a mesma sabedoria se vê forçada a obedecer às suas leis, apesar da instabilidade da sua legislação.
751- O materialismo não pode sugerir grandes idéias aos seus sectários; as obras destes terão sempre ressábios da argila que lhas ditou.
752- Quando moços, contamos tantos amigos quantos conhecidos; porém maduros pela experiência, não achamos um homem de cuja probidade fiemos a execução do nosso testamento.
753- Muito contribui para acreditar o nosso juízo confessar ingenuamente a nossa ignorância.
754- A afetação da virtude custa mais que o seu exercício.
755- O fruto de um longo estudo, experiência e reflexão, é a sábia convicção da nossa ignorância ilimitada.
756- A ambição, como a avareza, se afadiga muito para ser cada vez mais miserável.
757- Os empregos que por intrigas e facções se alcançam, por facções e intrigas se perdem.
758- A civilidade ensina a dissimular para não ofender.
759- A probidade é suscetível de heroísmo como o valor.
760- Por mais sagaz que seja o nosso amor-próprio, a lisonja quase sempre o engana.
761- A economia com o trabalho é uma preciosa mina de ouro.
762- Há pessoas que dizem mal de tudo para inculcar que prestam para muito.
763- Nenhum tempo e nenhum lugar nos agrada tanto como o tempo que não existe, e o lugar em que não estamos.
764- A amizade mais perfeita e mais durável é somente aquela que contraímos com o nosso interesse.
765- A riqueza do avarento, transmitida ao pródigo, se assemelha a um fogo de artifício; leva muito tempo a fazer-se, consome-se em pouco, e diverte a muita gente.
766- A imperfeição é a causa necessária da variedade nos indivíduos da mesma espécie. O perfeito é sempre idêntico e não admite diferenças por excesso ou por defeito.
767- Ninguém avalia tão caro o nosso merecimento, como o nosso amor-próprio.
768- O homem mau não conhece os seus verdadeiros interesses.
769- O nosso amor-próprio argüi de soberbos aqueles que o não lisonjeiam.
770- O avarento, por um mau cálculo, sofre de presente os males que receia no futuro.
771- Não obstante a extinção do paganismo, ainda há muita gente que adora a Deusa Fortuna.
772- Não receamos o cativeiro do amor, porque temos segura a nossa liberdade.
773- Os que mais possuem não são os que melhor digerem.
774- Há mentiras que são enobrecidas e autorizadas pela civilidade.
775- Poucas mulheres se reconhecem feias; nenhum homem, tolo.
776- Os desenganos não provêm só dos males que sofremos, mas também dos bens de que gozamos.
777- Há pessoas que, assim como as modas, parecem bem por algum tempo.
778- Não é raro aborrecermos aquelas mesmas pessoas que mais admiramos.
779- Bem raras vezes os homens se esquecem do que valem e do que podem.
780- A mocidade é temerária; presume muito porque sabe pouco.
781- A vida humana sem religião é viagem sem roteiro.
782- Um casulo é o túmulo de uma lagarta e o berço de uma borboleta; também a morte para o homem é o principio de uma nova e melhor vida.
783- A verdade não é suscetível de variedade como o erro; daqui provém que o número dos erros é infinito.
784- O mal não será a especiaria do bem?
785- Os nossos inimigos contribuem mais do que se pensa para o nosso aperfeiçoamento moral. Eles são os historiadores dos nossos erros, vícios e imperfeições.
786- A falsa filosofia convida os homens pelos prazeres sensuais; a verdadeira pelos morais, intelectuais e religiosos; a primeira tudo materializa; a segunda busca espiritualizar a própria matéria; uma isola o homem neste mundo também isolado; a outra lhe dá relações com o sistema universal, e o faz parte de um todo imenso; a primeira lhe confere uma existência efêmera e temporária; a segunda lhe eterniza a duração; aquela o faz bruto; esta semi-Deus.
787- A religião é um tesouro, que nenhum outro pode escusar.
788- Quem mas teme a Deus, menos teme os homens.
789- Nunca erramos o caminho da felicidade, quando nos guiamos pelo itinerário da virtude.
790- Não são incompatíveis a loucura e a velhacaria: há exemplos de loucos muito velhacos e ardilosos.
791- Há muita gente boa e feliz, porque não tem suficiente liberdade para se fazer má e desgraçada.
792- A vida engana a todos, a morte desengana a poucos.
793- O sol doura a quem o vê, o sábio ilumina a quem o ouve.
794- Os benfeitores imprudentes fazem beneficiados ingratos.
795- Os maus queixam-se de todos, os bons de poucos, os melhores de ninguém ou de si próprios.
796- A vida humana tem fases como a lua; a velhice é o seu minguante.
797- A preguiça gasta a vida, como a ferrugem consome o ferro.
798- Os velhacos se associam, mas não se amam.
799- Há homens para nada, muitos para pouco, alguns para muito, nenhum para tudo.
800- O silêncio, ainda que mudo, é freqüentes vezes tão venal como a palavra.
801- O louvor facundo distingue menos que a admiração silenciosa.
802- A virtude remoça os velhos, o vicio envelhece os moços.
803- Os males da vida são os nossos melhores preceptores, os bens, os nossos maiores aduladores.
804- É quando menos se crê em milagres que os povos os exigem dos que governam.
805- Nunca agradecemos com tanto fervor como quando esperamos um novo favor.
806- Ninguém se conhece tão bem como aquele que mais desconfia de si próprio.
807- Os maiores detratores dos governos são aqueles que pretendem governar.
808- Os maus não são exaltados para serem felizes, mas para que caiam de mais alto e sejam esmagados.
809- O interesse, filho do amor-próprio, conforme é bem ou mal educado, assim é útil ou danoso a seu próprio pai.
810- Quando os tiranos caem, os povos se levantam.
811- Os cortesãos vivem sonhando e morrem de pesadelos.
812- Pouco dizemos quando o interesse ou a vaidade não nos faz falar.
813- A mocidade é um sonho que deleita, a velhice uma vigília que incomoda.
814- A verdade toma os trajos da lisonja, quando visita os que governam.
815- As pessoas doutas e virtuosas são nas nações como os condutores nos edifícios que os preservam dos raios.
816- Os cúmplices são fáceis e prontos em anistiar os culpados.
817- O futuro se nos oculta para que nós o imaginemos.
818- Os filósofos vivem disputando e morrem duvidando.
819- O sono melhor da vida a inocência o dorme, ou a virtude.
820- Quando os bons capitulam com os maus, sancionam a própria ruína.
821- Os sábios falam pouco e dizem muito, generalizando e abstraindo resumem tudo.
822- A força é hostil a si própria, quando a inteligência a não dirige.
823- Os anarquistas aborrecem a ordem que os castiga e os não emprega.
824- O homem de palavra é ordinariamente o que menos fala.
825- O berço e o esquife são os dois extremos opostos da vida humana, neste intervalo se executa o drama misterioso da nossa existência individual.
826- Os homens enganam-se miseravelmente quando esperam achar a sua felicidade, mais na forma dos seus governos que na reforma dos seus costumes.
827- Os moços de juízo honram-se de parecer velhos, mas os velhos sem juízo procuram figurar de moços.
828- Os povos desencantados tornam-se insubordinados.
829- Os homens preferem geralmente o engano, que os tranqüiliza, à incerteza, que os incomoda.
830- As revoluções freqüentes fazem raquíticas as nações recentes.
831- Invejamos a vida de muitos, e raras vezes a morte de algum.
832- Os mortos nos instruem e desenganam nas livrarias e cemitérios.
833- Quem não espera na vida futura, desespera na presente.
834- O mal ou bem que fazemos aos outros reverte sobre nós acrescentado.
835- O governo dos tolos é sempre mais infesto aos povos que o dos velhacos.
836- Deixar de gozar para não sofrer é o segredo de bem viver.
837- Quando defendemos os nossos amigos, justificamos a nossa amizade.
838- A escravidão nos amantes é ambição de senhorio.
839- O sumário da vida feminina são amores na terra e mais nos Céus.
840- O retiro para o sábio não é solidão, mas sociedade e correspondência com Deus.
841- As revoluções políticas resolvem-se ordinariamente em deslocações e substituições.
842- Os velhos dão ordinariamente bons conselhos para se remirem de haver dado maus exemplos.
843- Não admira que os moços sejam pródigos e os velhos avarentos: no físico e moral, a mocidade é expansão e a velhice, contração.
844- É mofina a condição dos povos em que faltam lavradores, e sobejam legisladores.
845- Louvamos por grosso, mas censuramos por miúdo.
846- Na montanha goza-se mais, porém o vale é mais abrigado.
847- Um governo sem prestígio e força, aliena e desencanta os povos.
848- Um sexo é a metade do outro sexo, ambos eles se procuram, porque unidos se completam.
849- Nenhum homem é tão bom como o seu partido o apregoa, nem tão mau como o contrário o representa.
850- Há muita gente infeliz por não saber tolerar com resignação a sua própria insignificância.
851- A razão prevalece na velhice, porque as paixões também envelhecem.
852- A virtude é agridoce, mas o vício doce-amargo.
853- A razão dos filósofos é muitas vezes tão extravagante como a imaginação dos poetas.
854- O nosso orgulho nos eleva para nos precipitar de mais alto.
855- O temor da morte é a sentinela da vida.
856- A inteligência humana é um reflexo da Divina, como o clarão da lua é a reverberação da luz do sol.
857- As revoluções, que regeneram as nações velhas, arruinam e fazem degenerar as novas.
858- A mocidade se compraz nas revoluções como no movimento.
859- A gente moça evita a companhia dos velhos, como as pessoas suadas o ar frio, que as pode constipar.
860- Os que não sabem aproveitar o tempo dissipam o seu, e fazem perder o alheio.
861- Os importunos são como as moscas que, enxotadas, revertem logo.
862- Os conselhos dos moços derivam das suas ilusões, os dos velhos, dos seus desenganos.
863- O mundo floresce pela vida, e se renova pela morte.
864- Os sábios vivem ordinariamente solitários: receiam-se dos velhacos, e não podem tolerar os tolos.
865- Os povos em revolução exigem que se lhes rendam graças pelos seus próprios crimes e desatinos.
866- As crenças religiosas fixam as opiniões dos homens, as teorias filosóficas as perturbam e confundem.
867- Vivemos no seio de Deus que, sendo imenso, nos compreende a todos.
868- Os charlatães políticos prometem muito e cobiçam tudo.
869- Na admissão de uma opinião ou doutrina, os homens consultam primeiramente o seu interesse, e depois a razão ou a justiça, se lhes sobeja tempo.
870- Os gênios mais sublimes são como as exalações celestes, ardendo e iluminando se consomem.
871- Reformar, e não inovar, é o voto do legislador prudente.
872- Os velhos são muito ciosos em amor, porque se receiam da concorrência.
873- Não vemos os defeitos de quem amamos, nem os primores dos que aborrecemos.
874- Ninguém se vinga com tanto primor como aquele que, havendo perdoado, se converte em benfeitor.
875- A virtude resplandece na adversidade, como o incenso recende sobre as brasas.
876- As flores e as mulheres enfeitam e guarnecem a terra.
877- Quando saímos da nossa esfera, ordinariamente nos perdemos na dos outros.
878- Os velhos invejam a saúde e vigor dos moços, estes não invejam o juízo e a prudência dos velhos: uns conhecem o que perderam, os outros desconhecem o que lhes falta.
879- Os que anarquizam por ambição do poder turvam a água que pretendem beber.
880- Aborrecemos o absolutismo nos outros, porque o cobiçamos para nós mesmos.
881- Os homens crêem tão pouco na autoridade da própria razão que ordinariamente a justificam com a alegação da dos outros.
882- Ainda que perdoemos aos maus, a ordem moral não lhes perdoa, e castiga a nossa indulgência.
883- O luxo faz empobrecer a uns, e não deixa enriquecer a outros.
884- Há verdades que é mais perigoso publicar do que foi difícil descobrir.
885- Todas as virtudes são restrições, todos os vícios, ampliações da liberdade.
886- O que ganhamos em autoridade, perdemos em liberdade.
887- Vivemos em um mundo encantado que se renova e remoça envelhecendo.
888- Como os sábios não adulam os povos, também estes os não promovem.
889- A ignorância tudo exagera, porque não conhece o justo meio.
890- Sem referência a Deus toda a felicidade é inane ou incompleta.
891- Os homens definem e classificam as virtudes, as mulheres as praticam.
892- No banquete da natureza os comensais se sucedem; a morte exclui a uns, a vida chama e admite a outros.
893- Nos partidos políticos a calúnia é moeda corrente que circula sem o menor escrúpulo nem reserva.
894- A autoridade de poucos é e será sempre a razão e argumento de muitos.
895- O fraco ofendido atraiçoa, o forte e magnânimo perdoa.
896- Perante um auditório de tolos, os velhacos tornam-se facundos, e os doutos silenciosos.
897- Tendo nós uma só língua, porém dois braços; devemos ser singelos no falar, mas dobrados em trabalhar.
898- A experiência que não dói pouco aproveita.
899- Os homens de inteligência ordinária não sabem encarecer a própria capacidade sem deprimir a dos outros.
900- Guardai-vos do pródigo; desbaratando o seu não respeita o alheio.
901- A vida reluz nos olhos, a razão nas palavras e ações dos homens.
902- Louvemos a quem nos louva para abonarmos o seu testemunho.
903- Há serviços tão subidos que só a admiração ou a glória os pode recompensar.
904- A virtude ofendida se desagrava perdoando.
905- A facúndia dos velhacos é irresistível para os tolos.
906- Os cortesãos são como as serpentes, flexíveis mas venenosas.
907- A maledicência pode muitas vezes corrigir-nos, a lisonja quase sempre nos corrompe.
908- Os desejos se multiplicam na abundância, como a erva nas terras pingues.
909- A mocidade se expande para conhecer o mundo e os homens, a velhice se contrai por havê-los conhecido.
910- A felicidade que o luxo confere é temporária; mas a miséria que depois ocasiona, permanente.
911- Os homens de ordinário abjuram com facilidade as doutrinas que os elevaram a grandes empregos, quando podem servir de embaraço a ulteriores e mais distintas promoções.
912- Os sentimentos religiosos de admiração, amor e gratidão para com Deus, nos conferem neste mundo uma prelibação da bem-aventurança eterna.
913- A virtude aromatiza e purifica o ar, os vícios o corrompem.
914- Os homens são sempre mais verbosos e facundos em queixar-se das injúrias do que em agradecer os benefícios.
915- A inconstância da fortuna esperança os desgraçados.
916- Ganhamos freqüentes vezes perdoando oportunamente.
917- As instituições mais liberais, nos povos menos ilustrados, servem freqüentes vezes para oprimir os bons, anistiar ou absolver os maus.
918- Há um doce-amargo nas saudades que deleita e contrista; este sentimento misto de prazer e dor nos encanta e penaliza ao mesmo tempo.
919- A memória dos velhos é menos pronta, porque o seu arquivo é muito extenso.
920- Arrufamo-nos algumas vezes com a vida, mas os nossos arrufos terminam sempre por amá-la com mais extremos.
921- A vida tem uma só entrada: a saída é por cem portas.
922- Os povos desenganam-se como as pessoas: sofrendo, perdendo e pagando.
923- Há um limite nas dores e mágoas que termina a nossa vida, ou melhora a nossa sorte.
924- O velho teme o futuro e se abriga no passado.
925- A barateza dos governos desacredita os que governam, e não honra os governados.
926- A inveja não sabe avaliar os invejados, porque os vê de esguelha e obliquamente.
927- Sem a crença em uma vida futura, a presente seria inexplicável.
928- A igualdade repugna de tal modo aos homens que o maior empenho de cada um é distinguir-se ou desigualar-se.
929- A ignorância pasma ou se espanta, mas não admira.
930- O mundo é um vasto mercado de compra e venda, e o artigo mais importante de sua mercancia são os mesmos homens.
931- Os bons escritores moralistas são como os faróis litorais: advertem, dirigem e salvam os navegantes do naufrágio.
932- Os bons tremem quando os maus não temem.
933- Quem não desconfia de si, não merece a confiança dos outros.
934- A razão se turva como a água, sendo agitada pelas paixões.
935- Louvamos ordinariamente com modificações, mas censuramos sem restrições.
936- Os povos exigem tanto dos seus validos, que estes em breve tempo se enfadam e os atraiçoam.
937- Os velhos que seguem as modas, presumem remoçar com elas.
938- Ai dos povos quando as tripeças têm mais firmeza e dignidade do que os tronos!
939- Quem mais confia em Deus, menos desconfia dos homens.
940- O amor cega a muitos, a fortuna deslumbra todos.
941- O amor, como o menino, começa brincando e acaba chorando.
942- A imaginação exagera, a razão desconta, o juízo regula.
943- Anarquista e patriota são sinônimos freqüentes vezes.
944- O grito de liberdade nos povos é o precursor ordinário da anarquia.
945- Há homens que obram por muitos, e alguns que pensam por todos.
946- A intrepidez em muitos homens não é mais que estupidez.
947- A morte que tira a importância a todos, a confere a muito poucos.
948- Nunca pioramos de fortuna quando melhoramos de conduta.
949- Os vícios são tão feios que, ainda enfeitados, não podem inteiramente dissimular a sua fealdade.
950- Quando madrugamos e passamos o dia com a virtude, anoitecemos sem remorsos e dormimos sem pesadelos.
951- O relógio das paixões nunca regula exatamente.
952- Ninguém se rende à morte senão por vencido.
953- Acabou-se o tempo das ressurreições, mas continua o das insurreições.
954- A vida humana parece de algum modo tríplice, quando refletimos que vivemos e sentimos em três tempos, no pretérito, presente e no futuro.
955- O cinismo perde as monarquias, como o luxo arruína as democracias.
956- O amor na mocidade é ocupação, na velhice distração ou alienação.
957- A morte impõe perpétuo silêncio aos melhores oradores, como aos mais importunos faladores.
958- A nossa vida quanto mais se alonga mais se adelgaça.
959- Vivemos, como andamos, querendo guardar equilíbrio e escorregando freqüentes vezes.
960- É falta de habilidade governar com tirania.
961- A solidão nos liberta da sujeição das companhias.
962- Todos os cumprimentos e votos dos homens versam de ordinário sobre saúde, fortuna e dinheiro; mas nenhum compreende também o juízo, aliás tão necessário.
963- A incredulidade que é da moda nas pessoas moças, torna-se o seu tormento na velhice.
964- A despesa produtiva enriquece, a improdutiva empobrece.
965- Vivemos entre dois infinitos, no tempo e no espaço: ocupamos um ponto da imensidade e duramos um instante da eternidade.
966- Os homens não fazem sacrifícios gratuitos do seu amor-próprio; quando rendem adorações a um homem, exigem que ele se assemelhe de algum modo à Divindade pelas suas perfeições e beneficência.
967- Tudo morre ou perece para que tudo se renove: os tipos são os mesmos, mas as obras publicadas são sempre novas.
968- A razão é escrava quando a fé e autoridade são senhoras.
969- O futuro é como o papel em branco em que podemos escrever e desenhar o que queremos.
970- Se os governos escolhem mal, os povos de ordinário escolhem pior.
971- A fortuna faz de um tolo um potentado, como o sol no horizonte confere a um anão a sombra de um gigante.
972- A opinião pública é sempre respeitável, não pelo seu racionalismo, mas pela sua onipotência muscular.
973- É inconseqüência. nossa considerar a Deus presente para nos ouvir, quando lhe pedimos graças ou clemência, e reputá-lo ausente para não ver, quando praticamos ações indecentes e proibidas.
974- O interesse sempre transparece no desinteresse que afetamos.
975- Uma velhice alegre e vigorosa é de ordinário a recompensa da mocidade virtuosa.
976- O prazer do crime passa, o arrependimento sobrevém e o remorso se perpetua.
977- Nunca os povos sofrem tanto como quando se fala mais em liberdade e menos em virtude e obediência.
978- É feliz o velho que pode dizer com verdade: -prefiro os meses da minha juventude.
979- Os prazeres como as dores também gastam a vida, aqueles com mais celeridade pela sua freqüência e atrativo.
980- A intolerância irracional de muitos excusa ou justifica a hipocrisia ou dissimulação de alguns.
981- Alguns homens morrem a propósito para a sua glória, e muitos outros vivem fora de propósito para mal de todos.
982- Em tese geral não há homem feliz sem mérito, nem desgraçado sem culpa.
983- Há velhacos por grosso e por miúdo, assim como há pessoas que comerciam em grande e pequena escala.
984- Disputa-se com mais freqüência sobre as coisas frívolas do que nas mais importantes; as primeiras alcançam a compreensão de todos.
985- É dificílima empresa governar povos que não sabem ser livres, nem podem já ser escravos.
986- Desagrada aos ignorantes a companhia dos sábios, como aos meninos a sociedade dos velhos.
987- Os povos, como as pessoas, não padecem por inocentes.
988- Para bem conhecer os homens, é necessário primeiramente vê-los e praticá-los de perto, e depois estudá-los e meditá-los de longe.
989- A civilidade chega a limar de tal modo os homens que por fim os deixa, sem cunho nem caráter, lisos e safados.
990- Disputando, como jogando, perdemos amigos e ganhamos inimigos.
991- A ignorância tem seus bens privativos, como a sabedoria seus males peculiares.
992- A mocidade é democrata, como a velhice monarquista.
993- Estudar a natureza, é aprender de Deus que se revela nas suas obras.
994- A inveja de muitos anuncia o merecimento de alguns.
995- O ateísmo é talvez uma quimera: nos homens não há suficiente ignorância para poderem ser ateus.
996- O zelo do patriotismo, como a luz de um lampião, não se mantém sem provisão.
997- Os tolos contentam-se com pouco, os velhacos nem com muito: querem tudo.
998- O louvor que mais prezamos é justamente aquele que menos merecemos.
999- Nas campanhas da vida humana, a virtude é a nossa melhor aliada.
1000- A mocidade é a estação da felicidade sensual, a velhice, a da moral e intelectual.
1001- Desprezamos a nossa saúde enquanto é moça, e a idolatramos depois de velha.
1002- Exageramos as nossas desgraças para excitar admiração ou compaixão.
1003- O peso esmaga sem inteligência, mas a força não opera sem ela.
1004- O louvor acha incrédulos, a maledicência, muitos crentes.
1005- Sempre nos escudamos com o bem geral quando queremos promover o nosso particular.
1006- As coroas, quanto maiores e ricas, tanto mais pesam e molestam as cabeças coroadas.
1007- Não procures a felicidade onde a virtude não tem culto.
1008- Os cargos eminentes ilustram ou acreditam, mas não felicitam.
1009- O regresso é o efeito necessário de um progresso precipitado ou mal calculado.
1010- Quando a consciência nos acusa, o interesse ordinariamente nos defende.
1011- A honra anuncia virtudes, as honras nem sempre as supõem.
1012- Os apaixonados do amor acham sem sabor a amizade.
1013- Os maus não querem liberdade para se fazerem bons, mas para se tornarem piores.
1014- A religião é como a pátria, sempre nos parece melhor a nossa própria.
1015- Quando as paixões, por adultas, se emancipam, a razão perde sobre elas a sua autoridade e tutoria.
1016- Atendamos mais ao que diz de nós a nossa consciência que os homens; ela nos conhece melhor do que eles.
1017- O progresso e regresso nos povos, como o fluxo e refluxo nos mares, entretêm a sua ação e movimento.
1018- Quando em um povo só se escutam vivas à liberdade, a anarquia está à porta e a tirania pouco distante.
1019- Os grandes e sublimes pensamentos vêm de Deus e se infiltram e refrangem em nossas cabeças e corações.
1020- Homens há que parecem condenados à condição de animais de carga, vivem só para trabalhar, e morrem para que outros gozem.
1021- Em matéria de injúrias, é mais nobre, cômodo e seguro perdoar, esquecer e não vingar.
1022- Quando unimos o nosso interesse individual ao geral, damos-lhe corpo, solidez e permanência.
1023- A ignorância é sempre mais pronta em resolver-se do que a sabedoria.
1024- Ordinariamente o homem que menos sabe é o que mais fala, como a vasilha menos cheia a que mais chocalha.
1025- A riqueza exige sempre muito espaço, a pobreza se contenta e vive folgada em muito pouco.
1026- Cada século tem suas celebridades ou notabilidades que se desvanecem nos séculos subseqüentes.
1027- É mais seguro escrever do que falar; falando improvisamos, para escrever refletimos.
1028- A desgraça de muitas pessoas provém de não quererem ser o que são, mas pretenderem chegar a mais do que podem ser.
1029- A ignorância dos inocentes não prejudica a sociedade, como a inteligência dos velhacos.
1030- O mundo das verdades e relações é infinito, as suas minas, inexauríveis, as descobertas, ilimitadas, o espírito humano, o seu explorador, descobridor e admirador.
1031- A modéstia é um véu sutil com que extenuamos o fulgor do nosso merecimento ou talentos, para não ofender a vista e amor-próprio dos outros homens.
1032- Queixamo-nos sem receio da fortuna que não pode reclamar nem recriminar-nos.
1033- Os cegos por ambição ainda vêem menos que os cegos por nascimento.
1034- Os erros dos homens se articulam e se reproduzem como os pólipos.
1035- O nosso amor-próprio, como o Proteu da fábula, se transforma por tantos modos que é extremamente difícil distingui-lo em todas as suas metamorfoses.
1036- O princípio das democracias não é a virtude, mas o ciúme ou a inveja: desejando cada um ser rei, todos se opõem e não consentem que o haja.
1037- Saber viver com os homens é uma arte de tanta dificuldade que muita gente morre sem a ter compreendido.
1038- Os velhos devem supor-se mortos antes de morrer para assim alcançarem mais longa vida.
1039- Raras vezes nos arrependemos do nosso silêncio, freqüentemente de haver falado.
1040- A paixão dominante nos homens é a ambição; nas mulheres, o amor.
1041- Sem desigualdade não pode haver harmonia nos sons, nas cores e nos homens.
1042- Há vícios contrários e opostos, mas não virtudes adversas e incompatíveis.
1043- Nenhum homem se considera tão ignorante como aquele que mais sabe.
1044- Quando se faz da traição virtude, ela vegeta em toda parte, e sufoca a lealdade.
1045- Os homens nos forçam a ser prudentes, e depois nos condenam por medrosos.
1046- Ninguém ama por obediência, mas por sentimento e inclinação.
1047- Os velhos se ocupam muito da morte, como os viajantes, em vésperas de viagem, dos seus arranjos relativos.
1048- A bandeira da virtude, em suas campanhas, tem por legenda: -Resistência e Abstinência.
1049- Os governos são tais quais os povos os fazem, os toleram, ou os merecem.
1050- Os que se crêem muito espertos descuidam-se, e são enganados muitas vezes pelos tolos.
1051- Nunca nos cremos bastantemente ricos, porque sabemos que a riqueza é tão fácil de gastar-se como difícil de adquirir-se.
1052- O dia descobre a terra; a noite descortina os céus.
1053- A morte que na opinião dos ímpios é extinção, para o homem religioso é promoção.
1054- A natureza consome tudo, para tudo reproduzir.
1055- Os vivos se reconciliam facilmente com os que morrem, pela razão de que estes deixam de ser desde logo seus concorrentes e lançadores nos bens da vida humana.
1056- O fruto mais precioso da sabedoria humana é uma perfeita resignação com a vontade de Deus pela convicção íntima e pleníssima da sua onisciência e infinita bondade.
1057- A tirania coletiva ou popular é incomparavelmente maior, mais sumária e violenta que a singular, ou de um homem só.
1058- Julgamo-nos infelizes refletindo nos bens que nos faltam, sem nos crermos felizes ponderando os males que não sofremos.
1059- Os pequenos homens se ocupam, se ufanam e se agastam de pequenas coisas.
1060- Ser modesto é transigir com o amor-próprio dos outros homens.
1061- Há muita gente que se queixa, como outra se ri, por hábito e costume.
1062- A velhice é tão suscetível de afeções penosas que aqueles mesmos atos e exercícios, que recreiam os moços, incomodam e fazem enfermar os velhos.
1063- Que galeria de pinturas e retratos em nosso espírito! ela é tão vasta como o mesmo universo, sem ocupar todavia o menor lugar na imensidade do espaço!
1064- A má fortuna persegue a muitos sem justiça, como a boa favorece a outros sem razão.
1065- Os homens ordinários consideram a felicidade sensual como fim, os de superior inteligência como ocasião, meio e instrumento para chegar à moral, intelectual e religiosa.
1066- A virtude é uma escravidão voluntária e racional.
1067- A ignorância crê tudo, porque de nada duvida.
1068- A insignificância é tão penosa para os homens que muitos procuram surgir dela de qualquer modo possível, ainda mesmo pelos crimes.
1069- Não se devem conferir os empregos importantes aos primeiros candidatos que se apresentam, estes são ordinariamente os mais ligeiros de pés e menos graves de cabeça.
1070- Nunca esperem os anarquistas, chegando ao poder, governar tranqüilamente; os maus exemplos que deram e as más doutrinas que inculcaram reverterão sobre eles e contra eles.
1071- Há homens que, descontentes de uma insignificância honesta, se arrojam a intrigas e crimes para alcançar uma celebridade infame.
1072- Os brados de interesse sobrepujam muitas vezes as vozes da consciência.
1073- O homem, como a flor, desabotoa na sua puerícia e adolescência, ostenta os seus primores na virilidade e madureza, declina envelhecendo, murcha, languesce e morre.
1074- O nosso amor-próprio nos compromete freqüentes vezes, persuadindo-nos que sabemos ou podemos muito mais do que realmente é verdade.
1075- Ordinariamente o desejo, plano e execução da vingança, incomodam e abalam mais os nossos espíritos do que as injúrias e ofensas recebidas.
1076- O amor-próprio dos poetas e pintores é sobremaneira irritável; não se contentam com um desagravo ordinário, procuram imortalizar a sua vingança própria.
1077- Os maus, intrigantes e velhacos parecem desconhecer que a linha reta é a única mais breve entre dois pontos.
1078- O sábio em um povo sem ilustração é como a rosa no deserto, onde os insetos a pungem e maltratam, não sabendo prezar os seus perfumes, nem admirar a sua beleza majestosa.
1079- Os homens de sublime engenho elevam-se como as girândolas de fogo, para luzir, iluminar e consumir-se.
1080- O grande empenho da inteligência humana deve ser prevenir ou remover o mal, neutralizá-lo ou transformá-lo em bem.
1081- Não há ciência que exalte e humilhe mais o orgulho dos homens que a Astronomia.
1082- Há uma facúndia arrojada e semidouta que muita gente néscia qualifica de sabedoria.
1083- É imprudência rejeitar os serviços dos maus e velhacos quando eles se oferecem a coadjuvar-nos em uma boa causa; é sobremaneira preferível tê-los antes por auxiliares do que por inimigos.
1084- É fácil governar os homens pelo terror; mas é difícil fazê-lo por muito tempo e impunemente.
1085- A velhice ilustrada é incomparavelmente mais feliz que a mocidade iliterata.
1086- O verdadeiro sábio é um paradoxo vivo e ambulante na companhia e sociedade dos homens ordinários e vulgares.
1087- A paixão pelo jogo pressupõe ordinariamente pouco amor pelas letras.
1088- Convém usar dos homens como são, e das circunstâncias como elas ocorrem.
1089- O sentimento mais nobre e feliz da natureza humana é sem dúvida o do amor e temor de Deus.
1090- Os velhos, porque padecem, acreditam que tudo piora e degenera.
1091- Alegamos muitas vezes a nossa franqueza para justificarmos a nossa maledicência.
1092- Há tempos e circunstâncias em que é prova de habilidade parecer e figurar de inábil.
1093- As sociedades humanas deixam de existir ou se dissolvem quando os vícios e crimes sobrepujam as virtudes.
1094- Os ingratos tornam-se por acesso inimigos dos seus benfeitores.
1095- Deixamos o espírito inculto quando só cuidamos em cultivar os corpos.
1096- A misantropia não é nem pode ser vício ou defeito da gente moça.
1097- Viver é gozar e sofrer, resistir e batalhar com os homens, as coisas, os eventos e elementos.
1098- O furor da novidade destrói o amor e respeito da antigüidade.
1099- Quanto menor é o juízo dos povos tanto maior deve ser o dos que os governam.
1100- Desaprendemos a sofrer quando nos acostumamos a gozar.
1101- Quando os sábios se calam, a monção é propícia aos ignorantes.
1102- Para bem viver importa muito saber sofrer e abster-se.
1103- O egoísmo nestes tempos figura e representa mascarado em patriotismo.
1104- O desprezo da riqueza provém ordinariamente do desgosto de a não ter, ou incapacidade de alcançá-la.
1105- O nosso amor-próprio, muito ocupado de si mesmo, parece não suspeitar nem avaliar o dos outros.
1106- A ninguém, por mais feio que seja, desagrada no espelho a sua imagem, e na pintura, o seu retrato.
1107- Há verdades que conhecemos, muitas que pressentimos, inumeráveis que não podemos conhecer nem pressentir.
1108- Sucede nas revoluções como nas loterias, a perda é de muitos, o ganho de poucos, e, em geral, os mais indignos.
1109- Os anarquistas se erigem em intérpretes dos povos, como os falsos sacerdotes se inculcam órgãos da Divindade.
1110- Onde o luxo cresce, a probidade afraca e desfalece.
1111- A nacionalidade se perde pela imitação e admiração servil das instituições, usos e costumes dos povos estrangeiros.
1112- A morte nos devora apesar dos nossos queixumes, e, cumprindo as leis da natureza, destrói a uns para dar vida a outros.
1113- Os sábios enganam-se pensando que são compreendidos por todos; os ignorantes, presumindo que todos ignoram o que eles sabem.
1114- A idéia do mal é tão inseparável da do bem que uma não pode existir sem a coexistência de ambas.
1115- Não nos gloriemos de saber mais que os outros, com idênticas circunstâncias eles saberiam talvez mais do que nós.
1116- Quando mais nos afadigamos para entreter a vida, encontramo-nos com morte que nos forra o trabalho e cuidados de a manter.
1117- Acresce na vingança ao mal da ofensa, o incômodo e cuidado do desagravo.
1118- Folgamos de enganar-nos sobre a nossa mortalidade, como as mulheres, sobre a própria idade.
1119- Nos altos empregos os grandes homens parecem ainda maiores; mas os pequenos figuram de mais diminutos.
1120- A inveja e ciúme do mérito alheio acusa e revela a mediocridade do próprio.
1121- Somos mais inclinados a dizer mal que bem dos outros homens; o amor-próprio explica este mistério escandaloso.
1122- A genuína sabedoria tende ao Infinito, e reconhecendo por muito limitada a felicidade sensual, procura na imensidade do Universo o objeto que lha pode conferir perene, incessante, inexaurível e eterna, e o descobre em Deus que é a vida, a luz, o movimento e a inteligência universal.
1123- Idéias novas promovem novas combinações, novas opiniões e novas revoluções.
1124- As armas invencíveis da virtude são resistência às tentações e abstinência dos prazeres proibidos.
1125- Ler sem refletir é comer sem digerir.
1126- A religião é a razão e filosofia dos povos.
1127- A fantasia é a lanterna mágica da nossa alma.
1128- Quem atraiçoa o seu rei, não é leal a mais ninguém.
1129- Os bons conselhos desprezados são com dor comemorados.
1130- Os traidores na monarquia não são mais fiéis na democracia.
1131- Fazei-vos pequenos para não serdes invejados, o ódio acompanha quase sempre a inveja.
1132- Devemos temer-nos mais de nós mesmos que dos outros homens.
1133- Governar ou conspirar, ou governar conspirando, é infelizmente a vocação fatal e invencível de muitos homens ambiciosos.
1134- Os prazeres ilícitos, ainda que doces na sua fruição, deixam por fim um travo adstringente e amargoso que nunca mais se dissipa.
1135- Os ambiciosos, como os jogadores, confiam menos na fortuna que na sua habilidade.
1136- Chamamos ordem ao que nos aproveita, e desordem ao que nos prejudica.
1137- Pequenos cuidados afugentam grandes idéias e pensamentos.
1138- As circunstâncias fazem ou descobrem os grandes homens.
1139- O mundo intelectual deleita a poucos, o material agrada a todos.
1140- Os homens são mais ativos na vida ordinária por menos sabedores do que por mais doutos.
1141- As opiniões são fecundas; raras vezes falecem sem deixar posteridade.
1142- Não tem permanência a virtude que não provém da inteligência.
1143- Uma boa cabeça não justifica um mau coração.
1144- O engenho descobre o que a razão vulgar não alcança.
1145- A inveja habitual deforma o semblante dos enfermos deste mal.
1146- A autoridade impõe e obriga, mas não convence.
1147- A razão e a verdade todos afetam querelas, mas bem poucos lhes rendem culto.
1148- Para quem ama e teme a Deus, não há neste mundo completa desgraça.
1149- O ciúme procede especialmente do reconhecimento da própria inferioridade.
1150- Pressuposta a nossa vaidade, raras vezes as ações que praticamos em segredo têm o cunho de morais e virtuosas.
1151- Os velhacos algumas vezes tomam o caráter de homens de bem, mas o disfarce é tão incômodo e violento que não dura muito tempo.
1152- A inveja não empece os invejados e atormenta os invejosos.
1153- A fortuna é cega somente para aqueles que a não compreendem.
1154- Os viciosos amam os seus inimigos, amando os seus próprios vícios.
1155- As opiniões se sucedem como as gerações; as de um século contêm os germes, ou elementos das opiniões e teorias de outros séculos e idades.
1156- A preguiça nos maus é salutar para os bons.
1157- Os tolos e néscios são animais gregários; eles se associam porque se não estranham.
1158- A devoção nas mulheres promove a religião nos homens.
1159- Um dos grandes benefícios do amor das letras e leitura é salvar a velhice da rabugem e mau humor que ordinariamente a acompanham.
1160- Se este mundo é um hospital de doidos, como alguns deles o qualificam, sem dúvida os maiores são os que mais intrigam e se afanam para serem seus administradores ou enfermeiros.
1161- Nas revoluções é fácil a aquisição do título de grande homem: audácia, arrojo, atividade, impudência e velhacaria são documentos suficientes.
1162- O preguiçoso não vê nascer o sol; o homem ativo e laborioso o precede na sua aparição.
1163- Olhos e pensamentos castos vigoram a saúde, e prolongam a vida.
1164- Os homens de superior inteligência suscitam, coordenam ou modificam as circunstâncias como lhes convêm; os de ordinária capacidade sujeitam-se e obedecem às que ocorrem naturalmente.
1165- A ambição se recomenda freqüentemente por amor do bem geral; os tolos a acreditam, os prudentes suspeitam, os sábios a desmentem.
1166- Lamentamos com especialidade nos outros aqueles males, a que nos cremos mais expostos pela nossa condição.
1167- Nenhum homem é cópia de outro: cada um é original na sua fisionomia, constituição, caráter e inteligência.
1168- Os ignorantes invejam aos doutos a sua ciência, e estes aos néscios a sua cômoda ignorância e fácil credulidade.
1169- Os que aspiram à tirania e dominação dos povos são os que ordinariamente mais afetam pugnar por seus direitos e interesses.
1170- Nunca devemos recear-nos tanto de nós mesmos como quando gozamos de maior e mais ampla liberdade.
1171- As verdades descobrem-se, não se inventam; Deus é a fonte única de todas elas.
1172- Pouco mal faz esvaecer muitos bens.
1173- Os povos são felizes quando os moços obram e executam em conformidade dos conselhos ou mandamentos dos mais velhos.
1174- O conhecimento da verdade nos faria a todos uniformes nas nossas opiniões; são os erros que ocasionam tão espantosa variedade.
1175- Os utopistas modernos parecem persuadidos de que a natureza humana é de arbítrio pessoal e não de necessidade irresistível e impessoal.
1176- Cavando muito na natureza para descobrir verdades recônditas e profundas, fabricamos abismos em que inteiramente nos perdemos.
1177- As moléstias do corpo não tolhem a ambição do espírito, antes parecem exaltá-la freqüentemente.
1178- A natureza tolera os excessos na gente moça, mas castiga-os severamente nos velhos, a quem a sua fraqueza e experiência deveriam ter feito mais acautelados.
1179- Os maiores lisonjeiros são também ordinariamente os piores maldizentes.
1180- Deus em sua bondade infinita nos deu olhos para que o víssemos nas suas obras assombrosas, desde o menor inseto ou flor da terra até as estrelas dos céus.
1181- É grande injustiça condenar a loquacidade das mulheres, quando se considera que sem ela as crianças e meninos nunca aprenderiam a falar.
1182- Assim como nas grandes trovoadas a chuva penetra de ordinário em todas as casas, nas revoluções populares todos sofrem mais ou menos em conseqüência dos seus movimentos.
1183- A tolerância de opiniões subversivas da ordem pública torna cúmplices dos males subseqüentes aos que as toleraram, podendo ou devendo resistir-lhes e impugná-las.
1184- O sexo encarregado de criar e pensar os inocentes é como devia ser, por instinto e natureza, o mais terno, paciente e virtuoso: Deus confiou a inocência da virtude.
1185- O progresso nos vícios é tão rápido como é lento nas virtudes; o vício é deleitação, a virtude, abstinência.
1186- Os anarquistas só prosperam onde o espírito público é também sedicioso.
1187- Toda a harmonia é deleitável; a das cores, a dos sons, e com especialidade, a dos homens.
1188- A velhice é prêmio para uns e castigo para outros.
1189- O mal na natureza não é fim, porém ocasião, meio, instrumento ou veículo para o bem.
1190- Há países em que a fertilidade material da terra emenda os erros de entendimento do pessoal dos povos.
1191- De bom ou mau grado, vivemos tão bem para os outros, como para nós mesmos.
1192- A vida humana não é um bem senão porque se articula com muitas outras vidas e a eternidade.
1193- Desconfiai de vós, dos homens e do mundo, mas confiai sempre em Deus.
1194- A paixão de liberdade em muita gente não é mais do que desejo de licença e impunidade.
1195- Os velhos se deleitam e se entretêm com o tempo e o mundo que já passou.
1196- A virtude é feliz na sua desgraça, o vício infeliz na sua ventura.
1197- É aborrecida a nobreza quando predomina a vileza.
1198- Avistamos de longe o melhor e ótimo, raríssimas vezes o alcançamos.
1199- O que há de pior nos vícios é que conduzem ordinariamente aos crimes.
1200- Não toleramos de bom grado a felicidade alheia quando nos reconhecemos por infelizes.
1201- Se os homens não tivessem alguma coisa de loucos, seriam incapazes de heroísmo.
1202- Nada desmoraliza mais os povos que o desprezo ou descrença da religião que professavam.
1203- As paixões nos gastam, mas os vícios nos consomem.
1204- Nunca avaliamos melhor os bens da vida, senão quando infelizmente os havemos perdido: somos mais exatos em calcular os nossos males do que em apreciar a nossa própria felicidade.
1205- O amor da glória, ou ambição de louvor e consideração geral, pode ser um sonho para os candidatos, mas é de utilidade geral para o gênero humano.
1206- A imaginação não é menos engenhosa em atormentar-nos do que em deleitar e recrear-nos.
1207- As enfermidades não enfraquecem menos o espírito do que o corpo; a inteligência se torna pusilânime e receosa.
1208- Um dos argumentos da racionalidade dos homens é saberem que ignoram; os animais por certo não têm o conhecimento da sua ignorância.
1209- A criatura sensível e inteligente, que chegou a adorar, amar e admirar a Deus, não pode ser inteiramente mortal: há nela alguma coisa de divino que sobrevive à mesma morte.
1210- Quando o tufão derruba uma árvore, na sua queda a acompanham todos os animais voláteis e reptis que vivem, se abrigam e têm nela a sua habitação: isto mesmo se observa na mudança ou queda dos governos e ministérios.
1211- Somos constituídos para sermos ativos, e não sábios; a sabedoria no homem é uma excrescência monstruosa que de algum modo o separa da humanidade vulgar.
1212- O ceticismo é um abismo em que se precipitam ordinariamente os homens de maior saber.
1213- Com Deus tudo se explica, sem Deus, este mundo, e o universo, seria mais tenebroso que o mesmo caos.
1214- Ainda que nos ocupemos muito de nós mesmos, nem por isso nos conhecemos melhor do que aos outros.
1215- Para o homem brioso e agradecido, os benefícios recebidos vencem juros cada dia.
1216- Nunca se devem desprezar as advertências dos pilotos velhos que por muitos anos freqüentaram a carreira da vida humana.
1217- A aquisição de um amigo leal e constante não é difícil, quando o buscamos na raça animal dos cães.
1218- A maior loucura política é ampliar a liberdade a quem não tem suficiente capacidade para bem usar dela.
1219- Os falsos patriotas, quando galanteiam a pátria com os nomes de cara e de querida, pretendem seduzi-la ou desfrutá-la.
1220- Querendo inculcar-nos por doutos ou eruditos, nos tornamos freqüentes vezes incômodos e impertinentes.
1221- Os povos menos ilustrados crêem com tanta facilidade nas promessas dos charlatães, como nos milagres das imagens.
1222- A genuína probidade distingue-se especialmente pela sua constante e escrupulosa exatidão.
1223- Os velhacos necessitam de mais talentos que os homens probos.
1224- As nações não envelhecem como as pessoas, porque todos os dias se renovam pelos nascimentos.
1225- A morte é certa, mas o prazo incerto: se a certeza da primeira nos aflige, a incerteza do segundo nos consola.
1226- Os soberbos, como os cegos, trazem sempre as cabeças hirtas e levantadas.
1227- Os erros dos povos são mais graves e desastrosos que os das pessoas.
1228- Alguns homens há, a quem lhes falta até o talento de ser maus.
1229- Quando temos o poder, queremos a ordem; muitos para o conseguirem promovem a desordem.
1230- Avalia-se a inteligência dos povos pela natureza e variedade dos produtos de sua indústria.
1231- O interesse individual é o primeiro elemento da ordem e harmonia social.
1232- De ordinário os que reclamam mais liberdade são os que menos a merecem.
1233- A profunda reflexão é também um dos achaques da velhice.
1234- O melhor governo para os bons é o mais justiceiro; para os maus, o que perdoa e não castiga.
1235- A guerra mais útil aos povos é a que fazem os maus e os velhacos entre si mesmos.
1236- Os moços têm amenidade porque gozam, os velhos causticidade porque padecem.
1237- O pai de família tem muitas vidas; goza e sofre em todas elas.
1238- O mundo, que é sempre novo para os moços, envelhece para os velhos.
1239- Há alguma contradição em desprezar os homens, e ambicionar a sua aprovação.
1240- O mais ativo gastador é ordinariamente o menos hábil ganhador.
1241- Os que mais se queixam são ordinariamente os que menos sofrem.
1242- Esta vida mal se entende sem uma outra subseqüente.
1243- Uns torturam o seu espírito para granjear dinheiro, outros para o gastar e dissipar.
1244- Os avarentos são penitentes sem devoção, nem merecimento.
1245- O anão, quanto mais alto sobe, mais pequeno se afigura.
1246- Os povos mais livres são geralmente os mais ingratos.
1247- O prazer da beneficência nunca termina com o ato, perpetua-se em nós pela memória.
1248- A autoridade é tão poderosa entre os homens, que sustentamos e defendemos com ela as nossas opiniões individuais.
1249- O mundo e a vida humana contêm incomparavelmente mais mistérios e arcanos para os sábios do que para os ignorantes.
1250- Tempos há em que é menos perigoso mentir que dizer verdades.
1251- O amor extremoso desculpa, quando não louva, os defeitos do objeto amado.
1252- O arrependimento pressupõe uma pena que receamos ou que já sofremos.
1253- O avarento esconde o seu tesouro para que o não roubem; o sábio oculta o seu cabedal para que o não maltratem pessoalmente.
1254- Poucas das pessoas que condenamos nos pareceriam culpadas, se pudéssemos conhecer perfeitamente todas as circunstâncias que precederam, acompanharam, influíram ou determinaram a conduta que julgamos digna de censura ou de castigo.
1255- Nos homens e nações a maior independência pressupõe superior inteligência.
1256- Para o homem brioso e agradecido, os benefícios recebidos vencem juros cada dia.
1257- Não tomeis o trabalho nem o risco de vingar-vos, é provável que sejais injusto no vosso desagravo; consignai à ordem moral a vossa vingança; não ficareis insultos, e esta será justa sem excesso nem defeito.
1258- A impunidade não salva da pena e castigo merecido; retarda-o para o fazer mais grave pela reincidência e agravação das culpas e crimes subseqüentes.
1259- Os charlatães e os velhacos têm o condão de agradar aos tolos e aos povos: os homens probos e doutos são destituídos daquela impudência e desembaraço, que atraem tanto a sua confiança.
1260- Os homens que intrigam e cabalam para governar os povos, quando não são velhacos, pelo menos são tolos ou imprudentes. Muito mal conhece os homens quem aspira a governá-los.
1261- Condenamos irrefletidamente nos moços a vergonha e acanhamento que os defendem de muitos males e perigos, suprindo de algum modo a razão e a virtude que ainda recentes não os podem dirigir e resguardar.
1262- O mal e o bom não são substâncias distintas, ou entidades reais, porém modos ou maneiras de sentir em nós, agradáveis ou desagradáveis, aprazíveis ou dolorosas, efeitos da nossa organização sensível e impressionável interior e externamente.
1263- A grande e presente fermentação e descontentamento dos povos provêm com especialidade da supressão, ou decadência, das idéias e crenças religiosas; o vazio que ela ocasiona corresponde a um abismo.
1264- Como não há eventos isolados na plenitude da natureza, as revoluções, ainda que apareçam de repente, são obra e produtos de muito tempo, circunstâncias e antecedentes.
1265- Deus é infinitamente maior e melhor do que os homens o imaginam.
1266- A inteligência humana derivada da divina contém alguma coisa da faculdade criadora e produtiva da sua origem, o que se manifesta nas obras inumeráveis dos homens, destinadas ao seu uso, cômodo, recreação e defesa.
1267- A liberdade de pensar pode ser ilimitada, a de falar, escrever e obrar deve ser muito restrita e definida; não ofendemos com o pensamento mas com as palavras e ações.
1268- O gênero humano progride e se adianta em conhecimentos e inteligência como se fora um só homem que durasse, estudasse e aprendesse por muitos séculos e milênios.
1269- Poderíamos existir eternamente aprendendo sempre, sem nunca se exaurir a matéria do saber: tal é a sabedoria infinita de Deus, a imensidade do espaço e das suas obras!
1270- O espaço que parece limitado aos nossos olhos é infinito e imenso para o nosso espírito.
1271- A nossa vida se exala como o vapor, e se condensa nos céus.
1272- Ampliamos a esfera da nossa sensibilidade, multiplicando as nossas relações domésticas e sociais, e nos expomos a maiores cuidados e sofrimentos.
1273- O homem preenche mal o seu destino, quando não passa do mundo concreto ao abstrato, e das idéias sensuais às noções gerais e universais.
1274- A felicidade sensual consiste na saúde, a moral na virtude, a intelectual no estudo da natureza e a religiosa no amor e temor de Deus.
1275- Sem os males que contrastam os bens, não nos creríamos jamais felizes por maior que fosse a nossa felicidade.
1276- Este mundo é um vasto e complicado labirinto em que o homem se perde e desatina, se a virtude o não dirige e acompanha.
1277- O martírio pelo céu é santidade, pela terra é sandice ou fatuidade.
1278- Concebemos sempre mais e melhor do que podemos executar.
1279- Temos ordinariamente melhor opinião da posteridade que das gerações presentes e contemporâneas; conhecemos os vícios e defeitos destas, e não pressupomos os daquela.
1280- Julgamo-nos felizes somente quando bem compreendemos como e quanto podemos ser desgraçados.
1281- Vivemos entre duas eternidades que limitam a nossa existência e nos constituem mortais neste intervalo.
1282- Os velhos, condenando as travessuras dos moços, censuram a história da sua pretérita mocidade.
1283- O que o gênero humano sabe é pouco; o que deseja saber muito; o que há-de sempre ignorar: infinito.
1284- Os homens não se toleram senão porque figuram de tolos freqüentes vezes.
1285- A fortuna sem virtudes é mais desastrosa que a desgraça.
1286- A alegria do sábio e do justo é interior e serena; a do ignorante e vicioso, ruidosa e exterior.
1287- A doçura e beleza das mulheres parecem inculcar que são anjos e serafins que desceram dos céus e se humanaram na terra.
1288- Os maus se associam com mais freqüência que os bons; reconhecem a sua fraqueza moral na opinião da maioria humana.
1289- Não nos arrependemos porque erramos ou fizemos o mal, mas porque sofremos ou receamos sofrer em conseqüência dele.
1290- Ninguém é tão mau na ação e na praxe como o pode ser no pensamento.
1291- Purificai os vossos pensamentos, e as vossas palavras e ações serão tão puras como eles.
1292- A importância da riqueza e poder provêm da capacidade que conferem aos homens de fazerem muito mal ou muito bem.
1293- O maior poder provoca ordinariamente o maior abuso.
1294- Os moços apaixonam-se pelo bonito e lindo, os homens experientes e maduros, pelo belo.
1295- A vaidade é tão frívola e fútil que motiva mais riso que compaixão.
1296- Sempre nos deleitamos mais em falar do que os outros em nos ouvirem.
1297- Os homens taciturnos têm inumeráveis ocasiões de congratular-se do seu silêncio.
1298- Como o incenso só recende depois de queimado, a glória dos grandes homens refulge sem eclipse depois de mortos.
1299- As grandes descobertas são revolucionárias entre os homens, alteram as suas instituições, usos, costumes e opiniões.
1300- O moço a cavalo prefere galopar, o velho andar a passo; assim a natureza carateriza as idades.
1301- As amizades, como as árvores bem cultivadas, produzem copiosos frutos.
1302- Somos mais vezes instrumentos das circunstâncias do que agentes da nossa própria vontade.
1303- Ganhamos ordinariamente mais em ouvir do que em falar, quando falamos, despendemos, quando ouvimos, arrecadamos.
1304- As nações não morrem de velhas, as revoluções as remoçam.
1305- Há muita gente que se considera infeliz em não alcançar o que a fizera realmente desgraçada se chegasse a conseguir.
1306- As verdades não parecem as mesmas a todos, cada um as vê em ponto diverso de perspetiva.
1307- Muitos homens presumem honrar a sua insignificância social afetando desprezar os títulos, honras, insígnias e empregos que não podem nem esperam conseguir.
1308- Não lamentamos de ordinário a morte dos outros, senão porque sugere ou desperta a idéia da nossa própria.
1309- Os preguiçosos mostram-se algumas vezes muito diligentes para evitar a nota de indolentes.
1310- O sábio, como a antiga Pitonisa, duvida, estremece e sente violência no emitir os seus oráculos.
1311- Como a chuva amolece a terra, o pranto da mulher abranda o coração do homem.
1312- A glória humana murcha como a beleza e as rosas, e os nomes dos grandes homens têm também de sumir-se no abismo do esquecimento e do nada.
1313- Os que tiram maior proveito dos empregos, são os que ordinariamente mais se queixam do trabalho; cuidados e responsabilidade a que eles obrigam e sujeitam: exageram os seus incômodos para que se não cobicem as suas vantagens.
1314- A preguiça é tão verbosa como ociosa.
1315- O sábio e virtuoso estreita cada vez mais a esfera das suas relações sociais a fim de ter menos ocasiões de ofender os outros, ou ser por eles ofendido.
1316- O exercício ginástico que mais ocupa, diverte e incomoda os homens é o de saltarem uns sobre os outros, por cima de muitos ou de todos.
1317- A probidade por si só pouco adianta os homens, mas assistida de talentos e ciência é um meio eficaz e poderoso de pessoal exaltação.
1318- Subir aos maiores empregos do Estado não é sempre argumento de grandes e distintos talentos nos promovidos, mas freqüentes vezes da consumada estultícia ou velhacaria dos que contribuíram para tão injusta e escandalosa exaltação.
1319- O medo provém da experiência e da falta dela.
1320- O desejo insaciável de ciência é um argumento entre muitos da imortalidade da alma, e da subseqüência de uma vida futura.
1321- Um dos maiores obstáculos ao adiantamento e promoção das pessoas de grandes talentos e ciência é ordinariamente o seu mesmo orgulho ou presunção.
1322- A leitura, como a comida, não alimenta senão digerida.
1323- Ninguém se conhece tão bem como conhece algum dos outros homens.
1324- Todos alegam razão quando em tudo só se vê paixão.
1325- Os importunos roubam-nos o tempo, e nos consomem a paciência.
1326- O maior trabalho dos que governam é tolerar os importunos.
1327- A morte desengana sem proveito aos que morrem, e com pouca utilidade aos que vivem.
1328- Aprendemos da experiência dos outros; as lições que a própria nos dá saem sempre muito caras.
1329- Homem palavroso e facundo não é seguro no seu trato.
1330- Se a inteligência humana é fruto da organização cerebral, esta de quem é produto?
1331- A celebridade do crime perpetua a sua execração.
1332- A fazenda roubada nunca é bem aproveitada.
1333- Criamos entidades personalizando abstrações; eis a causa dos nossos maiores erros.
1334- A ambição nos faz perder freqüentes vezes os bens de que gozamos, correndo inutilmente após daqueles que cobiçamos.
1335- O juízo dos homens é tão vário que uns consideram como verdades o que outros reputam disparates.
1336- Todos inculcam apetecer descanso, quando é verdade que nada cansa e incomoda mais os homens.
1337- Não há beleza material que não expresse uma idéia, pensamento ou sentimento moral.
1338- Os velhacos pugnam muito por seus direitos, mas prescindem dos seus deveres.
1339- Deixemos aos imprudentes a ambição de governar os povos; cuidem os prudentes em bem governar a si próprios.
1340- Os escritores e jornalistas não são sanguinários; vertem tinta e fel, mas não derramam sangue.
1341- Facilitemos aos homens pela educação a felicidade moral e intelectual, a fim de que menos se ocupem da sensual que tantos trabalhos, incômodos, desgostos e misérias ocasiona.
1342- Os imprudentes e estouvados ofendem a muita gente, sem intenção nem propósito de ofender a pessoa alguma.
1343- Nenhum senhorio é tão absoluto como o que conferem os povos aos tiranos de sua escolha.
1344- Os sábios não dizem tudo, nem o melhor que sabem: receiam com razão não serem compreendidos, mas perseguidos.
1345- Os velhos, sendo prudentes, são acusados de indiferentes.
1346- Descobre-se tanto saber no ceticismo dos sábios, quanto ignorância na credulidade dos néscios.
1347- Os mais sábios legisladores são aqueles que melhor sabem travar este mundo com o outro, a vida presente com a futura.
1348- Os homens mais invejosos são ordinariamente os menos invejados.
1349- O invejoso tem em si próprio o seu algoz, patíbulo e suplício.
1350- A atividade dos maus se resolve finalmente em seu dano e detrimento.
1351- A embriaguez habitual se anuncia pelo desalinho pessoal.
1352- A modéstia se contrai; a vaidade, pela sua expansão, ocupa muito espaço de lugar e tempo.
1353- Como o sol alumia em toda a sua periferia, o homem deve ser benfeitos em todas as direções.
1354- A soberba não é menor nos pobres que nos ricos, mas as necessidades e dependência dos primeiros a comprimem de maneira que mal se descobre ou aparece muito resumida: é nas revoluções populares que ela faz a sua explosão.
1355- O nosso espírito esfria e se congela nas companhias que desprezamos.
1356- Há tempos calamitosos em que o maior tormento da velhice é tolerar a mocidade.
1357- Os homens nunca aborrecem tanto o poder nos outros, como quando o cobiçam mais para si mesmos.
1358- Aquele que diz bem de todos, por ninguém deve ser desmentido.
1359- Declamamos ordinariamente contra os que governam para nos inculcarmos por mais hábeis e capazes de governar.
1360- Cada homem, tendo uma vocação especial como uma fisionomia privativa, torna-se inútil, incômodo ou nocivo, sendo empregado fora da sua esfera e propensões.
1361- Não há sujeição igual à que sofrem as pessoas bem educadas e polidas na companhia de homens malcriados, grosseiros e vilãos.
1362- Ninguém conhece melhor os seus interesses do que o homem virtuoso; promovendo a felicidade dos outros assegura também a própria.
1363- Aviltam-se os lugares mais importantes, sendo ocupados por pessoas sem prestígio e insignificantes.
1364- Os vícios dos grandes promovem e de algum modo justificam os crimes dos pequenos.
1365- Os velhos são ordinariamente mais egoístas e menos filantropos que os moços.
1366- Os ignorantes se contentam com possuir o mundo material, sem invejarem as descobertas e conquistas que os sábios fazem no mundo intelectual.
1367- Vivificamos e racionalizamos o mundo externo e material com a nossa própria inteligência e vitalidade.
1368- O futuro é um teatro em que a imaginação humana faz executar os dramas de sua invenção.
1369- A morte faz perdoar ou absolve os homens eminentes da sua superioridade ou transcendência intelectual.
1370- Fica sem caráter ou perde o próprio quem, para agradar, se amolda aos dos outros homens.
1371- Os velhos impugnam as modas recentes, e defendem as antigas.
1372- As recordações mais aprazíveis são as do bem que fizemos e dos males que evitamos.
1373- No laboratório da natureza, a vida e a morte são os dois grandes produtos e instrumentos da sua atividade e operações.
1374- Alguns homens ganham por tolos o que outros não alcançam por avisados.
1375- O futuro desmente ordinariamente os nossos cálculos, quando se resolve em presente.
1376- As revoluções, como os tufões, levantam poeira que cega e faz desatinar a toda gente.
1377- O progresso dos néscios e velhacos é sempre do mal para o pior e péssimo.
1378- O futuro é para muitos homens tímidos ou prudentes como as trevas da noite que figuram espectros e fantasmas colossais.
1379- Fama e fome são dois grandes agentes e instrumentos de infâmia e glória.
1380- A nossa imaginação é mais leviana, extravagante e indecente do que o nosso procedimento.
1381- O lisonjeiro é um mentiroso aprazível e mercenário.
1382- A modéstia é econômica, a vaidade dispendiosa.
1383- O amor da nossa individualidade faz inevitável o terror da morte que a destrói.
1384- A inveja para seu tormento exagera o valor dos bens invejados.
1385- O luxo guarnece os seus devotos do frívolo e supérfluo, e depois os entrega à indigência para os punir com privações.
1386- A ingratidão coletiva dos povos é punida pela ordem moral por uma pena igualmente coletiva.
1387- A liberdade da imprensa é talvez o melhor remédio e corretivo do abuso das outras liberdades.
1388- A avareza é mais um achaque adicional da velhice.
1389- Custa menos enganar que desenganar os povos: a sua ignorância facilita o engano, a sua credulidade dificulta o desengano.
1390- Desconhecemo-nos freqüentes vezes, tão diversos somos de nós mesmos em diversas circunstâncias!
1391- O egoísta é aquele que, referindo tudo a si, não sabe avaliar a dependência e relações em que está com os outros homens.
1392- O nosso amor-próprio é o maior de todos os sofistas, ninguém defende com tanto zelo e facúndia os nossos erros, defeitos e desvarios.
1393- As vaidade individuais na sua expansão encontram uma resistência recíproca que impede a sua exorbitância.
1394- São os homens de maior inteligência os que vivem mais em um tempo dado de existência individual.
1395- O crer é menos incômodo e penoso que o descrer.
1396- A ignorância é prolixa em seus discursos, a sabedoria concisa e resumida.
1397- A economia do tempo é menos vulgar e mais importante que a do dinheiro.
1398- De toda a nossa propriedade a mais incerta e menos segura é a própria vida.
1399- O favor dos poderosos é muitas vezes mais incômodo do que o seu desagrado.
1400- A crença mais razoada é sempre a mais firme e permanente.
1401- A privança com os poderosos compromete ordinariamente mais do que aproveita.
1402- A impunidade promove os crimes, e de algum modo os justifica.
1403- A grande riqueza para ser tolerada, deve manter e divertir os pobres.
1404- O preguiçoso confia na fortuna, o homem industrioso e probo em Deus, e no seu trabalho.
1405- A capacidade das inteligências distingue-se pela facilidade de descobrir relações, achar analogias, fazer abstrações, e generalizar idéias.
1406- Tempos há em que os povos não podem tolerar autoridade alguma, outros sobrevém em que chegam a adorar a mesma tirania.
1407- O trabalho por fazer nos incomoda, o feito nos desabafa.
1408- O motivo ordinário da nossa tristeza é a idéia de algum mal que fizemos, ou receamos sofrer.
1409- É penoso dizê-lo, confiamos menos nos homens à medida que mais os praticamos.
1410- A genuína virtude não é austera nem sobranceira, mas alegre, amena e jovial.
1411- Desagrada a todos a ditadura, no saber como no poder.
1412- O governo de muitos é desgoverno para todos.
1413- O nosso corpo é todo articulado para que sejamos flexíveis, e possamos dobrá-lo e curvar-nos, quando seja necessário.
1414- O homem que não é exato não tem palavra, nem probidade.
1415- O maior sábio da terra fora aquele que melhor conhecesse a extensão da sua ignorância.
1416- A verdade é simples e luminosa, a impostura, composta e misteriosa.
1417- Somos fáceis em prometer e difíceis em cumprir; prometemos por surpresa, e cumprimos com reflexão.
1418- A benevolência não é eficaz sem a beneficência que a completa.
1419- Tanto cresce o poder dos homens, quanto aumenta o seu saber.
1420- O universo corresponde a um salão imenso de banquete em que todos os viventes são comensais da divina providência.
1421- A nossa vaidade atraiçoa e revela freqüentes vezes a nossa incapacidade.
1422- O homem calado faz-se suspeitoso como o embuçado.
1423- Agravamos o nosso trabalho e cuidados, aumentando as nossas necessidades.
1424- A imaginação ora aterra, ora diverte a razão para melhor a dominar.
1425- A economia é companheira inseparável da probidade.
1426- O homem bom espera mais do que teme, o mau receia mais do que espera.
1427- A inexperiência da mocidade ocasiona a sua originalidade.
1428- As palavras rendem a força, como os fluidos dissolvem os sólidos.
1429- São caluniados os que não podem ser censurados.
1430- Não desejamos somente que os outros homens trabalhem, mas também que pensem por nós, e para nós.
1431- Não é dificultoso governar um povo religioso.
1432- Como há flores que perfumam os ares, há homens que edificam os povos com seus exemplos e doutrinas.
1433- A paixão dos moços é desfazer e destruir, a dos velhos, reparar e construir.
1434- A ostentação intempestiva ou importuna de ciência e erudição é pedantismo.
1435- O orgulho do saber é talvez mais odioso que o do poder.
1436- O perdão conferido aos maus torna cúmplices os que lho deram.
1437- A trapassaria humana diverte e ocupa na mocidade, mas enfada, enoja e incomoda na velhice.
1438- Observa-se em muita gente que melhora de costumes, piorando de saúde ou de fortuna.
1439- Os mundos também são sexuais: o sol fecunda a terra e a faz produtiva e populosa.
1440- É tal a mudança e poder das circunstâncias que os mesmos bens que em um tempo se nos figuram de impossível aquisição, em outro se facilitam, e vêm buscar-nos sem o menor trabalho da nossa parte.
1441- Os louvores que damos são amigos que granjeamos.
1442- Vemos os objetos pela luz, e conhecemos a existência da luz pelos objetos que a refletem.
1443- A imprudência de poucos compromete e incomoda a muitos.
1444- Os homens que sabem muito dependem pouco ou menos do que os outros.
1445- O espírito por sutil se evapora, quando o juízo por grave permanece.
1446- A saúde é um bem de tal importância que ela só constitui o fundo principal da felicidade humana.
1447- Muito pouco sabe quem mais se ufana do seu saber.
1448- A roda da fortuna não é outra coisa mais que a mudança de circunstancias, e variedade dos eventos.
1449- A proteção dos homens é ordinariamente estéril, a de Deus sempre fecunda de bens e bênçãos.
1450- A organização dos corpos individuais pode servir-nos de exemplo e norma para constituir e organizar os sociais e coletivos.
1451- De todos os animais gregários e sociais, os homens são os que mais estudam e menos sabem constituir-se e governar-se.
1452- Os velhos pelos seus achaques ocupam-se tanto de si mesmos que não lhes resta tempo para cuidarem dos interesses alheios ou gerais.
1453- Pouco nos importa saber porque gozamos, mas interessa-nos muito conhecer as causas dos nossos males para os prevenir ou remover; daqui provém que a desgraça nos instrui muito mais do que a ventura.
1454- A esfera da ação do nosso corpo é tão limitada, quanto é vasta e incalculável a da nossa inteligência.
1455- Os ignorantes, porque não conhecem o poder e importância das relações sociais, são mais egoístas que os inteligentes.
1456- Nada conserva e resguarda tanto a saúde como a virtude.
1457- Não apreciamos os grandes homens presentes, respeitamo-los ausentes, e veneramo-los depois de mortos.
1458- O amor, como um incêndio, quanto maior é, menos atura.
1459- A vida se usa tanto quanto mais se abusa.
1460- O que mais esperança e consola os homens no extremo da sua vida é a doce recordação dos bens que nela fizeram.
1461- É necessário não ter caráter e opinião própria, para bem viver com os homens e agradar a todos.
1462- O prestígio do nascimento é de tal natureza que não se pode comprar, nem vender, trocar ou alienar de modo algum.
1463- A beneficência nos confere a virtude magnética de atrair os homens e fazê-los contribuir e interessar-se na nossa felicidade.
1464- O universo é um sistema imenso de amores de que Deus é o inventor, fonte, causa, meio e fim.
1465- A posteridade celebra os nomes e obras de muitos homens que desprezaria, se os conhecesse e praticasse pessoalmente.
1466- A admiração exclui o louvor por diminuto.
1467- Já não vivemos de graça quando temos estudado e meditado profundamente o mundo, a vida e a natureza humana.
1468- Chegamos a uma idade em que, fatigados da intriga e trapaçaria humana, preferimos o retiro à companhia e sociedade dos homens.
1469- Os povos e nações são respeitáveis ou terríveis, menos pelas unidades e parcelas de que se compõem, que pela soma total de todas elas.
1470- Os agentes e instrumentos das sedições e insurreições são ordinariamente os loucos, tolos, famintos e velhacos.
1471- Os homens, dizendo em certos casos que vão falar com franqueza, parecem dar a entender que o fazem por exceção de regra.
1472- Quando, em uma idade avançada, rememoramos os eventos da nossa vida, reconhecemos o império das circunstâncias que os promoveram, e a ação permanente de uma providência misteriosa que nos assistiu com o seu favor onipotente.
1473- Feliz, e três vezes feliz, aquele que, havendo servido os maiores empregos do Estado, não fez verter lágrimas, nem tomar luto a pessoa alguma!
1474- Quando escrevemos, fixamos o nosso pensamento, e de algum modo o perpetuamos em nossa vantagem ou detrimento.
1475- Não devemos estudar profundamente os nossos amigos e conhecidos, um tal estudo nos poderia levar insensivelmente a desprezo ou aversão para com eles.
1476- O mundo pertence especialmente às gerações novas, cheias de ceve, energia e força, e não às velhas, que se destroçam em retirada, sem poderem defender a sua possessão.
1477- O corpo grave e reptil adere à terra, o espírito volátil e sutil demanda os céus.
1478- Não admireis as obras dos homens; subi mais alto, admirai aquela sabedoria infinita que lhes delegou inteligência suficiente para as produzir tão engenhosas e variadas.
1479- A impunidade tolerada pressupõe cumplicidade.
1480- Os ricos e poderosos devem ser, para os pequenos e pobres, como as montanhas e serras que dão abrigo aos vales, e os fertilizam com as águas e terra pingue que lhes enviam na sua opulência majestosa.
1481- Grande e sublime é a idéia da onipresença de Deus! O infeliz subterrado em uma masmorra não verte uma lágrima que não seja vista, não exala um suspiro que não seja ouvido, por quem tudo sabe e tudo pode, o criador e protetor indefectível da humanidade!
1482- O tempo voa para quem goza, e se arrasta para quem padece.
1483- Os anarquistas em um tempo são os tiranos em outro, se conseguem governar.
1484- Personalizamos alguns nomes coletivos, e lhes tributamos uma veneração e respeito que não merecem as individualidades que neles se compreendem.
1485- O pensamento humano, mais sutil e veloz do que a luz, sobe e se eleva mais alto do que as nuvens, e no seu vôo assombroso transcende as barreiras do universo visível, contempla o infinito e se expande na imensidade.
1486- Calamitosos são os tempos em que a insignificância alcança preponderância!
1487- A reflexão é fecunda de verdades, a imaginação de erros e ilusões.
1488- A embriaguez é o refúgio ordinário dos maus e viciosos contra os reproches da própria razão e consciência.
1489- Há homens dignamente reputados extravagantes, que blasonam todavia de ser singulares nas suas opiniões e teorias.
1490- Em matéria de amor-próprio o mais pequeno inseto não o tem menor que a baleia ou o elefante.
1491- A estultícia de uns provoca e suscita a velhacaria em outros.
1492- É muito incômoda para nós, freqüentes vezes, a opinião exagerada que os outros homens têm de nossa importância pecuniária, mental ou social.
1493- Os homens, como os polígonos, têm geralmente muitos ângulos, faces ou lados.
1494- Considerar os povos muito racionais é não conhecer os elementos e unidades de que se compõem, e cuja soma representam.