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Contrastes e confrontos

Quem vai com Humboldt através das serras e das gentes do Peru, observa um paralelismo interessante.

Copiam-se, refletem-se. A história, ali, parece um escandaloso plágio da natureza física. Busquemo-la em todos os tempos e em todas as datas -com o arqueólogo nos baixos-relevos dos templos desabados, com o geólogo nas páginas unidas dos estratos que se dobram nas vertentes abruptas, ou com os cronistas coloniais nas emocionantes narrativas dos «conquistadores» e veremos um baralhamento de contrastes em que os fatos sociais recordam um decalque dos fatos inorgânicos, repontando, reproduzindo-se e traduzindo-se entre dois extremos: os Andes e a civilização dos incas, os terremotos e o Peru dos «pronunciamentos».

Vai-se da terra que se retalha e se esboroa presa nas redes vibrantes das curvas sismais que rudemente a sacodem, à impotência imóvel da cordilheira equilibrada numa ossatura rígida de dolerito; do império patriarcal, e esteado numa teocracia inflexível e no regime das castas, à república revolta e doidejante, intermitentemente abalada pela fraqueza irritável dos caudilhos.

Não se disfarçam estes contrastes e estas identidades. Eles lá estão na faixa litorânea amaninhada pelas dunas e na montaña feracíssima, que as matas ajardinam. Numa e noutra se fronteiam um passado imemorial quase maravilhoso e um presente indefinido e deplorável. Fronteiam-se e repelem-se. Destacam-se tão incompatíveis que o viajante, sem que o perturbem os agrupamentos incaracterísticos que hoje ali se agitam, pode reconstruir nos seus aspectos dominantes toda a idade de ouro dos aimaras.

Segue a princípio pelo deserto salpintado de oásis, que se desata de Arica a Tumbez, e encontra para logo, nas huacas subterrâneas, a própria sociedade antiga: múmias ressequidas, abertos no escuro das colônias tumulares os olhos de esmalte, num protesto eloqüentíssimo contra a destruição.

Mais longe, nas cercanias de Pachacamac, as ruínas dos primeiros santuários do Sol: longas galerias de muros derruídos culminando as serranias, e os primeiros baluartes arremessados na altura, nos cimos que sobranceiam o Pacífico, denunciando um tino incomparável nos dispositivos para a defesa do território.

Prossegue até Trujillo e desponta-lhe um traço superior de caráter utilitário da administração incásica: as acéquias e os diques que canalizavam ou abarreiravam os rios, alastrando em largas superfícies as redes irrigadoras, permitindo culturas opulentas em lugares onde jamais chove, ou um trecho muitas vezes secular, de estrada incomparável, estirando-se em lajedos planos para o levante, investindo com os primeiros esporões da cordilheira... Subindo-a, vai num crescendo a imagem retrospectiva do passado.

A paisagem torturada da serra, em que a luz crua do trópico não anima as cores apagadas da flora rarefeita, e os horizontes se abreviam no escarpado dos pendores, não impressiona. Suplanta-a a ruinaria da civilização lendária. É a princípio a mesma estrada que se pisa: uma avenida do Equador ao Chile, torneando as encostas em cortes na rocha viva, transpondo despenhadeiros em pontes suspensas que precederam de séculos às da nossa engenharia pretensiosa, e evocando nos traços remanescentes dos postos militares, nas estações intervaladas, nos parques escalonados em que se encerravam os lhamas velocíssimos, os tempos gloriosos em que lhe batiam no calçamento de silhares o tropear dos exércitos, o galope dos correios céleres e a marcha das longas caravanas dos mercadores tranqüilos.

Ladeiam-na fortalezas e templos.

De Cajamarca a Cuzco não há talvez um quilômetro onde uma pirâmide truncada, um obelisco, um pilar, um pedaço de muro, um pórtico desabado, um bloco de granito polido com desenhos em relevo, e um renque de monólitos, e uma cariátide monstruosa de pórfiro azulado -não recordem a raça extraordinária, que, sem conhecer o ferro, se afoitou a cinzelar a pedra, e com uma frágil ferramenta de bronze criou uma escultura monumental em blocos de montanhas.

Em Olataitambo os santuários talharam-se na rocha viva.

Pisace é um contraforte de cordilheira e uma fortaleza; coroam-na sete píncaros, sete baluartes; ninguém lhe marca o ponto em que as ousadias do homem cederam às grandezas naturais, porque, com lhe derivarem as encostas em taludes fortes, as plataformas circulantes que lhas dominam em sucessivos patamares multiplicaram-se, cobrindo-as inteiramente com a imagem exata de uma assombrosa escadaria de gigantes.

A estas brutalidades da força aliaram-se, maiores, os prodígios da inteligência. À natureza que lhe negava as chuvas, o inca contrapôs a preocupação científica do estudo persistente do clima, ainda hoje tão bem denunciado no aquário de pedra do observatório higrométrico de Quenco.

Foi buscar os mananciais eternos dos nevados; captou-os; dirigiu-os em aquedutos, ora ajustados às vertentes, ora subterraneamente varando serranias; ou então -pormenor que é um recuo considerável das origens da hidráulica moderna- lançados de uma a outra serra em vasos comunicantes desmedidos. Por fim, nos lugares onde não encontrou o cerne rijo da terra para erigir os seus monumentos, inventou os aparelhos poligonais ciclópicos: uma arquitetura para desfiar o cataclismo...

* * *

Mas não previu o espanhol do século XVI.

A raça forte e pacífica, que dava os primeiros lugares aos inspetores agrícolas, aos engenheiros, que lhe abriam as estradas e os canais, e aos arquitetos, que lhe alteavam os templos, foi colhida à traição pela brutalidade militar da Espanha.

Fez-se na história a cópia servil de um daqueles terremotos que no Peru subvertem cidades em minutos.

À unidade da raça autóctone, disciplinada e íntegra, marchando com um método tão seguro que lhe permitiu tão altos cometimentos, contrapôs-se a desordem de uma exploração em larga escala e o dispersivo dos caracteres de imigrantes atraídos de todos os países.

Porque o peruano é, ainda mais do que nós, uma ficção etnográfica.

Em 1873 Charles Wiener contemplou, numa das ruas de Lima, uma galeria de quase todas as raças -o branco, o negro, o amarelo e o bronzeado- e todos os cambiantes destas cores, do zambo ao cholo, do mulato ao chino-cholo -completada por uma separação absoluta de classes, do cooli, que aluga a liberdade, substituindo o negro, ao estrangeiro que ali chega, explora adoidamente a terra e vai-se embora, ao quíchua, espalhando na tristeza incurável a doença de sua gens que está morrendo... No alto o neto dos conquistadores, o quase hidalgo, em que pese a mestiçagem, o condutício dos caudilhos, o irrequieto industrial das revoluções, o que se diz peruano, guardando intacta a velha altivez espanhola, quer a estadeie entre as opulências das haciendas, ou a levante, mais impressionadora, revestido de andrajos, e mendigando intimativamente como se fosse um gentil homem da miséria...

Ora, toda essa gente -à parte as culturas nos pontos em que se desenterram as acéquias dos antigos- de um modo geral se aplica aforradamente, numa agitação ansiosa, aos únicos trabalhos que lhe não implicam as disparidades de um temperamento e as divergências de esforços: saqueia a terra e o passado. Arrebata-lhes o ouro, e a prata, e os nitratos, e o guano, e as múmias, e as pedras dos templos.

Desbastam-se as costas e as ilhas, degradam-se os flancos das serranias, profanam-se as pirâmides funerárias, e revolvem-se as huacas, que, às vezes, valem pelas melhores minas, bastando notar-se que com um quinto de ouro de uma delas se construiu Trujillo...

Não se define o repulsivo dessas pesquisas lúgubres e dessa indústria macabra, que tem como matéria-prima arcabouços disjungidos e profanados, ou velhos sudários em pedaços.

Nada caracteriza melhor o parasitismo, o desapego às tradições, a falta de solidariedade e o desequilíbrio de energia das gentes que abarracaram por aquelas bandas.

O passado é um despojo.

Aproveitam-no na sua forma estritamente utilitária. E neste apropriar-se a esmo, a sociedade revolucionária e frágil vai dando uma expressão tangível ao contraste que a apequena ante a sociedade morta. Vêem-se então mesquinhos pardieiros desequilibradamente eretos sobre embasamentos ciclópicos; ou cidades, e citemos apenas Huamachuco, construídas com os blocos arrancados dos templos: uma triste projeção horizontal de velhas fachadas, um acaçapado estiramento de grandezas repartidas em casas de tetos deprimidos e paredes espessas, e uma melancólica arquitetura de ruínas...

* * *

Ora, esta atividade, que um sem-número de causas físicas e sociais tornaram impulsiva, agitadíssima e estéril, derivando em desfalecimentos e arrancos, rebate-se na existência política do Peru. Daí a monotonia irritante dos pronunciamentos, os desastres das guerras infelizes e o tumultuário das perigosas sucessões presidenciais, que ora se fazem, progressivamente, à americana, a revólver, ora com o requinte feroz daquele suplício dos dois usurpadores Gutierres -expostos, oscilantes, nas torres da Catedral de Lima, e despenhados, depois, do alto daquelas duas Tarpéias barrocas para as fogueiras vingadoras acesas na Plaza de Armas...

* * *

Confrontados estes contrastes, acredita-se quase que as incursões peruanas, neste momento exercitadas nas fronteiras remotas do Alto Juruá, se traduzam como uma retirada, uma tendência para abandonar a estreita e alongada região onde uma nacionalidade, cujos antecedentes étnicos prefiguram mais elevados destinos, jaz bloqueada entre o maior dos mares e a maior das cordilheiras, sobre um solo batido pelo desequilíbrio dos agentes físicos e em contacto com um passado que tanto tem influído na sua desfortuna.

Realmente, no Levante, transmontada a segunda cadeia dos Andes, desdobra-se a natureza estável -sem catástrofes e sem ruínas- guardando intactas as forças criadoras, à espera da componente prodigiosa do trabalho, e oferecendo, no remanso das culturas, na disciplina da atividade, adstrita a longos esforços conscientes, e na sugestão permanente da própria harmonia natural, a situação de parada que sempre faltou aos peruanos para que se lhes despertassem os notáveis atributos, até hoje suplantados por uma combatividade, que é uma fraqueza e é um anacronismo. Mas esta só poderá engravescer, criando-lhes maiores desditas, se, ressurgindo sob um novo aspecto, for encontrar novos alentos nas arrancadas dos caucheiros que estão prolongando, na devastação das grandes matas, um longo, um antiquíssimo tirocínio de tropelias.

Conflito inevitável

As incursões peruanas não denunciam apenas a avidez de alguns aventureiros doidamente ferretoados da ambição que os arrebata às paragens riquíssimas dos seringais. São mais sérias; são quase um expressivo movimento histórico, desencadeado com uma finalidade irresistível. Não as determinam apenas as energias sociais instáveis e dispersivas da república sul-americana mais malignada pela caudilhagem, senão as mesmas leis físicas invioláveis de toda aquela zona.

Realmente, quem quer que contemple através da visão prodigiosa de Humboldt, ou da clara inteligência de C. Wiener, todo o trato de terras que vai de Arica a Trujillo, constrito entre o Pacífico e os Andes, compreende que os destinos do Peru oscilam entre dois extremos invariáveis: ou a extinção completa da nacionalidade suplantada por uma numerosa população adventícia, que assume todas as modalidades do alemão industrioso ao cooli quase escravo -ou um desdobramento heróico para o futuro, uma entrada atrevida na Amazônia, um rush salvador às cabeceiras do Purus, visando do mesmo passo a uma saída para o Atlântico e um cenário mais e mais fecundo às atividades. Não há escapar às aperturas do dilema.

A posição prejudicial dos Andes cria ao Peru, como à Bolívia, regimes que se combatem: um litoral estéril que mal se alarga em dunas ondeantes, separado, por uma cordilheira, da porção mais vasta e mais exuberante do país. Na estreita faixa da costa, onde se adensou o povoamento e se erigiu a capital, e pulsa toda a existência política da república, estira-se um esboço de deserto; na montaña alpestre do Levante e mais longe nas planícies amplas, cobertas de florestas estupendas, por onde derivam, remansados, os últimos galhos dos tributários do Amazonas -pervagam, errantes, as tribos dos quíchuas inúteis.

Deste modo a natureza criadora e forte do Oriente se desentranha em riquezas incalculáveis diante das vistas incuriosas do selvagem -enquanto no Ocidente as praias e vales areentos, mal revestidos de uma flora tolhiça onde rebrilham os cristais nitrosos e se derrama em largas superfícies a lava endurecida, vão a pouco e pouco molificando o temperamento dos descendentes diretos dos «conquistadores».

Realmente, ali, naquela tira litorânea e primeiros recostos andinos que formam, afinal, toda a geografia política do Peru, a sociedade não se irmana à terra, desatando-lhe as energias recônditas e nobilitando-a pelas culturas. Faz uma aliança com os terremotos: devasta-a.

Enquanto estes lhe devoram as cidades, e lhe desviam os rios, e a retalham de fendas em que se enredam, baralhadas, as curvas sismais dos cataclismos -ela despedaça os flancos das montanhas em procura de ouro e de prata; perfura, escava e esquadrinha as dunas onduladas onde repousa há séculos, nas huacas subterrâneas, a sociedade espectral dos incas mumifícados com as suas incalculáveis riquezas; perquire e tala os descampados na faina estonteadora da exploração dos nitratos de sódio; e desbasta as costas e as ilhas na pesquisa do guano, que exporta para o estrangeiro sem notar que a natureza previdente lhe oferece ao lado da esterilidade do solo os adubos preexcelentes que a destroem.

Mas ainda nesta atividade febril e parasitária, desencadeada à ventura, o peruano não está só. Em qualquer rua de Lima, já o notou um observador, se ostenta a mais numerosa galeria etnográfica da terra: do caucásio puro, ao africano retinto, ao amarelo desfibrado e ao quíchua decaído; e entre estes quatro termos principais, as incontáveis variedades de uma mestiçagem dissímil -do mulato de todos os sangues, aos zambos e cafuzos, aos cholos que lembram os nossos caboclos, e aos interessantíssimos chino-cholos, em cujos rostos se fundem as linhas capitais de quase todas as raças. Assim, ao desordenado das atividades se prende o conflito inevitável dos temperamentos. A vida decorre sem continuidade, sem a disciplina resultante de uma harmonia de esforços que extinga o dispersivo indispensável dos ofícios; e a sociedade incaracterística, sem tradições definidas -porque a invade e a perturba, intermitentemente, a grande massa de estrangeiros que a explora e abandona- parece refletir na ordem política o desequilíbrio das forças naturais que lhe convulsionam o território, oscilando, dolorosamente, sacudida pelos terremotos e pelos «pronunciamentos». Ninguém lhe lobrigou ainda um aspecto estável, um caráter predominante, um traço nacional incisivo. Perenemente em começo, nesse agremiar os tipos adventícios de todos os quadrantes, vai absorvendo-lhes e refletindo-lhes por igual os atributos superiores e os estigmas. Quem lhe deletreia os fastos segue através de uma vertigem, e sofre o constante saltear das emoções mais opostas emergentes num baralhamento de sucessos que se entrechocam díspares. Depois de sentir o mesmo espanto de Darwin ao ver em 1832, na catedral de Lima, desdobrar-se sobre a tropa genuflexa a lúgubre bandeira negra de uma revolta inesperada, completando um Te-Deum -sente a frívola alegria de Offenbach ao divisar a mantilha rendada da Perichole que tanto justificou a ironia popular (perra e chola!) pela vida desmandada na Corte pretensiosa do antigo Peru dos vice-reis.

Passa do trágico ao repulsivo, do assombroso ao grácil.

Ora, este jogar de contrastes oriundos em grande parte do viver aleatório de uma sociedade, que parece estar apenas abarracada no território alongado que perlonga o Pacífico, não escapou aos estadistas peruanos. Nascem daquela localização prejudicial sobre um chão maninho encerrando riquezas ocasionais que dia a dia decrescem, que se não reproduzem e dão ao trabalho improdutivo de as descobrir um triste aspecto de pilhagem -confundindo na mesma azáfama tumultuária a aglomeração irrequieta em que há todas as raças e não há um povo...

* * *

A salvação está no vingar e transpor a cordilheira. Ali ao menos há a sugestão dominadora da civilização surpreendente dos incas: a estrada de duas mil milhas distendida de Quito às extremas do Chile, lastrada pelas neves eternas, contorneando encostas abruptas em releixos de rocha viva, alcandorada em pontes pênsis sobre abismos, e estirando nas planuras as calçadas eternas de silhares unidos com cimento betuminoso; e os velhíssimos baluartes pré-incásicos feitos de montanhas inteiras arremessando-se nas alturas em sucessivos patamares ameados; e a ruinaria dos santuários do Sol com os seus aparelhos ciclópicos de blocos poligonais de pórfiro brunido; e os longos aquedutos do monte Siva, em cujos canais subterrâneos, perfurando as serras, se espelham esforços de uma engenharia titânica...

Depois, descidas as vertentes orientais da primeira cadeia dos Andes, transposta a montaña e a segunda cordilheira -a terra exuberante é desmedida, prefigurando nas grandes matas a mesma hiléia amazonense.

Nesta região, tão outra, está -pela implantação do trabalhador e pelo equilíbrio da existência agrícola- a redenção daquelas gentes que possuem os melhores fatores para um elevado tirocínio histórico.

Mas, ao mesmo passo que lhes despontam estas esperanças, extingue-lhas a mesma cordilheira com o seu largo tumultuar de píncaros e de pendores impraticáveis num talude vivo de muralha, que lhes trancam quase por completo as comunicações com o litoral. De fato, o Pacífico, ainda que se rasgue o canal de Nicarágua, parece que pouco influirá no progresso do Peru. O seu verdadeiro mar é o Atlântico; a sua saída obrigatória o Purus. Sabem-no há muito os seus melhores estadistas: a expansão para o Levante traduz-se-lhes como um dever elementar de luta pela vida. Revelam-no todos os insucessos de numerosas tentativas buscando libertá-lo das anomalias físicas que o deprimem. Revelou-as desde 1879 C. Wiener: «Os peruanos aquilatam bem a importância enorme que teriam as estradas, ligando os afluentes navegáveis do Amazonas e do Ucaiáli às cidades do litoral; fizeram todos os esforços para executá-las porque lhas impõem a lógica e o interesse; mas parece que a sua força de vontade é menor que a constituição física dos autóctones.»

De feito, contemplando-se diante de um mapa a faixa costeira entre Pachacamas e Tumbez, nota-se um como diagrama daquelas tentativas desesperadas e perdidas.

Foi a princípio, no extremo norte, a linha férrea de Paita a Piura, procurando os tributários setentrionais do Solimões; depois, próxima e ao sul, uma outra, de Lambayaque a Ferenafe: ambas estacionaram, trilhos imersos nos areais da costa. A terceira, lançada de Pascamayo à estação terminus de Cajamarca, e a quarta partindo de Salavery, pouco ao sul de Trujillo -buscavam as linhas de derivação do Ucaiáli: embateram ambas de encontro às fílades espessas e aos doleritos e quartzos duríssimos das cordilheiras. A quinta, a admirável estrada de Oroya, dominou parte da serrania, mas ficou bem longe do seu objetivo essencial no transmontar as últimas cordas de serras, varar pelas planícies do Sacramento e alcançar o Purus.

Esta é expressiva: mostra como o traçado do grande tributário do Amazonas, em cujas margens contendem agora os flibusteiros, norteia de há muito a administração daquela república.

Por outro lado, desde 1859, com Faustino Maldonado e dez anos depois com o coronel Latorre, sucessivas expedições se lançam para o oriente impelidas por alguns abnegados caídos todos naqueles lugares remotos, numa extraordinária intuição dos interesses reais do seu país.

Estes antecedentes delatam nas perturbações que lavram em toda aquela zona um significado bem diverso do que lhe podem dar algumas correrias de seringueiros.

A guerra iminente tem uma feição gravíssima.

Se contra o Paraguai, num teatro de operações. mais próximo e acessível, aliados às repúblicas platinas, levamos cinco anos para destruir os caprichos de um homem -certo não se podem individuar e prever os sacrifícios que nos imporá a luta com a expansão vigorosa de um povo.

Contra os caucheiros

A remessa de sucessivos batalhões para o Alto Purus -movimento de armas recordando um começo de guerra declarada- parece uma medida elementar de previdência.

É um erro. Não implica apenas o desfalecido das nossas finanças, nem se limita a projetar, de golpe, um brilho perturbador de baionetas no meio de um debate diplomático; vai além: prejudica de antemão a campanha provável e torna desde já precária a defesa das circunscrições administrativas criadas pelo Tratado de Petrópolis.

Estas afirmativas parecem paradoxais, e vão muito ao arrepio da corrente geral da opinião revoltadíssima contra esse Peru -tão fraco diante da nossa própria fraqueza. Mas são demonstráveis. Está passado o tempo em que a honra e a segurança das nacionalidades se entregavam, exclusivamente, ao vigor das tropas arregimentadas.

A última Guerra do Transval, à parte os efeitos materiais, teve conseqüências surpreendentes. Estão ainda vivíssimos em todas as memórias os admiráveis episódios daquela esgrima magistral dos boêres contra as armas pesadas da Inglaterra; e entre eles, um que, pelo aparecer constante e invariável nos dois campos adversos, se reveste quase do caráter de uma lei, se é que as tem a maneira heróica de brutalidade humana. Indiquemo-lo: em Paardeberg, quando as tropas regulares inglesas recuaram rudemente repelidas dos entrincheiramentos de Cronje, ampararam-na os voluntários canadenses num assalto brilhante que ultimou no assédio; Kimberley, defendida pelos cidadãos armados, reagiu com mais eficácia e diante de mais numerosos sitiantes do que Ladsmith guarnecida pela tropa de linha; em Magersfontain o pânico dos soldados teve o corretivo instantâneo de uma ducha, na fria impassibilidade dos highlanders escoceses... São fatos expressivos. Não escaparam à visão dos modernos profissionais da guerra. O coronel Henderson, que os testemunhou de perto, no estado-maior de Lorde Roberts, explica-os pelos terríveis efeitos desmoralizadores do armamento moderno e pelos embaraços criados pela pólvora sem fumaça.

O espírito de classe e a alta responsabilidade que lhe advém do cargo que ocupou junto ao comandante-em-chefe, não lhe tolheram o dizer nuamente que toda a luta sul-africana fora a glorificação dos lutadores improvisados, e a triumph for the principle of voluntary service.

De Bloch foi ainda mais incisivo: a preeminência do civil resulta-lhe, iniludível, das mesmas condições do campo das batalhas modernas, onde a virulência e rapidez do tiro impõem uma dispersão de todo oposta aos dispositivos das paradas e das manobras. Em tais circunstâncias os oficiais não podem dirigir efetivamente os soldados, e estes, sem o hábito das deliberações próprias, estonteiam, desunidos e inúteis, porque quanto maior é a sua disciplina e o training da fileira, tanto menor é a aptidão individual de agir.

O argumento é impressionadoramente claro: o civil apanhado a laço, o voluntário de pau e corda, o caipira a quem a farda aterroriza -mas cuja capacidade de ação se desenvolveu autônoma nas caçadas, na faina da lavoura, nos múltiplos ofícios, nas viagens e nas várias peripécias de uma existência modesta e livre, surge de improviso desarticulando todas as peças da sinistra entrosagem em que a arte militar tem triturado os povos.

E para que isto sucedesse bastou que esta última se desenvolvesse ao ponto de deslocar todas as velharias da tática, firmando a única garantia dos combates nas faculdades de iniciativa.

A conclusão é tão arrojada, e deforma tanto os moldes do conceito vulgar, que precisamos afastá-la da nossa responsabilidade de latinos sentimentais e exagerados. Deixemo-la aí blindada na rigidez britânica: «It is this quality which makes the superiority of the boers over the british. And it is this also which accounts for the superiority of the british civilian over the british regular.» (De Bloch - The wars of the future).

Assim se esclarecem notáveis anomalias: a glória napoleônica, em que colaborou talvez o precipitado de recrutas colhidos em todos os pontos e que iam aperrar pela primeira vez as espingardas na frente do inimigo; as batalhas estupendas da Guerra da Secessão; o sport ruidoso e álacre dos americanos em Cuba; e, neste momento, os desfalecimentos da formidável disciplina russa diante da vibratibilidade japonesa...

Inesperado desfecho: a guerra cresceu para diminuir na guerrilha; e depois de devorar os povos devora os próprios filhos, extinguindo o soldado. Não é Marte, é Saturno.

Reagiu à reprimenda dos filósofos e ao sentimentalismo dos poetas; evolveu ilogicamente apropriando-se dos recursos da ciência, que a repele, e dos da indústria, que é a sua antítese; por fim, se armou com uns dez milhões de baionetas e transformou-as na arma única que a trespassa. Acaba como os velhos facínoras salteados pela fadiga moral dos próprios crimes. Suicida-se.

Ora, um fato que ressalta tão vivo no esmoitado e no desimpedido dos campos mais próprios aos combates e aos seus alinhamentos prescritos, naturalmente se ampliará no embaralhado e no revolto do Alto Purus e do Alto Juruá, onde, até materialmente, são impossíveis aqueles dispositivos.

Ali não nos aguardam tropas alinhadas. Esperam-nos os caucheiros solertes e escapantes, mal reunidos nos batelões de voga, dispersos nas ubás ligeiras, ou derivando velozmente, isolados, à feição das correntes, nos mesmos paus boiantes que os rios acarretam; e repontando, a súbitas, na orla florida dos igapós, e desaparecendo, impalpáveis, no afogado dos paranás-mirins, onde se entrançam as ramagens das árvores que os escondem; ou girando pelas infinitas curvas e pelos incontáveis furos que formam a interessantíssima anastomose hidrográfica dos tributários meridionais do Amazonas.

A imagem material de uma campanha, ali, será o labirinto inextricável dos igarapés. Aos nossos estrategistas não impenderá a tarefa relativamente fácil de bater o inimigo -mas a empresa talvez insuperável de lobrigar o inimigo. Iludem-se os que imaginam que o só aparecimento de alguns corpos de tropas regulares no desmarcado trato de terras que demoram entre o Juruá e o Acre, -baste a policiá-las, e a garantir os povoadores, e a impedir a violação de uma fronteira indeterminada. Os batalhões maciços, presos a uns tantos preceitos e ao retilíneo das formaturas, serão tanto mais inúteis quanto mais disciplinados e afeitos à solidariedade de movimentos. O melhor de sua organização militar impecável culminará no péssimo da mais completa inaptidão a se ajustarem ao teatro das operações, e a enfrentarem o torvelinho dos recontros súbitos ou a se subtraírem aos perigos das tocaias.

Não exemplifiquemos recordando lastimáveis sucessos da nossa história recente.

Sobre tudo isto uma consideração capital. Aqueles longínquos lugares do Purus -mais conhecidos hoje, depois da exploração de Chandless, do que muitos pontos do nosso far west paulista- exigem uma aclimação dificílima e penosa. Apesar de um rápido povoamento, de cem mil almas em pouco mais de trinta anos, têm ainda o caráter nefasto das paragens virgens onde a copiosa exuberância da vida vegetal parece favorecida por um ambiente impróprio à existência humana. O seu quadro nosológico assombra, pela vasta série de doenças, que vão das maleitas permanentes à hipoemia intertropical entorpecedora e àquela originalíssima «purupuru» que não mata mas desfigura, embaciando a pele do selvagem e dando-lhe um facies de cadáver, pondo no rosto do negro, salpintado de manchas brancas, uma espantada máscara demoníaca, e imprimindo no do branco a brancura repulsiva do albinismo...

Vê-se bem quantos agentes, díspares nos aspectos mas convergentes nos efeitos, das conclusões mais recentes da técnica guerreira às mínimas exigências climáticas, concorrerão no invalidar a ocupação estritamente militar daquela zona.

Além disto, as forças para repelir a invasão já ali se acham, destras e aclimadas, nas tropas irregulares do Acre, constituídas pelos destemerosos sertanejos dos Estados do Norte, que há vinte anos estão transfigurando a Amazônia. Eles formam o verdadeiro exército moderno como o preconizam, como o desejam, como o proclamam altamente, dentro dos círculos militares da Europa, os luminares da guerra precitados -não já para o caso especial das guerrilhas, mas para todas as formas das campanhas, quer estas se desenrolem nos campos clássicos da Bélgica, quer na topografia revessa do Transval. E confiados naqueles minúsculos titãs de envergadura de aço enrijada na têmpera das soalheiras calcinantes, a um tempo bravos e joviais, afeitos às deliberações rápidas e decisivas de uma tática estonteadora, que improvisam nos combates com a mesma espontaneidade com que lhes saltam das bocas as rimas ressoantes dos folguedos -poderemos permanecer tranqüilos.

Para o caucheiro -e diante desta figura nova imaginamos um caso de hibridismo moral: a bravura aparatosa do espanhol difundida na ferocidade mórbida do quíchua- para o caucheiro um domador único, que suplantará, o jagunço.

Entre o Madeira e o Javari

Não há em todo o Brasil região alguma que tenha tido o vertiginoso progresso daquele remotíssimo trecho da Amazônia, onde não vingou entrar o devotamento dos carmelitas nem a absorvente atividade, meio evangelizadora meio comercial, dos jesuítas. Há pouco mais de trinta anos era o deserto. O que dele se conhecia bem pouco adiantava às linhas desanimadoras do padre João Daniel no seu imaginoso Tesouro Descoberto: «Entre o Madeira e o Javari, em distância de mais de 200 léguas, não há povoação alguma nem de brancos nem de tapuias mansos ou missões.»

O dizer é do século XVIII e podia repetir-se em 1866 na frase de Tavares Bastos: «O Amazonas é uma esperança; deixando as vizinhanças do Pará penetra-se no deserto.»

Entretanto, nada explicava o olvido daquele território.

Compreende-se que os próprios norte-americanos tenham reprimido até 1868 a vaga povoadora impetuosíssima que assoberbou a barreira dos Alleganis e a transmontou, espraiando-se no far west; sopeara-lhes o arremesso a maninhez desalentadora dos terrenos absolutamente estéreis que se desatam a partir das vertentes orientais das Rocky Mountains.

Entre nós, não. As nossas duas maiores linhas de penetração, a de São Paulo e a do Pará, convergentes ambas em Cuiabá, nortearam-se desde o começo como à procura de empecilhos de toda a ordem.

Os sertanistas que abalaram de Porto Feliz à feição do Tietê e do Paraná, para vencerem as águas torrenciais do Pardo até alcançarem pelo Taquari e pelo São Lourenço aquele longínquo objetivo depois de uma navegação de cerca de quatro mil quilômetros -e os que demandavam, a partir de Belém, sempre ao arrepio das águas do Amazonas, do Madeira e do Guaporé, numa travessia de mais de setecentas léguas, iam apostados à luta formidável com os baques das catadupas, com o acachoar das itaipavas, com a monotonia inaturável das varações remoradas, com o choque das correntes e com os torvelinhos dos peraus. Venceram-nos; e o planalto dos Parecis, expressivo divortium aquarum, de onde irradiam caudais para todos os quadrantes, teve, em pleno contraste com este caráter físico dispersivo, uma função histórica unificadora que só será bem compreendida quando o espírito nacional tiver robustez bastante para escrever a epopéia maravilhosa das Monções.

Entretanto, demoravam-lhes no ocidente paragens que seriam facilmente percorridas sem aquela extraordinária dissipação de esforços.

A queda do maciço brasileiro, irregular e abrupta noutros pontos e originando regimes fluviais perturbadíssimos, que alguns rios, como o Tocantins e o São Francisco, prolongam quase ao litoral, ali se desafoga na maior expansão em longitude da América do Sul, precisamente na zona em que a viva deflexão dos Andes para o ocidente propiciou uma área à maior bacia hidrográfica da terra. Daí o remansado e o desimpedido dos seus fartos tributários. O Purus e o Juruá são, depois do Paraguai e do Amazonas, os rios mais navegáveis do continente. Descidas as vertentes orientais dos últimos contrafortes andinos, onde lhes abrolham as fontes, e repontam as suas únicas cachoeiras, volvem as águas num declive que o mais rigoroso aparelho às vezes não distingue. Ajustam-se à rara uniformidade dos terrenos tão eloqüentemente exposta, à mais breve contemplação de um mapa, no paralelismo dos grandes cursos de água que correm entre o Madeira e o Javari, drenando lentamente a região desimpedida que prolonga os plainos bolivianos e onde a natureza equilibrada esconde as opulências de uma flora incomparável nos labirintos dos igarapés...

Mas ninguém a procurou. A metrópole que firmara a posse da terra nas cabeceiras do rio Branco, do rio Negro, no Solimões e no Guaporé com as paliçadas e os pedreiros de bronze dos velhos fortes de São Joaquim, Marabitanas, Tabatinga e Príncipe da Beira -quatro enormes escudos desafiando a rivalidade tradicional da Espanha- evitara por completo (como se recuasse ante a ferocidade, tão fabulada pelos cronistas, dos muros irradios) aqueles longínquos tratos do território -até que no-los desvendassem, em 1851, Castelnau e o tenente da marinha norte-americana F. Maury.

Foi uma revelação. O descobrimento coincidia com uma renascença da atividade nacional. Na imprensa, o robusto espírito prático de Souza Franco aliara-se à inteligência fulgurante de Francisco Otaviano nessa propaganda irresistível pela franquia do Amazonas a todas as bandeiras, a que tanto ampararam o lúcido critério de Agassiz, as pesquisas de Bates, as observações de Brunet e os trabalhos de Souza Coutinho, Costa Azevedo (Ladário) e Soares Pinto, até que ela desfechasse no decreto civilizador de 6 de dezembro de 66.

Tavares Bastos, não lhe bastando, à alma varonil e romântica, o tê-la esclarecido com o fulgor das melhores páginas das Cartas de um solitário, transmudara-se num sertanista genial: perlustrou o grande rio trazendo-nos de lá um livro, O Vale do Amazonas, que é um reflexo virtual da hiléia portentosa e é ainda hoje o programa mais avantajado do nosso desenvolvimento.

Ora, neste largo expandir de novos horizontes, um explorador tenaz, Chandless, traçou repentinamente a diretriz de um objetivo definido. Levara-o até lá, no trecho onde os grandes rios misturam as suas águas na anastomose das nascentes, o intento de descobrir uma passagem do Acre para o Madre de Dios -o velho problema da ligação das bacias do Amazonas e do Paraguai. Não o resolveu. Fez mais: sugestionado pelas maravilhas naturais, transformou-se num pioneiro salteado de ambições e fundou ali o primeiro estabelecimento que fixou o homem à terra; enquanto um mateiro destemeroso, Manoel Urbano da Conceição, um quase anônimo, como o é a grande maioria dos nossos verdadeiros heróis, batia longamente o reticulado inextricável dos furos, e, desvendando as nascentes de todos os tributários do Purus, preparava a um outro dominador de desertos, o coronel Rodrigues Labre, grande parte do terreno para um rápido e intensíssimo povoamento.

De feito, foi uma transfiguração. Em pouco, sucessivas vagas de imigrantes reproduziam em nossos dias o tumulto das entradas do século XVIII.

O látex das seringueiras, o cacau, a salsa, a copaíba e toda a espécie de óleos vegetais, substituindo o ouro e os diamantes, alimentavam as mesmas ambições ensofregadas.

A terra, até então entregue às tribos erradias, teve em cerca de dez anos (1887) uma população de 60.000 almas, ligando-se as suas mais remotas paragens de Sepatini e Hintanãa a Manaus, pela Companhia Fluvial do Amazonas, com um primeiro desenvolvimento de 1.014 milhas, logo depois distendidas na navegação dos tributários superiores que vão do Ituxi ao Acre. E por fim uma cidade, uma verdadeira cidade, Lábrea, repontou daquela forte convergência de energias trazendo desde o nascer um caráter destoante do de nossos povoados sertanejos -com o requinte progressista de uma imprensa de dois jornais, O Purus e O Labrense, e o luxo suntuário de um teatro concorrido, e colégios, e as ruas calçadas e alinhadas: a molécula integrante da civilização aparecendo, repentinamente, nas vastas solidões selvagens...

Ora, estes sucessos, que formam um dos melhores capítulos da nossa história contemporânea, são, também, o exemplo mais empolgante da aplicação dos princípios transformistas às sociedades. Realmente, o que ali se realizou, e está realizando-se, é a seleção natural dos fortes. Para esse investir com o desconhecido não basta o simples anelo das riquezas: requerem-se, sobretudo, uma vontade, uma pertinácia, um destemor estóico e até uma constituição física privilegiada. Aqueles lugares são hoje, no meio dos nossos desfalecimentos, o palco agitadíssimo de um episódio da concorrência vital entre os povos. Alfredo Marc encontrou nas margens do Juruá alguns parisienses, autênticos parisienses, trocando os encantos dos boulevards pela exploração trabalhosa de um seringal fartíssimo; e acredita-se que o viajante não exagerou. Lá estão todos os destemerosos convergentes de todos os quadrantes. Mas, sobrepujando-os pelo número, pela robustez, pelo melhor equilíbrio orgânico da aclimação, e pelo garbo no se afoitarem com os perigos, os admiráveis caboclos do Norte que os absorverão, que lhes poderão impor a nossa língua, os nossos usos e, ao cabo, os nossos destinos, estabelecendo naquela dispersão de forças a componente dominante da nossa nacionalidade.

É o que deve acontecer.

Volvendo ao paralelo que, pouco há, indicamos, ao notarmos a súbita parada da expansão norte-americana no far west, levemo-lo às últimas conseqüências.

Por uma circunstância realmente interessante, os ianques, depois de estacionarem largos anos diante das Rochosas, saltaram-nas, vivamente atraídos pelas minas descobertas na Califórnia, precisamente no momento em que nos avantajávamos até ao Acre. O paralelismo das datas é perfeito. No mesmo ano de 1869, em que nos prendíamos por uma companhia fluvial àquelas esquecidas fronteiras, eles se ligavam ao Pacífico pela linha férrea do Missouri, audaciosamente locada nas cordilheiras e nos desertos.

Emparelhamo-nos, neste episódio da vida nacional, com a grande república.

Aceitemos, por isto mesmo, uma lição de Bryce. Traçando magistralmente o quadro da expansão ianque, o historiador nos demonstra que, diante do exagerado. afastamento da costa oriental, as gentes localizadas nas novas terras do Pacífico formariam inevitavelmente uma outra nacionalidade, se os recursos da engenharia atual lhes não houvessem permitido uma intimidade permanente com o resto do país.

O nosso caso é idêntico, ou mais sério.

As novas circunscrições do Alto Purus, do Alto Juruá e do Acre devem refletir a ação persistente do governo em um trabalho de incorporação, que, na ordem prática, exige desde já a facilidade das comunicações e a aliança das idéias, de pronto transmitidas e traçadas na inervação vibrante dos telégrafos.

Sem este objetivo firme e permanente, aquela Amazônia onde se opera agora uma seleção natural de energias e diante da qual o espírito de Humboldt foi empolgado pela visão de um deslumbrante palco, onde mais cedo ou mais tarde se há de concentrar a civilização do globo, a Amazônia, mais cedo ou mais tarde, se destacará do Brasil, naturalmente e irresistivelmente, como se despega um mundo de uma nebulosa -pela expansão centrífuga do seu próprio movimento.

Solidariedade sul-americana

A República nos tirou do remanso isolador do Império para a perigosa solidariedade sul-americana: caímos dentro do campo da visão, nem sempre lúcida, do estrangeiro, insistentemente fixa sobre os povos, os governos e os «governos» (ironicamente sublinhados ou farpeados de aspas) da América do Sul.

O imperador, em que pese à sua educação imperfeita e às suas sensíveis falhas de estadista, era o grande plenipotenciário do nosso bom senso equilibrado e da nossa seriedade. A sua bela meia ciência, toda ornada de excertos hebraicos e das estrelas da astronomia doméstica de Flammarion, mas ansiosamente atraída para o convívio dos sábios e contumaz freqüentadora de institutos, era a nossa mesma ânsia, talvez precipitada, mas nobilíssima, de acertar, e a sua bonomia, os seus hábitos modestos e simples, os mesmos hábitos modestos, certo sem brilhos, mas em todo o caso decentes, com que andávamos na história.

Tinha a força sugestiva e dominadora dos símbolos ou das imagens. Era, para a civilização tão distraída por infinitos assuntos mais urgentes e mais sérios, um índice abreviado onde ela apreendia de um lance os aspectos capitais da nossa vida: o epítome vivo do Brasil.

Talvez não fosse bem certo e carecesse de uma mondadura severa, ou revisão acurada, mas tinha a vantagem de nos determinar uma consideração à parte. Na atividade revolucionária e dispersiva da política sul-americana, apisoada e revolta pelas gauchadas dos caudilhos, a nossa placidez, a nossa quietude, digamos de uma vez, o nosso marasmo, delatavam ao olhar inexperto do estrangeiro o progresso dos que ficam parados quando outros velozmente recuam. E, dada a complexidade étnica e o apenas esboçado de uma sub-raça onde ainda se caldeiam tantos sangues, aquela placabilidade e aquele marasmo recordavam-lhe na ordem social e política a imprescindível tranqüilidade de ambiente, que, por vezes, se exige, na física para que se completem as cristalizações iniciadas...

Hoje, não. Sem aquele ponto de referência, a opinião geral desvaira; derranca-se em absurdos e em erros; estonteia num agitar sem sentido, de maravalhas inúteis; confunde-nos nas desordens tradicionais de caudilhagem; mistura os nossos quatorze anos de regime novo a mais de um século de pronunciamentos; e, como durante esta crise de crescimento, nos saltearam e salteiam desastres -que só podem ser atribuídos à República por quem atribua ao firmamento as tempestades que no-lo escondem- já não nos distingue nos mesmos conceitos. E que conceitos...

Deletreiem-se as revistas norte-americanas, para não citarmos outras, e veja-se o desabrido da palavra, o cruciante dos assertos e até o temerário de futuros planos de absorção, sempre que acontece tratar-se das sister republics, curioso eufemismo com que se designa vulgarmente o vasto e apetecido res nullius, desatado do Panamá ao cabo Horn.

Para os rígidos estadistas que não nos conhecem, e a quem justamente admiramos, as Repúblicas latinas -«as que se dizem Repúblicas» no dizer dolorosíssimo de James Bryce, patenteiam, impressionadoramente, o espetáculo assombroso de algumas sociedades que estão morrendo. Aplicando à vida super orgânica as conclusões positivas do transformismo, esta filosofia caracteristicamente saxônia, e exercitando crítica formidável a que não escapam os mínimos sintomas mórbidos de uma política agitada, expressa no triunfo das mediocridades e na preferência dos atributos inferiores, já de exagerado mando, já de subserviência revoltante, o que eles lobrigam nas gentes sul-americanas é uma seleção natural invertida: a sobrevivência dos menos aptos, a evolução retrógrada dos aleijões, a extinção em toda a linha das belas qualidades do caráter, transmudadas numa incompatibilidade à vida, e a vitória estrepitosa dos fracos sobre os fortes incompreendidos...

Imaginai o darwinismo pelo avesso aplicado à história...

Ora, precisamos anular estes conceitos lastimáveis, que às vezes nos marcam situações bem pouco lisonjeiras. Porque, ainda os há que excetuam o México disciplinado por Porfirio Díaz e enriquecido por José Ignez, embora abrangido de todo pela órbita comercial e industrial da Norte-América; e o Chile com a sua rígida estrutura aristocrática; e a Argentina, que poucos anos de paz vão transfigurando, sob o permanente influxo do grande espírito de Mitre -um homem que é o poder espiritual de um povo.

Nós ficamos alinhados com o Paraguai, convalescente; com a Bolívia, dilacerada pelos motins e pelas guerras; com a Colômbia e a abortícia republícola que há meses lhe saiu dos flancos; com o Uruguai, a esta hora abalado pelas cavalarias gaúchas, e com o Peru.

Não exageramos. Poderíamos fazer numerosas e até monótonas citações, recentes todas, espalhadas em livros e em revistas, onde se move esta extravagante e crudelíssima guerrilha de descrédito.

Aqui, um secretário de legação -poupemos o seu nome- que na North-American Review patenteia um adorável ciúme ante a expansão teutônica em Santa Catarina e bate alarmadamente a afinadíssima tecla dos princípios de Monroe; e demasia-se depois no excesso de zelo de denunciar a nossa apatia de filhos de uma terra onde é sempre de tarde -a land where it is always afternoon!- e a nossa miopia patriótica que não percebe em Von den Stein, em Hermann Meyer, em Landerberg os caixeiros sábios da Hansa, os batedores sem armas do germanismo; além, o pretenso sociólogo -deixemos também em paz o seu nome e o seu livro, que ambos não valem a escolta dos mais desarranjados adjetivos- que pontificando dogmaticamente, genialmente canhestro, acerca do imperfeito da instrução japonesa, aponta-a como inferior à das Repúblicas sul-americanas, «exceto o Paraguai e o Brasil», recusando-nos, nesta parceria, a mesma precedência alfabética...

Realmente, o que surpreende em tais artigos não é o extravagante das afirmativas; é faltar-lhes, subscrevendo-os, a assinatura de Marc Twain, o mestre encantador da risonha gravidade da ironia ianque.

* * *

Ora, esta campanha iminente com o Peru pode ser um magnífico combate contra essas guerrilhas extravagantes.

Fizemos tudo por evitá-la, sobrepondo à fraqueza belicosa da nação vizinha o generoso programa da nossa política exterior nos últimos tempos, tão elevada no sacrificar interesses transitórios aos intuitos mais dignos de seguirmos à frente das nações sul-americanas como os mais fortes, os mais liberais e os mais pacíficos. O recente Tratado de Petrópolis -resolvido há quarenta anos, quase pormenorizado por Tavares Bastos e Pimenta Bueno- todo ele resultado de uma inegável continuidade histórica -é o melhor atestado dessa antiga irradiação superior do nosso espírito, destruindo ou dispensando sempre o brilho e a fragilidade das espadas. Nada exprime melhor a nossa atitude desinteressada e originalíssima, de povo cavaleiro-andante, imaginando na América do Sul, robustecida pela fraternidade republicana, a garantia suprema e talvez única de toda a raça latina diante da concorrência formidável de outros povos.

Mas não a compreendeu nunca a opinião estrangeira, que um excesso de objetivismo leva à contemplação exclusiva do quadro material das nossas desditas, à análise despiedada de tudo quanto temos de mau, à indiferença sistemática por tudo quanto temos de bom: e interpretam-na talvez como um sintoma de fraqueza as próprias nações irmãs do continente.

Desiludamo-las.

Aceitemos tranqüilamente a luta com que nos ameaçam, e que não podemos temer.

Não será o primeiro caso de uma guerra reconstrutora. Mesmo quando rematam aparentes desastres, estes conflitos vitais entre os povos, se os não impelem apenas os caprichos dinásticos ou diplomáticos, traduzem-se em grandes e inesperadas vantagens até para os vencidos. A França talvez não monopolizasse hoje as simpatias da Europa sem a catástrofe de 70, que fez a dolorosa glorificação do seu espírito e o ponto de partida de uma regeneração incomparável, toda esteada numa experiência duríssima. Entram muito na glória imortal de Gambetta os planos estratégicos de Moltke.

Tão certo é que as artificiosas combinações políticas, afeiçoadas ao egoísmo dos grupos, se despedaçam nos largos movimentos coletivos, que não abrangem. E nós, afinal, precisamos de uma forte arregimentação de vontades e de uma sólida convergência de esforços, para grandes transformações indispensáveis.

Se essa solidariedade sul-americana é um belíssimo ideal absolutamente irrealizável, com o efeito único de nos prender às desordens tradicionais de dois ou três povos irremediavelmente perdidos, pelo se incompatibilizarem às exigências severas do verdadeiro progresso -deixemo-la.

Sigamos -no nosso antigo e esplêndido isolamento- para o futuro; e, conscientes da nossa robustez, para a desafronta e para a defesa da Amazônia, onde a visão profética de Humboldt nos revelou o mais amplo cenário de toda a civilização da terra.

O ideal americano

Roosevelt é um estilista medíocre. A frase adelgaça-se-lhe no distendido de uns períodos oratórios, cheios de incidentes intermináveis e rematados pela simulcadência inaturável das mesmas idéias repisadas, volvidas e revolvidas sob todas as faces, com o sacrifício absoluto da forma à clareza, ou à exposição desatada em pormenores e minúcias exemplificadoras. Não escreve, leciona. Não doutrina, demonstra. Não generaliza, não sintetiza e não se compraz com os aspectos brilhantes de uma teoria: analisa, disseca, induz friamente, ensina.

Mas isto sem o aprumo pretensioso de um lente que pontifica, senão com a modéstia fecunda de um adjunto que rediz, experimenta e mostra.

É o grande repetidor da filosofia contemporânea. Nada diz de novo.

Diz tudo de útil.

O seu último livro, o Ideal Americano, é uma sistematização de truísmos, para adotarmos o anglicismo indispensável às coisas sabidíssimas e claras. E no primeiro momento, deletreadas as primeiras páginas, imaginamo-nos às voltas com um excêntrico rival de Marc Twain, abalançando-se a ressuscitar velharias e a demonstrar axiomas.

No entanto, a pouco e pouco ele nos domina e absorve. Há um encanto irresistível naquela rudeza de rough rider e de quaker; e o paladino rejuvenescido de coisas tão antigas -a energia, a honestidade e o bom senso- escrevendo sob a preocupação aparente dos destinos de seu país, vai, realmente, traçando todas as condições imprescindíveis à vida de todos os países.

Para nós, sobretudo, a sua leitura é imperiosa e urgente.

Copiamos, numa quase agitação reflexa, com o cérebro inerte, a Constituição norte-americana, arremetendo com as mais elementares noções do nosso tirocínio histórico e da nossa formação, violando do mesmo passo as nossas tradições e a nossa índole; é natural e obrigatório que lhe vejamos, a par da grandeza, os males, sobretudo quando eles entendem especialmente com a nossa situação presente e o nosso caráter nacional.

De fato, Roosevelt, ao delatar os «perigos excepcionais» que ameaçam a grande República, antepõe-lhes por vezes de relance, mas insistentemente, feito uma contraprova expressiva, o quadro da anarquia sul-americana; «rusguento grupo de Estados, premidos pelas revoluções, onde um único senão destaca mesmo como nação de segunda».

Deste modo, enquanto recuamos espavoridos imaginando o espantalho do perigo ianque, o estrênuo professor de energia põe, na frente da opinião ianque, o espantalho do perigo sul-americano. Temos medo daquela força; e, no entanto, ela é quem se assusta e foge apavorada da nossa fraqueza.

Ora, infelizmente para nós, a cobardia paradoxal do colosso é mais compreensível que a infantilidade dos nossos receios.

Folheiem-se ao acaso as primeiras folhas do Ideal Americano. Depara-se-nos para logo uma novidade: o homem tão representativo do absorvente utilitarismo e do triunfo industrial da América do Norte é um idealista, um sonhador, um poeta incomparável de virtudes heróicas.

Para ele, as garantias de sucesso da sua terra estão menos nos prodígios da atividade e no assombro de uma riqueza material sem-par, do que nas belíssimas tradições de honra, e eficiência, traduzidas na ordem política pelos nomes que se inserem entre os de Washington e Lincoln, e na ordem social pelo repontar ininterrupto dessas emoções generosas, que propelem aos verdadeiros estadistas e sem as quais as nações se transmudam «em trambolhos obstrutivos de alguns tratos da superfície terrestre». Não lhe bastam as virtudes da economia e do trabalho; superpõe-lhes a glorificação permanente da honra nacional, da coragem e da audácia, do altruísmo, da lealdade e das grandes tradições provindas das façanhas passadas, formando a capacidade crescente para as empresas maiores do futuro...

Traçado este rumo, é inflexível. Caem-lhe sob o passo de carga de uma lógica inteiriça, confundidos, embolados e ruídos no mesmo esmagamento: -o político tortuoso e solerte que, malignado pelo oblíquo incurável da visão moral, faz da política um meio de existência e supre com a esperteza criminosa a superioridade de pensar; o doutrinador estéril que não transforma a vida numa força ativa e combatente; o indiferente que resmoneia, agressivo, contra a corrupção política ou administrativa, e não intervém num protesto vigoroso e alto, definido por atos decisivos; o jornalista que não exercita uma crítica intrépida dos homens e dos partidos, ou se desfaz em lisonjarias indecorosas... e, sobre todos eles, os que formam a platéia louvaminheira, não só para lhes explorar as ações como para lhas divinizar e aplaudir, garantindo-lhes no mesmo lance a impunidade dos crimes e a recompensa dos males perpetrados...

Ao lermos estas páginas impiedosas, pressentimos o dardo de uma alusão ferina. Ali está, latente, um comentário interlinear, de onde ressalta o pior da nossa desalentadora psicologia.

Mas prossigamos. Há identidades mais empolgantes. O impávido moralista repisa logo adiante uma outra novidade velha: firma de modo inflexível a necessidade de um largo americanismo, um forte sentimento nacional contraposto a um localismo deprimente e dispersivo. Combate às claras -numa lúcida compreensão, que não possuimos, do verdadeiro regime federal- o maligno espírito de paródia e esse estreito patriotismo de campanário provincial ou estadual, que subordina a nacionalidade ao bairrismo e retrata, em nosso tempo, o federalismo incoerente da antigüidade grega, das Repúblicas medievais da Itália, e dos retrógrados Estados da Alemanha antes de Bismarck.

Neste lance, aponta ainda uma vez os fatos «abjetos e sangrentos» da América do Sul. E tão desanimador se lhe afigura este vício do regime, que se apressa em lhe denunciar a quase extinção na América do Norte, graças a uma evolução inegável e positiva, porque significa, ali, a passagem de uma forma incoerente e dispersiva a uma forma mais coerente e definida, consoante o preceito elementar do maior pensador da sua raça.

Trata-se, como se vê, de um mal que lá está em plena decadência, próximo a extinguir-se, mas que ainda atemoriza; ao passo que entre nós ele surge vigoroso, e se desenvolve e irradia para toda a banda, delineando umas fronteiras ridículas, ou ostentando irritantemente umas questões de limites inclassificáveis, e deixa-nos impassíveis...

Completa-o um outro.

Ao patriotismo diferenciado alia-se, pior, o cosmopolitismo -essa espécie de regime colonial do espírito que transforma o filho de um país num emigrado virtual, vivendo, estéril, no ambiente fictício de uma civilização de empréstimo. Mas não há explicar-se a insistência do escritor neste ponto. O americano do norte é um absorvente e um dominador de civilizações. Suplanta-as, transfigura-as, afeiçoa-as ao seu individualismo robusto e ao seu bom senso incomparável; americaniza-as.

Para nós, sim, é que parecem feitas aquelas páginas severas riçadas de repentinos e vivos golpes de ironia -porque entre nós é que se faz mister repetir longamente, e monotonamente mesmo, «que mais vale ser um original do que uma cópia, embora esta valha mais do que aquele», e que o ser brasileiro de primeira mão, simplesmente brasileiro, malgrado a modéstia do título, «vale cinqüenta vezes mais do que ser a cópia de 2ª classe, ou servil oleografia, de um francês ou de um inglês».

Parafraseando, diríamos: os nossos melhores estadistas, guerreiros, pensadores e dominadores da terra, os que engenharam as melhores leis e as cumpriram, os homens de energia ativa e de coração, que definiram com mais brilho a nossa robustez e o nosso espírito -todos sentiram, pensaram e agiram principalmente como brasileiros; e destacam-se, como no passado, de todo destoantes da fisionomia moral de uma época onde o mesmo esboço de um irrequieto e frágil nativismo foi pedir à história do estrangeiro o próprio nome do batismo.

O Ideal Americano não é um livro para os Estados Unidos, é um livro para o Brasil.

Os nossos homens públicos devem -com diurna e noturna mão- versá-lo e decorar-lhe as linhas mais incisivas, como os arquitetos decoram as fórmulas empíricas da resistência dos materiais.

É um compêndio de virilidade social e de honra política incomparável. Traçou-o o homem que é o melhor discípulo de Hobbes e de Gumplovicz -um fanático da força, um tenaz propagandista do valor sob todos os aspectos, que vão da simples coragem física ao estoicismo mais complexo.

Daí a sua utilidade, não nos iludamos. Na pressão atual da vida contemporânea, a expansão irresistível das nacionalidades deriva-se, como a de todas as forças naturais, segundo as linhas de menor resistência. A absorção de Marrocos ou do Egito, ou de qualquer uma outra raça incompetente, é antes de tudo um fenômeno natural, e, diante dele, conforme insinua a ironia aterradora de Mahan, o falar-se no Direito é extravagância idêntica à de quem procura discutir ou indagar sobre a moralidade de um terremoto.

É o darwinismo rudemente aplicado à vida das nações.

Roosevelt compara de modo pinturesco essa concorrência formidável a um vasto e estupendo football on the green: o jogo deve ser claro, franco, enérgico e decisivo; nada de desvios, nada de tortuosidades, nada de receios, porque o triunfo é obrigatoriamente do lutador que hits the line hard!

Aprendamos, enquanto é tempo, esta admirável lição de mestre.

Temores vãos

Numa quase mania coletiva de perseguição, andamos, por vezes, às arrancadas com alguns espectros: o perigo alemão e o perigo ianque. Nunca, em toda a nossa vida histórica, o terror do estrangeiro assumiu tão alarmante aspecto, ou abalou tão profundamente as almas. Estamos, neste ponto, como os romanos da decadência depois dos revezes de Varus: escutamos o rumor longínquo da invasão. Uma diferença apenas: Átila não ruge o stella cadit, tellus fremit!, descarregando-nos à cabeça o franquisque pesado, e sobre o chão as patas esterilizadoras do cavalo, é Guilherme II, um sonhador medieval desgarrado no industrialismo da Alemanha; e Genserico, a despeito da sua envergadura rija de cowboy dominador das pastagens, é Roosevelt, o grande professor da energia, o maior filósofo prático do século, o ríspido evangelista da vida intensa e proveitosa.

Não é o bárbaro que nos ameaça, é a civilização que nos apavora. Esta última consideração é expressiva. Mostra que os receios são vãos.

De fato, atentando-se para a maior destas ameaças, a da absorção ianque, põe-se de manifesto que o imperialismo nos últimos tempos dominante na política norte-americana não significa o fato material de uma conquista de territórios, ou a expansão geográfica à custa do esmagamento das nacionalidades fracas -senão, numa esfera superior, o triunfo das atividades, o curso irresistível de um movimento industrial incomparável, e a expansão naturalíssima de um país onde um individualismo esclarecido, suplantando a iniciativa oficial, sempre emperrada ou tardia, permitiu o desdobramento desafogado de todas as energias garantidas por um senso prático incomparável, por um largo sentimento da justiça e até por uma idealização maravilhosa dos mais elevados destinos da existência.

Esta vida prodigiosa alastra-se pela terra com a fatalidade irresistível de uma queda de potenciais. Mas não leva exclusivamente o vigor de uma indústria em busca de mercados, ou uma pletora de riquezas que impõe o desafogo de emigração forçada dos capitais senão também as mais belas conquistas morais do nosso tempo, em que a inviolabilidade dos direitos se ajusta cada vez mais ao respeito crescente da liberdade humana.

Sendo assim, é pelo menos singular que vejamos uma ameaça naquela civilização. Singular e injustificável. Tomemos um exemplo recentíssimo.

Quando o almirante Dewey rematou em Manilha a campanha acelerada que em tão pouco tempo se alongara, num teatro de operações de 160º de longitude, da ilha de Cuba às extremas do Pacífico, a conquista das Filipinas pareceu a toda a gente uma intervenção desassombrada do ianque na partilha do continente asiático. Os melhores propagandistas de uma política liberal e respeitadora da autonomia de outros povos, os mesmos antiexpansionistas do North America, justificavam uma posse arduamente conseguida através de uma luta penosa e ferocíssima. Além disto, o arquipélago não decairia da situação anterior, permanecendo no sistema subalterno de colônia. Melhoraria com a troca das metrópoles; e as suas 114.000 milhas quadradas de terras fertilíssimas, onde se entranham as mais opulentas minas e pompeiam os primores de uma flora surpreendente, eram um novo palco que se abria às grandes maravilhas do trabalho. Realizava-se a profecia de J. Keill: a civilização, depois de contornar a terra, volvia ao berço fulgurante do Oriente, levando-lhe os tesouros de uma faina secular...

Deste modo, quando ao termo da campanha seguiu a primeira «comissão filipina» a manter entre os tagalos o prestígio americano, consolidar a paz e instituir a justiça, viu-se neste aparato pacífico o primeiro sintoma da absorção inevitável. E era falso.

Aquela conquista, fato consumado pelo triunfo militar, pela aquiescência de todas as nações, e pela submissão completa dos indígenas, sem nenhum empeço material que se lhe oponha, é, neste momento, duvidosa, problemática e talvez inexeqüível.

Não no-lo diz um sentimental; demonstra-o, friamente, num seco argumentar incisivo, o homem mais competente para isto -Gould Shurmann, precisamente o chefe daquela primeira comissão, e o intérprete mais veraz, senão único, dos intuitos da política nos Estados Unidos naquele caso.

A sua linguagem é franca; não segreda ou coleia. no abafamento e nas minúcias das informações oficiais; vibra às claras e alto numa revista -The Ethical Record, de março último, onde o assunto, a great national question, está sob as vistas de todo o mundo.

Ali se discutem os três destinos essenciais das Filipinas: a dependência colonial, a independência incompleta, a exemplo do que sucede em Cuba, ou a constituição de um território, prefigurando vindouro Estado confederado. E a conclusão é surpreendente, sobretudo para os que tanto armam olhos e ouvidos aos esgares truanescos e às versas extravagantes do jingoísmo ianque, tão desmoralizado na própria terra onde se agita: Gould Shurmann, embora ressalvando os interesses da sua terra, declara-se, com um desassombro raro, advogado da independência filipina. A seu parecer ela se impõe feito um corolário inflexível e insofismável de princípios e tradições políticas que a grande República não poderá negar ou iludir sem a renúncia indesculpável «da sua própria história e dos seus próprios ideais».

Convenhamos em que estes dizeres, dada a autoridade oficial de quem os emite, tornam bastante opinável o perigo ianque -a funambulesca Tarasca que tanto desafia por aí o ferretoar dos pontos de admiração das frases patrióticas.

Afinal, ele não existe; como, afinal, não existe o perigo germânico, inexplicável mesmo diante das nossas tentativas para que se ab-rogue completamente o rescrito de Von der Heydt, que proibiu a emigração germânica para o Brasil.

* * *

Concluímos que este pavor e este bracejar entre fantasmas são um simples reflexo subjetivo de fraqueza transitória; e que estes perigos -alemão, ianque ou italiano ou ainda outros rompentes ao calor das fantasias, e que se nos figuram estranhos- são claros sintomas de um perigo maior, do perigo real e único que está todo dentro das nossas fronteiras e irrompe numa alucinação da nossa própria vida nacional: o perigo brasileiro.

Este, sim; aí está e se desvenda ao mais incurioso olhar sob infinitos aspectos.

Mas não os consideraremos.

Seria uma tarefa crudelíssima.

Teríamos de contemplar, na ordem superior dos nossos destinos, o domínio impertinente da velha tolice metafísica, consistindo em esperarmos tudo das artificiosas e estéreis combinações políticas, olvidando que, ao revés de causas, elas são meros efeitos dos estados sociais e dos desastrosos resultados de um código orgânico, que não é a sistematização das condições naturais do nosso progresso, mas uma cópia apressadíssima, onde prepondera um federalismo incompreendido, que é o rompimento da solidariedade nacional.

Nos recessos mais íntimos da nossa vida, veríamos desdobrar-se um pecaminoso amor da novidade, que se demasia ao olvido das nossas tradições; o afrouxamento em toda a linha da fiscalização moral de uma opinião pública que se desorganiza dia a dia, e cada dia se torna mais inapta a conter e corrigir aos que a afrontam, que a escandalizam, e que triunfam; uma situação econômica inexplicavelmente abatida e tombada sobre as maiores e mais fecundas riquezas naturais; e por toda a parte os desfalecimentos das antigas virtudes do trabalho e perseverança que já foram, e ainda o serão, as melhores garantias do nosso destino.

Concluiríamos que os temores são vãos.

Mesmo no balancear com segurança os únicos perigos reais que nos assoberbam, não se distinguiriam males insanáveis -mas a crise transitória da adaptação repentina a um sistema de governo, que, mais do que qualquer outro, requer, imperativamente, o influxo ininterrupto e tonificante da moral sobre a política. Por isso mesmo ele nos salvará.

Firmar-se-á, inevitavelmente, uma harmonia salvadora entre os belos atributos da nossa raça e as fórmulas superiores da República, empanados num eclipse momentâneo; e desta mútua reação, deste equilíbrio dinâmico de sentimentos e de princípios, repontarão do mesmo passo as regenerações de um povo e de um regime.

Veremos então, melhor, todo o infundado de receios ou de imaginosas conquistas, que são até uma calúnia e uma condenável afronta a nacionalidades que hoje nos assombram, porque progridem, e que nos ameaçam pelo motivo único de avançarem triunfante e civilizadoramente para o futuro.

(De um Diário da Revolta)

8 de fevereiro de 1894

... Determinação inesperada destacou-me para erigir uma fortificação ligeira ao lado do edifício das Docas Nacionais.

Ainda bem. Deixei, afinal, aquele tristonho morro da Saúde, que há dois meses retalho, e mino, e terrapleno, rasgando-lhe em degraus as encostas, taludando-o e artilhando-o, numa azáfama guerreira de que sou o primeiro a me surpreender.

Lucro com a mudança. É uma variante ao menos. Livra-me do quadro demasiado visto daquele recanto comercial que a Revolta paralisou -circulado de trapiches desertos, atulhado pelo ciscalho bruto da ferragem velha da Mortona, e banhado pelas águas mortas de uma reentrância da baía, onde bóiam, apodrecendo, velhos pontões desmastreados e inúteis.

Dei, por isto, para logo, rápidas ordens de partida, e os sapadores abalaram, em turmas -incorretos pelotões armados de picaretas e enxadas.

Acompanhei-os; e não esqueci um adorável companheiro e mestre, Thomas Carlyle, em cujas páginas nobremente revolucionárias me penitencio do uso desta espada inútil, deste heroísmo à força e desta engenharia mal-estreada...

Cheguei, em pouco, ao local indicado, encontrando novos trabalhadores. Um apontador da diretoria de obras militares, armado de ordem terminante do comandante da linha, e seguido de meia dúzia de praças, já havia percorrido as tavernas e vivendas pobres das cercanias, à cata de operários como quem busca criminosos. Avezado àquelas caçadas, não se demorara. Em breve, algumas dezenas de estivadores, de várias nacionalidades -patriotas sob a sugestão irresistível dos rifles desembainhados e pranchadas iminentes- reforçaram as turmas desfalcadas.

Havia braços de sobra. Podia-se abordar a empresa da construção de mais uma Humaitá de sacos de areia, idêntica às que vêm hoje, debruando todo o litoral, desde o Flamengo à Gamboa.

A que se projetava, porém, requeria avantajadas proporções. Destinava-se a um Withworth 70, desentranhado da Armação (onde jazia desde a Questão Christie) e vindo por terra, em longo rodeio, até aqui.

Pesado e desgracioso, alongando por sobre o reparo sólido, à maneira de um animal fantástico, o pescoço denegrido e áspero, ele parecia aguardar, ao lado, que lhe preparassem o estrado onde pudesse ser conteirado à vontade, rugindo, temeroso, sobre a rebeldia impenitente...

É o que sucederia, talvez, dentro de poucas horas.

Surdo boato, dos que por aí irrompem e se alastram, sem que se saiba de onde partem, lançara nas fileiras legais, comovidas, a nova de próximo desembarque -toda a maruja revoltosa em terra, desencadeada em lances de desespero e audácia.

Urgia por mãos à tarefa. Certo não desfaleceria da minha banda a defesa da Legalidade -belo eufemismo destes tempos sem leis.

Foi atacado o trabalho. Cento e tantos homens, agitantes sobre as ordens ríspidas, arcados sob os sacos cheios de areia ou arrastando-os, arrumando-os, superpostos, como grandes adobes de um muramento ciclópico, bracejavam durante o dia todo...

De sorte que ao chegar a noite, brusca e varada de chuvisqueiros intermitentes e frios, pude contemplar o meu prodígio de baluarte chinês: uma duna ensacada, erguida em poucas horas sobre a crista do cais, dominante e desafiando assaltos.

Protegidos por ela, e apagados, para maior resguardo, os lampiões de gás, da vizinhança, os carpinteiros principiaram a ajeitar os pranchões aparelhados, madeirando a plataforma.

Era a fase mais perigosa da empresa. Aquela agitação, que se realizara até ali sem ruídos, ia transmudar-se, pela ação estrepitosa dos martelos, precisamente na hora das surpresas, das repentinas visitas das torpedeiras traidoras.

Sustive-a, por isto, um momento, indeciso.

Considerei em torno...

Aquele trecho da Prainha, espécie de White Chapel em miniatura, enredado de bitesgas tortuosas e estreitas, onde moureja população ativa, parecia abandonado. Nem uma voz. Nem uma luz.

Em frente, no mar, inteiramente calmo, avultavam, mal percebidos, os navios de guerra estrangeiros, destacando-se melhor os couraçados brancos da esquadra americana. Ao fundo, um cordão de pontos luminosos -Niterói. Adivinhavam-se ainda uns perfis de ilhas, as da Conceição e Mocanguê, vagos, numa difusão de sombras; e a silhueta apagada do Tamandaré junto à última, imóvel, calada a artilharia formidável, mudo na solidão das águas... Depois, para a direita, algumas lanternas bruxuleantes, asfixiadas nas brumas: a do Forte de Gragoatá, a de Santa Cruz, mais longe, e a da Fortaleza da Laje, intermitindo em cintilações longínquas, chofradas pelas ventanias ríspidas da barra.

Nada mais na tela obscurecida...

O cenário quadrava bem a um episódio habitual e dramático, que embora diuturnamente reproduzido não perde o traço emocionante e bárbaro.

Atravessando em silêncio a baía, o Vulcano, a Luci ou qualquer outro sócio de catástrofes -caldeiras surdas, fogos abafados, avançando em deslizamentos velozes- abeira-se do litoral. Não o percebem as sentinelas, vigilantes no alto dos parapeitos...

De repente, arrebenta-lhes adiante, nas águas, a explosão de uma cratera. Desencadeia-se o alarma. Correm os soldados surpreendidos. Baqueiam alguns, baleados. A maioria alinha-se nas trincheiras, carabinas estendidas sobre o plano de fogo. Deflagram na treva os fulgores das descargas. Espingardeia-se por cinco minutos, o vácuo... e reinam de novo o silêncio e as sombras, enquanto o rebocador atacante, banhado nos últimos clarões do tiroteio, se afasta como uma salamandra enorme, intangível, engolfando-se na noite...

Ora, o trabalho a iniciar-se ia atrair, sem dúvida, um desses recontros rápidos e ferozes. Era, porém, improrrogável.

Um carpinteiro arriscou a primeira pancada, medrosa, vacilando. Depois outra, mais firme -um estalo dilacerador na mudez absoluta. Sucederam-se outras; e em breve, sem cadência, sacudidos pelos punhos trêmulos, vibrando na psicose convulsiva do medo mal refreado, estrepitavam os martelos sobre as tábuas...

Tirei o relógio. Uma hora da madrugada. Ia acordar o Rio de Janeiro todo com aquele despertador estranho que desandava, de chofre, à sua cabeceira.

Alguém, porém, fê-lo parar. As marteladas chegaram, alarmantes, ao escritório do Lloyd, onde aquartelava o comandante da linha, e este veio em pessoa interrompê-las.

O bravo coronel -orgulho do Piauí- chegou dentro do seu dólmã vistoso e do estado-maior alarmado. Traía no afogo da respiração a caminhada feita e a emoção sagrada dos perigos. Ponderou a inconveniência daquela matinada heróica àquelas horas. Proibiu-a. E voltou marcialmente, seguido do estado-maior brilhante num grande estrépito de espadas novas, batendo nas calçadas.

A medida era, afinal, prudente. Evitava que os revoltosos viessem, por sua vez, inquirir de tal ruído, com as habituais arrancadas e sacrifícios inúteis de inofensivos operários.

Suspensa a tarefa, estes se amontoaram por perto, abrigados pelo beiral saído de velho armazém acaçapado, mudos, tiritando sobre a calçada resvaladia e úmida.

E o silêncio desceu de novo, deixando distinguir-se, ao longe, o crepitar do tiroteio escasso duma sortida qualquer insignificante, como tantas outras que se fazem todos os dias, pela tendência destruidora apenas, avultando, somadas, na crônica sombria da Revolta...

Atravessando, como dardos, a noite, os feixes de luz do refletor elétrico do morro da Glória destacavam-se no espaço, divergentes e longos, fazendo surgir no giro amplíssimo -de súbito aclarados e logo desaparecendo-, além os navios de guerra numa passividade traidora; mais à frente Niterói, adormecida; a Armação, sinistra e deserta; e todas as angras, todas as angusturas, todas as ilhas, uma por uma, repontando e extinguindo-se, no volver da paisagem móvel e fantástica; distendendo, a súbitas, num coruscar repentino de areias claras, a fita de uma praia remota; resvalando, logo depois, devagar, pelos pendores dos cerros; estirando-se, por fim, em distensão máxima, até Magé, ao fundo da baía. E dali voltando, lentos, perquirindo, na marcha fulgurante, um por um, todos os pontos fortificados; demorando-se um instante sobre a ilha das Cobras, e mostrando uma visão de acrópole, meio derruída, naquela ponta de granito arremessada fora das ondas; deixando-a, e pondo uma nesga de luar errante sobre o convés revolto da Guanabara; deslizando dali para o costado arrombado da Trajano; e passando a outros pontos, banhando-os um a um no fulgor tranqüilo e forte -feito um olhar olímpico da lei, insistente e fixo, sobre os combatentes...

Admirável quadro. Curvei-me sobre a canhoneira recém-construída. Contemplei-o e dei largas à fantasia caprichosa.

Imaginei-me, então, obscuríssimo comparsa numa dessas tragédias da antigüidade clássica, de um realismo estupendo, com os seus palcos desmedidos, sem telão e sem coberturas, com os seus bastidores de verdadeiras montanhas em que se despenhavam os heróis de Ésquilo, ou o proscênio de um braço de mar, onde uma platéia de cem mil espectadores pudesse contemplar, singrantes, as frotas dos fenícios.

A ilusão é completa.

Vai para quatro meses que não fazemos outra coisa senão representar um drama da nossa história, de desenlace imprevisto e peripécias que dia a dia se complicam, neste raro cenário que nos rodeia.

A civilização, espectadora incorruptível, observa-nos, dentro de camarotes cautelosamente blindados: a França, na Arethuse veloz; a Inglaterra, entre as amuradas da Beagle veleira, cujos passeios diários fora da barra dão tanto que pensar; e a Alemanha, e os Estados Unidos, e o próprio Portugal sobre o convés pequeno da Mindello...

Aplaudem-nos?

É duvidoso. Representamos desastradamente. Baralhamos os papéis da peça que deriva num jogar de antíteses infelizes, entre senadores armados até aos dentes, brigando como soldados, e militares platônicos bradando pela paz -diante de uma legalidade que vence pela suspensão das leis e uma Constituição que estrangulam abraços demasiado apertados dos que a adoram.

Daí, as antinomias que aparecem. Neste enredo de Eurípedes, há um contra-regra -Sardou. Os heróis desmandam-se em bufonerias trágicas. Morrem, alguns, com um cômico terrível nesta epopéia pelo avesso. Sublimam-se e acalcanham-se. Se há por aí Aquiles, não é difícil descobrir-lhe no frêmito da voz imperativa e casquinada hílar de Trimalcião.

E a Esfinge...

Mas interrompi este desfiar de conjecturas.

Aproximavam-se dois vultos. Nada tinham de alarmante, porque a guarda, velando à entrada da rua, lhes permitira a passagem. Vinham à paisana. Chegaram até à borda da plataforma, onde uma lanterna clareava o estrado num raio de dois metros; e pararam.

Aproximei-me, saudando-os.

Um (reformado do Paraguai que a República retirou de um cartório de tabelião para o fazer senador e general), com aprumo varonil a despeito da idade, correspondeu-me britanicamente, corretíssimo e firme. O outro, murchou-lhe a mão num cumprimento frio...

À meia penumbra da claridade em bruxuleios, lobriguei um rosto imóvel, rígido e embaciado, de bronze; o olhar sem brilho e fixo, coando serenidade tremenda, e a boca ligeiramente refegada num ríctus indefinível -um busto de duende em relevo na imprimadura da noite, e diluindo-se no escuro feito a visão de um pesadelo.

Reconheci-o e emudeci, respeitando-lhe o incógnito.

Vi-o logo depois abeirar-se da trincheira; e debruçar-se sobre o plano de fogo, e ali ficar meio minuto, pensativo, a vista cravada entre a afumadura das brumas, na outra banda da baía.

-Estão tranqüilos... murmurou.

Fez um gesto breve, despedindo-se, e seguiu acompanhado do companheiro desempenado e vivo, desaparecendo ambos a breve trecho -duas silhuetas agitando-se um momento, ao longe, ao brilho escasso de um lampião distante e embebendo-se depois, inteiramente, na noite.

Curvei-me, então, de novo, sobre a canhoneira recém-construída e reatei o meu sonhar acordado no ponto em que o interrompera:

... e a Esfinge, quebrando a imobilidade da pedra, veste um paletó burguês e vem -desconfiadamente confiante- rondar os lutadores...

Fazedores de desertos

É natural que todos os dias chegue do interior um telegrama alarmante denunciando o recrudescer do verão bravio que se aproxima. Sem mais o antigo ritmo, tão propício às culturas, o clima de São Paulo vai mudando.

Não o conhecem mais os velhos sertanejos afeiçoados à passada harmonia de uma natureza exuberante, derivando na intercadência firme das estações, de modo a permitir-lhes fáceis previsões sobre o tempo.

As suas regras ingênuas enfeixadas em alguns ditados que tinham, às vezes, rigorismos de leis, falham-lhes, hoje, em toda a linha: passam-lhes, estéreis, as luas novas trovejadas; diluem-se-lhes como fumaradas secas as nuvens que ao entardecer abarreiram os horizontes; varrem-lhes as ventanias súbitas a poeira líquida das neblinas que se adensam de manhã, pelo topo dos outeiros; e, em plena primavera, agora, sob o alastramento das soalheiras fortes, o aspecto de suas plantações, esfolhadas e esfloradas, principia a ser desanimador, revelando, antes do estio franco, esse perigo máximo à vida vegetativa, que, nos países quentes, estão no desequilíbrio entre a evaporação intensa pelas folhas e a absorção escassa, e cada vez menor, pelas raízes.

Toda a vegetação estiva; e esgota-se, desfalecida, precisamente na quadra em que as primeiras chuvas e as primeiras descargas elétricas, já lhe deviam ter, do mesmo passo, dissolvido os princípios nutritivos do solo e desdobrado, na mais interessante das reações, os que se disseminam profusamente pelos ares.

Ao invés disto, exaurida dos sóis, cerra o ciclo vital: morrem-lhe improdutivas as primeiras flores; extingue-se-lhe a função assimiladora dos tecidos superficiais, exsicados; e a poeira, que lhe entope os estomas e reveste as folhas, asfixia-a e enfraquece-lhe a reação tonificante da luz.

Daí o quadro lastimável descortinado pelos que se aventuram, nestes dias, a uma viagem no interior -varando a monotonia dos campos mal debruados de estreitas faixas de matas, ou pelos carreadores longos dos cafezais requeimados, desatando-se indefinidos para todos os rumos- miríades de esgalhos estonados, quase sem folhas ou em varas, dando em certos trechos, às paisagens, um tom pardacento e uniforme, de estepe...

Mas é natural o fenômeno. Nem é admissível que ante ele se surpreendam os nossos lavradores, primeiras vítimas dessa anomalia climática.

Porque há longos anos, com persistência que nos faltou para outros empreendimentos, nós mesmos a criamos.

Temos sido um agente geológico nefasto, e um elemento de antagonismo terrivelmente bárbaro da própria natureza que nos rodeia.

É o que nos revela a história.

Foi a princípio um mau ensinamento do aborígene. Na agricultura do selvagem era instrumento preeminente o fogo. Entalhadas as árvores pelos cortantes digis de diorito, e encoivarados os ramos, alastravam-lhes por cima as caitaras crepitantes e devastadoras. Inscreviam, depois, em cercas de troncos carbonizados a área em cinzas onde fora a mata vicejante; e cultivavam-na. Renovavam o mesmo processo na estação seguinte, até que, exaurida, aquela mancha de terra fosse abandonada em caapuera, jazendo dali por diante para todos sempre estéril, porque as famílias vegetais, renovadas no terreno calcinado, eram sempre de tipos arbustivos, diversas das da selva primitiva.

O selvagem prosseguia abrindo novas roças, novas derribadas, novas queimas e novos círculos de estragos; novas capoeiras maninhas, vegetando tolhiças, inaptas para reagir contra os elementos, agravando cada vez mais os rigores do próprio clima que as flagelava -e entretecidas de carrascais, afogadas em macegas, espelhando, aqui, o facies adoentado da caatanduva sinistra, além a braveza convulsiva das caatingas.

Veio depois o colonizador e copiou o processo. Agravou-o ainda com se aliar ao sertanista ganancioso e bravo, em busca do silvícola e do ouro.

Afogado nos recessos de uma flora que lhe abreviava as vistas e sombreava as tocaias do tapuia, dilacerou-a, golpeando-a de chamas, para desvendar os horizontes e destacar, bem perceptíveis, tufando nos descampados limpos, as montanhas que o norteavam balizando a rota das bandeiras.

Atacaram a terra nas explorações mineiras a céu aberto; esterilizaram-na com o lastro das grupiaras; retalharam-na a pontaços de alvião; degradaram-na com as torrentes revoltas; e deixaram, ao cabo, aqui, ali, por toda a banda, para sempre áridas, avermelhando nos ermos com o vivo colorido da argila revolvida, as catas vazias e tristonhas com o seu aspecto sugestivo de grandes cidades em ruínas...

Ora, tais selvatiquezas atravessaram toda a nossa história.

Mais violentas no Norte, onde se firmou o regime pastoril nos sertões abusivamente sesmados, e desbravados a fogo -incêndios que duravam meses derramando-se pelas chapadas em fora- ali contribuíram para que se estabelecesse, em grandes tratos, o regime desértico e a fatalidade das secas.

O Sul subtraiu-se em parte à faina destruidora, que o próprio governo da metrópole, em sucessivas cartas régias, procurou refrear, criando mesmo juízes conservadores das matas que impedissem a devastação.

O mesmo sistema de culturas largamente extensivas, porém, e as lavouras parasitárias arrancando todos os princípios vitais da terra sem lhe restituir um único, foram, a pouco e pouco, remodelando-lhe as paragens mais férteis, transmudando-as e amaninhando-as.

Não precisamos acompanhar em todas as fases esse aspecto infeliz da nossa atividade.

Notemos apenas que pouco a alteraram as belas criações da indústria moderna ou progressos rápidos da biologia e da química, fornecendo-nos todos os recursos para que se multipliquem as energias do solo. Deixamo-los, de um modo geral, de parte. Persistimos na tendência primitiva e bárbara, plantando e talando. E prolongamos ao nosso tempo esse longo traço demolidor, que vimos no passado.

Demos-lhe mesmo novas feições, consoante novas exigências.

É o que observa quem segue, hoje, pelas estradas do oeste paulista. Depara, de momento em momento, perlongando as linhas férreas, com desmedidas rumas de madeira em achas ou em toros, aglomeradas em volumes consideráveis de centenares de esteres, e progredindo, intervaladas, desde Jundiaí ao extremo de todos os ramais.

São o combustível único das locomotivas. Iludimos a crise financeira e o preço alto do carvão-de-pedra atacando em cheio a economia da terra, e diluindo cada dia no fumo das caldeiras alguns hectares da nossa flora.

Deste modo -reincidentes no erro- à inconveniência provada das lavouras ultra-extensivas e ao cautério vivo das queimas, aditamos o desnudamento rápido das derribadas em grande escala.

* * *

As conseqüências repontam, naturais.

A temperatura altera-se, agravada nesse expandir-se de áreas de insolação cada vez maiores pelo poder absorvente dos nossos terrenos desnudados, cuja ardência se transmite por contacto aos ares, e determina dois resultados inevitáveis: a pressão que diminui tendendo para um mínimo capaz de perturbar o curso regular dos ventos, desorientando-os pelos quatro rumos do quadrante, e a umidade relativa que decresce, tornando cada vez mais problemáticas as precipitações aquosas.

De sorte que o sueste -regulador essencial do nosso clima- depois de transmontar a serra do Mar, onde precipita grande cópia de vapores, ao estirar-se pelo planalto, vai encontrando atmosfera mais quente do que dantes, cujo efeito é aumentar-lhe a capacidade higrométrica, diminuindo na mesma relação as probabilidades de chuvas.

São fatos positivos, irrefregáveis, e bastam para que se explique a alteração de um clima.

Mas apontemos um outro.

Neste entrelaçamento de fatores climáticos, introduzimos um -artificial e de todo fora das indagações meteorológicas normais- a queimada.

É transitória, mas engravesce os perigos.

De feito, a irradiação noturna contrabate a insolação: a terra devolve aos céus o excesso de calor acumulado; resfria; e o orvalho decorrente ilude de algum modo a carência das chuvas.

Ora, as queimadas impedem esse derivativo único.

As colunas de fumo, rompentes de vários lugares, a um tempo, adensam-se no espaço e interceptam a descarga do solo. Desaparece o sol e o termômetro permanece imóvel ou, de preferência, sobe. A noite sobrevém em fogo; a terra irradia como um sol obscuro, porque se sente uma impressão estranha de faúlhas invisíveis, mas toda a ardência reflui sobre ela recambiada pelo anteparo espesso da fumaça; e mal se respira no bochorno inaturável em que toda a adustão golfada pelas soalheiras e pelos incêndios se concentra numa hora única da noite...

* * *

Traçamos estas linhas numa dessas noites, certo desconhecidas pelos nossos patrícios de há cem anos.

Então a energia solar, descendo, armazenava-se nos ares, criando o influxo moderador de uma atmosfera benigna, e se transformava em trabalho no seio das grandes matas, impulsionando a dinâmica maravilhosa das células.

Esse tempo passou.

Hoje, Thomas Buckle não entenderia as páginas que escreveu sobre uma natureza que acreditou incomparável no estadear uma dissipação de forças, wantonness of power, com esplendor sem-par.

Porque o homem, a quem o romântico historiador negou um lugar no meio de tantas grandezas, não as corrige, nem as domina nobremente, nem as encadeia num esforço consciente e sério.

Extingue-as.

Entre as ruínas

Quem saltar em quaisquer das estações da Central no trecho paulista, a partir de Cachoeira, entra quase de improviso em lugares que lhe não recordam mais as bordas pinturescas do Paraíba.

A terra, uma terra antiga cortada pela estrada real três vezes secular que ia do Rio a São Paulo, vai tornando-se cada vez mais desabrigada e pobre. Tumultuando em colinas desnudas, de flancos entorroados; afundando em pequenos vales sem encantos, onde se rebalsam pauis frechados de tábuas; desatando-se, planas, arenosas e limpas -nada mais revela da opulência incomparável que por três séculos, da expedição de Glimmer aos dias da Independência, fez do vale do grande rio, alteado num socalco de cordilheiras e recamado de matas exuberando floração ridente, o cenário predileto da nossa história.

E por mais incurioso que seja o viajante, ao romper aquelas veredas em torcicolos, vai sendo invadido pela tristeza daqueles ermos desolados. E, deparando de momento em momento as cruzes sucessivas que a espaços aparecem às margens do caminho, tem a impressão de calcar um antigo chão de batalhas esterilizado e revolto pela marcha dos exércitos.

É uma sugestão empolgante.

Ressaltam, a cada passo, expressivos traços de grandezas decaídas.

Os morros escalvados, por onde trepa teimosamente uma flora tolhiça de cafezais de oitenta anos, ralos e ressequidos, mas revelando os alinhamentos primitivos; cintados ainda pela faixa pardo-avermelhada dos carreadores tortuosos, por onde subiam, outrora, as turmas dos escravos; tendo ainda pelos topos, à ourela dos velhos valos divisórios, extensos renques de bambuzais; e ao viés das encostas, salteadamente, branqueando nas macegas, as vivendas humildes por ali esparsas, a esmo, dão quase um traço bíblico às paisagens. Sem mais a vestidura protetora das matas, destruídas na faina brutal das derribadas, desagregam-se, escoriadas dos enxurros, solapadas pelas torrentes, tombando aos pedaços nas «corridas da terra» depois das chuvas torrenciais, e expõem agora, nos barrancos a prumo, em acervos de blocos, a rígida ossamenta de pedra desvendada, ou alevantam-se despidas e estéreis, revestidas de restolhos pardos, no horizonte monótono, que abreviam entre as encostas íngremes...

Os caminhos tornejam-nos, galgam-nos, vingam-nos, descem-nos. Mas os quadros não se animam.

Sucedem-se choupanas pobres, em ruínas umas -tetos de sapé caídos sobre montes de terras e paus roliços-; habitadas, outras, centralizando exíguas roças maltratadas, à beira dos córregos apaulados, onde os lírios selvagens derramam, no perfume insidioso, o filtro das maleitas.

As estradas são ermas. De longe em longe um caminhante. Mas é também um decaído. Não é daqueles caboclos rijos e mateiros, que abriram neste vale as picadas atrevidas das «bandeiras». O caipira desfibrado, sem o desempeno dos titãs bronzeados que lhe formam a linha obscura e heróica, saúda-nos com uma humildade revoltante, esboçando o momo de um sorriso, deplorável, e deixa-nos mais apreensivos, como se víssemos uma ruína maior por cima daquela enorme ruinaria da terra.

Seguimos.

Em vários trechos cerradões trançados, guardando ainda no afogado das embaúbas e dos tabocais alguns raros pés de café de remotas culturas em abandono, desdobram-se inextricáveis na lenta reconquista do solo, num ressurgimento da floresta primitiva.

A estrada vara-os entre espinheirais e barrancos, tendo, não raro, ladeando-a longo tempo, extensos lanços desmoronados de velhos muros de taipa dos sítios florescentes noutro tempo.

Destes, alguns permanecem ainda animados. Mas sem a azáfama antiga, sem o mourejar febril das colheitas fartas, sem os rechinos festivos dos engenhos, sem o bulício álacre e estonteador das moendas ruidosas, nos velhos tempos, quando por aquelas encostas ondulavam e subiam lentamente a melopéia das cantigas africanas -dezenas de dorsos luzidios rebrilhando ao sol- os cordões desenvolvidos dos eitos.

Os demais, num decair contínuo, mal avultam nos terreiros desertos. Vão sendo, lento e lento, afogados na constrição do matagal que se lhes aperta em roda e cobre-lhes as plantações, e invade-lhes as pastagens, até atingi-los e suplantá-los, penetrando-os pelas portas e janelas; enraizando-se nas suas paredes de barro e disjungindo-lhas e derribando-lhas à maneira de uma reação formidável e surda da natureza contra os que outrora, ali, aplicaram no seu seio, torturando-a, o cáustico fulgurante das queimadas.

Outros ainda surgem, de improviso, no bolear dos cerros, à meia encosta dos pendores, com a imagem perfeita de uns desgraciosos castelos, sem barbacãs e sem torres, gizados por essa arquitetura terrivelmente chata em que se esmeravam os nossos avós de há dois séculos.

Entretanto, malgrado o deprimido das linhas, essas vivendas quadrangulares e amplas, sobranceando as senzalas abatidas, os moinhos estruídos, os casebres de «agregados», e alteando de chapa para a estrada os altos muramentos de pedra, que lhes sustentam os planos unidos dos terreiros, conservam o antigo aspecto senhoril.

Mas jazem para todo o sempre vazias, até que as destrua o absoluto abandono. Porque o caipira crendeiro, por menos célere que siga e por mais que o fustiguem os aguaceiros e os ventos, não pára às suas portas.

Segue, desabaladamente, sem desfitar as esporas dos flancos do cavalo, fazendo o «pelo-sinal», e fugindo...

Nem um olhar para a vivenda sinistra e mal-assombrada, onde imagina coisas pavorosas: constante pervagar de sombras; choros plangentes; ulular golpeante de espectros merencórios; aparições macabras; longos arrastamentos de correntes; e adoidados sabbaths das almas vagabundas; e cabeças, e pernas, e braços, que despencam dos tetos e rompem das paredes, fundindo-se, improvisadamente, em demônios horrorosos...

E quem, curioso e incrédulo, as procura, justifica-lhes os temores.

Aproxima-se do largo portão desquiciado, de umbrais vacilantes, ou pensos; desapeia e avança pelos terreiros de pedra, arruinados; galga a velha escadaria, pulando sobre os degraus que faltam; e estaca no patamar, em cima, diante da porta, escancarada, da entrada, abrindo para o amplo salão deserto. Penetra-o.

Contempla, de relance, as molduras esborcinadas das paredes, e o teto onde adivinha resquícios de frisos dourados na cimalha de estuque. Enfia pelo longo corredor afogado no bafio angulhento do ambiente imóvel, para o qual se abrem as portas de outros repartimentos desertos, onde chiam e revoam desequilibradamente centenas de morcegos tontos. Chega à sala de jantar, deserta...

E naquela quietude sinistra, se não o amedrontam os ecos dos próprios passos, longos, reboantes, morrendo vagarosamente na habitação vazia, comove-o, irresistível, a visão retrospectiva dos belos tempos em que a vivenda senhoril pompeava triunfalmente no centro dos cafezais floridos.

Então era o tropear ruidoso das cavalgadas que chegavam; e a longa escadaria onde rolavam saudações joviais, risos felizes, subidas e descidas tumultuárias entre os estrépitos argentinos das esporas; e o vasto salão referto de convivas; e a velha sala ornada para os banquetes ricos; e à noite as janelas resplandecendo, abertas para a escuridão e para o silêncio, golfando claridades e a cadência das danças, enquanto fora, no terreiro limpo, ao brilho das fogueiras, turbilhonava o samba dos cativos ao toar, melancólico e bruto, dos caxambus monótonos.

É um contraste comovente.

O viajante deixa a vivenda malsinada com uma emoção maior que a dos roceiros vai como quem foge. Rompe por um matagal bravio, onde adivinha os restos de um jardim, ou de um pomar; volve ao terreiro orlado de senzalas que desabam; transpõe o portão encombente; galga o cavalo e parte, disparando-o...

Não voltará mais: segue pelos caminhos em torcicolos, torneja outros morros escalvados; atravessa outras fazendas antigas, divisa outras vivendas desertas; depara outros caminhantes taciturnos; e ao encontrar, de momento a momento, intermináveis, como se andasse pelas avenidas de um velhíssimo cemitério -as mesmas «santas-cruzes» à orla dos caminhos, sente-se, sem o querer, invadido pelas crenças ingênuas dos caipiras.

Justifica-as, ao menos, como se, de fato, por ali vagassem, na calada dos ermos, todas as sombras de um povo que morreu, errantes, sobre uma natureza em ruínas.

Nativismo provisório

O nosso antilocalismo frisa pela parcialidade. Não há aplausos que nos bastem aos forasteiros disciplinados que nos últimos tempos transfiguraram as nossas culturas e se vincularam aos nossos destinos, nobilitando o trabalho e facilitando a maior reforma social do nosso tempo.

Somos adversários do nativismo sentimental e irritante, que é um erro, uma fraqueza e uma velharia contraposta ao espírito liberal da política contemporânea. A este pseudopatriotismo, para o qual Spencer, na sua velhice melancólica e desiludida, criou a palavra «diabolismo», deve antepor-se um lúcido nacionalismo, em que o mínimo desquerer ao estrangeiro, que nos estende a sua mão experimentada, se harmonize com os máximos resguardos pela conservação dos atributos essenciais da nossa raça e dos traços definidores da nossa gens complexa, tão vacilantes, ou rarescentes na instabilidade de uma formação etnológica não ultimada e longa. E ainda quando nos turbasse um esmaniado jacobinismo, todo ele ruiria ao defrontar o quadro da imigração do Brasil: homens de outros climas que aqui se nacionalizam consorciados com a terra pelos vínculos fecundos das culturas.

Mesmo sob o aspecto estritamente econômico, pensamos como Louis Couty -este belo espírito a um tempo imaginoso e prático que com tão largo descortino prefigurou o nosso desenvolvimento: não podemos ainda dispensar a energia européia mais ativa e apta, para que se desencadeiem as nossas energias naturais. O colono, entre nós, é o primeiro, senão o único fator econômico, e, pelo destaque vivíssimo entre a sua perícia infatigável e a nossa atividade tateante, ele reponta, transformando a biologia industrial num capítulo interessantíssimo de psicologia social.

Deste modo, a simpatia pelo estrangeiro, baseamo-la, até movidos pelo egoísmo, nos nossos interesses imediatos e mais urgentes.

Podemos apreciar com segurança o lado sombrio deste assunto.

De fato, esta imigração que desejamos, não já pelo concurso mecânico do braço que trabalha, senão também porque carecemos da colaboração artística e do adiantamento de outros povos, aparece diante do vacilante da nossa estrutura política e da nossa formação histórica incompleta como um problema, que não podemos afastar, que não queremos e não devemos afastar, mas que devemos resolver com infinitas cautelas. Não podemos encará-lo com o ânimo folgado nem com o moderantismo com que o enfrentam os naturais de um país onde o forasteiro, parta de onde partir, depare, a par de um intenso individualismo de raça constituída, a atmosfera virtual de uma civilização onde ele para viver tenha que se adaptar. A nossa situação não é ainda esta. O forasteiro de um modo geral -à parte naturalmente o rebotalho das levas imigrantes- aqui depara um meio intelectual e moral facilmente complectível, senão inferior àquele onde nasceu; a pouco e pouco vai trazendo-nos o seu ambiente moral, destruindo pelo contínuo implante dos seus costumes o próprio exílio que procurou e criando-nos ao cabo, graças ao nosso desapego às tradições, ao cosmopolitismo instintivo e à inseguridade dos nossos estímulos próprios, um quase exílio paradoxal dentro da nossa própria terra.

É nesta circunstância única que se esboçam inconvenientes capazes das mais exageradas susceptibilidades patrióticas esclarecidas pelas mais sólidas inferências positivas.

Falta-nos integridade étnica que nos aparelhe de resistência diante dos caracteres de outros povos.

O Brasil não é como os Estados Unidos ou a Austrália, onde o inglês, o alemão ou o francês alteram e cambiam as qualidades nativas ou as refundem e refinam, originando um tipo novo e mais elevado do que os elementos formadores. Está numa situação provisória de fraqueza, na franca instabilidade de uma combinação incompleta de efeitos ainda imprevistos, em que a variedade dos sangues, que se caldeiam, implica o dispersivo das tendências díspares, que se entrelaçam.

E isto numa quadra excepcional em que parecem perdidas todas as esperanças no influxo nivelador do pensamento moderno, cuja circulação poderosa, contravindo a todos os prognósticos, não refundiu, não misturou e não unificou os atributos primitivos dos povos, nem destruiu, num desafogado internacionalismo, a cláusula das fronteiras.

As últimas páginas de H. Spencer são um diluente do esplêndido rigorismo das suas mais sólidas teorias. O filósofo que se abalançou a traduzir o desdobramento evolutivo das sociedades numa fórmula tão concisa e fulgurante quanto a fórmula analítica em que Lagrange fundiu toda a mecânica racional -acabou num lastimável desalento. A seu parecer, a civilização desfecha na barbaria.

Depois de presidir ao triunfo das ciências e de caracterizar os seus reflexos criadores nas maiores maravilhas das indústrias -assombrou-o à última hora, salteando-o de espantos, o sombrio alvorecer crepuscular do novo século. E contemplando em toda a parte, de par com a desorientação científica, um extravagante renascimento da atividade militar e um imperialismo que denuncia a tendência das nacionalidades robustas a firmarem a hegemonia política -rematou uma vida que toda ela foi um hino ao progresso, confessando que assistia à decadência universal.

Exagerou.

Mas há um fato incontestável: o pendor atual e irresistível das raças fortes para o domínio, não pela espada, efêmeras vitórias ou conquistas territoriais -mas pela infiltração poderosa do seu gênio e da sua atividade.

Para este conflito é que devemos preparar-nos, formulando todas as medidas, de caráter provisório embora, que nos permitam enfrentar sem temores as energias dominadoras da vida civilizada, aproveitando-as cautelosamente, sem abdicarmos a originalidade das nossas tendências, garantidoras exclusivas da nossa autonomia entre as nações. Está visto o significado superior desse anelo quase instintivo de uma revisão constitucional que tanto se vai generalizando e em breve será a plataforma única de um partido, o primeiro digno de tal nome a formar-se neste regime. Reconhece-se, afinal, que o nosso código orgânico não enfeixa as condições naturais do progresso; e que andamos há quinze anos no convívio das nações com a aparência pouco apresentável de quem, meão na altura, se revestiu desastradamente com as vestes de um colosso.

Daí, a maioria dos males.

Fora absurdo atribuí-los à República, numa época em que a preexcelência das formas de governo é assunto relegado aos donaires da palavra e à brilhante frivolidade dos torneios acadêmicos. Atribuímo-los ao artificialismo de um aparelho governamental feito de afogadilho e sem a medida preliminar dos elementos próprios da nossa vida. Um código orgânico, como qualquer outra construção intelectual, surge naturalmente da observação consciente dos materiais objetivos do meio que ele procura definir -e para o caso especial do Brasil exige ainda medidas que contrapesem ou equilibrem a nossa evidente fragilidade de raça ainda incompleta, com a integridade absorvente das raças já constituídas.

A tarefa dos futuros legisladores será mais social do que política e inçada de dificuldades, talvez insuperáveis.

Realmente, este velar pela originalidade ainda vacilante de um povo -numa fase histórica em que se universalizam tendências e ideais, e em que fora absurdo inclassificável o seqüestro do Paraguai de há cinqüenta anos, equivale quase a impropriar-nos ao ritmo acelerado da civilização geral...

* * *

Mas se não podemos engenhar medidas que nos salvaguardem, ou amparem nesta pressão formidável imposta pelo convívio necessário, civilizador e útil dos demais países, devemos pelo menos evitar as que de qualquer modo facilitem, ou estimulem, ou abram a mais estreita frincha à intervenção triunfante do estrangeiro na esfera superior dos nossos destinos.

É o que sucede, para citarmos um exemplo, com o projeto de reforma constitucional que neste momento se discute no Congresso paulista.

Lá está um artigo a talho das considerações que alinhamos.

É o que firma a elegibilidade do estrangeiro, dotado com um exíguo qüinqüênio de vida estadual, para o cargo de presidente do Estado. A reforma, neste ponto, não altera o estatuto antigo.

Renova-o. O naturalizado, revestido de direitos políticos de pronto adquiridos na franquia escancarada da grande naturalização, poderá dirigir amanhã os destinos do Estado mais próspero do Brasil.

Assim, no plagiar a estrutura política dos ianque, mal cepilhando-lhe as rebarbas, vamos repeli-la e repudiá-la precisamente no lance onde ela ostenta um magnífico ciúme nativista, rodeando de tantas exigências, de tantos empeços e de condições tão severas, até para os mesmos filhos do país, o conseguimento de um cargo, que é a mais alta concretização da vontade popular, e que se destina a imprimir uma unidade inteiriça entre os demais órgãos do governo.

Todas as linhas anteriores nos dispensam o comentário mais breve desta disposição legislativa, que irá atrair para o ponto mais alto das agitações eleitorais a arregimentação vigorosa dos que têm a solidariedade espontânea e firme determinada pelo próprio afastamento da verdadeira pátria. E se considerarmos bem o quadro desanimador da nossa atual existência política, praticamente definida pela mais completa indiferença e em que o abstencionismo se erigiu em protesto único e contraproducente a defrontar os estigmas que debilitam a organização dos poderes constituídos -o artigo renovado na Constituição do Estado mais cosmopolita do Brasil não é apenas um erro.

É até uma imprudência.

Um velho problema

Li há tempos alentada dissertação sobre um singularíssimo direito expresso em velhas leis consuetudinárias da Borgonha. Direito do roubo...

Recordo-me que, surpreendido com tal antinomia, tão revolucionária, sobretudo para aquela época, ainda mais alarmado fiquei notando que a patrocinava o maior dos teólogos, Santo Tomás de Aquino; e com tal brilho e cópia de argumentos, que a perigosa tese repontava com a estrutura inteiriça de um princípio positivo. Realmente a repassava uma nobre e incomparável piedade, fazendo que aquela extravagância resumisse e espelhasse um dos aspectos mais impressionadores da justiça.

Tratava-se, ao parecer, de um código da indigência; e os graves doutores, no avantajarem-se tanto, rompendo com tão nobre rebeldia as barreiras da moral comum, para advogarem a causa da enorme maioria de espoliados, chegavam à conclusão de que a opulência dos ricos se traduzia como um delitum legale, um crime legalizado. Impressionava-os o problema formidável da miséria na sua feição dupla -material e filosófica- pois é talvez menos doloroso refletido nos andrajos das populações vitimadas, que na triste inópia de elementos da civilização para o resolver.

E como lhes faleciam, mais do que hoje nos falecem, elementos para a extinção do mal, justificavam aos desvalidos num crudelíssimo título de posse a todos os bens -a fome.

O indigente tornava-se um privilegiado afrontando impune toda a ortodoxia econômica. O roubo transmudava-se, do mesmo passo, num direito natural de legítima defesa contra a Morte e num dever imperioso para com a Vida.

Mas não foram além deste expediente e dessas declamações os piedosos doutores. Tolhia-os, senão a situação mental da Idade Média imprópria a uma apreciação exata do conjunto do progresso humano, a mesma ditadura espiritual do catolicismo, na plenitude de força, e para o qual a miséria -eloqüentíssima expressão concreta do dogma do pecado original- era sempre um horroroso e necessário capital negativo, avolumando-se com as provações e com os martírios para a posse anelada da bem-aventurança, nos céus...

Por outro lado, os pensadores leigos do tempo, e os que os encalçaram até ao século XVIII, não partiram esta tonalidade sentimental. Mais sonhadores que filósofos, o que os atraiu era o lado estético do infortúnio, a visão empolgante do sofrimento humano, a que nos associamos sempre pela piedade. Os seus livros, pelos próprios títulos hiperbólicos, à maneira dos das novelas do tempo, retratam uma intervenção brilhante e imaginosa, mas inútil. São como títulos de poemas. De fato, na Utopia de Thomaz Morus, na Oceana de Hallis, ou na Basilíade de Morelly, a perspectiva de uma existência melhor, oriunda da riqueza eqüitativamente distribuída e dos privilégios extintos, irrompe num fervor de ditirambos, aos quais não faltam, para maior destaque, prólogos arrepiadores de agruras e tormentas indescritíveis...

As medidas propostas raiam pelos exageros máximos da fantasia: do «nivelamento absoluto» de João Libburne, ao platonismo adorável de Fontenelle e ao niilismo religioso de Diderot; e para lhes não faltar o grotesco, esse cruel e antilógico grotesco imanente às mais trágicas situações, culmina-as o desvairado comunismo de Campanella com os seus trezentos monges, trezentos ascetas barbudos e melancólicos, tentando uma república igualitária que seria o desabamento de todas as conquistas do progresso.

Ora, tudo isto caracteriza bem o completo desequilíbrio das almas rudemente trabalhadas pelas doutrinas opostas e de todo desapercebidas, então, de uma síntese filosófica que ao mesmo passo as emancipasse do apego tradicional ao catolicismo, cuja missão findara, e dos impulsos demolidores da metafísica triunfante.

Assim, ao arrebentar a crise decisiva de 1789, não é de estranhar ficasse inapercebido, e talvez sacrificado, o grande problema que desde Pitágoras e Platão vinha agitando os espíritos. É que a grande revolução, inspirada pela filosofia social do século XVIII, oferece o espetáculo singular de repudiar, desde os seus primeiros atos, os seus próprios criadores. A consideração de Guizot é profunda: nunca uma filosofia aspirou tanto ao governo do mundo e nunca foi tão despida de Império.

Os filósofos foram, de pronto, suplantados, na agitação revolta dos panfletos e da retórica explosiva dessa literatura política sempre efêmera, com ser modelada pelos desvarios repentinos da multidão. À sólida estrutura mental de um d'Alembert se antepôs o espírito imaginoso e pueril de um Vergniaud, e aos sonhos desmedidos de Mably o excesso de objetivismo do trágico casquilho que passeou pelas ruas de Paris a deusa da Razão...

De sorte que a última pancada no antigo regime -já longamente solapado e prestes a cair por si mesmo- se fez com excesso de energias que atirou sobre os destroços da ordem antiga as ruínas da ordem nova planeada. Exclusivamente atraída pelo programa, que se lhe figurava enorme e pouco valia, de derruir as classes privilegiadas, a revolução firmou, nos «direitos do homem», um duro individualismo que na ordem espiritual significava a negação dos seus melhores princípios e na ordem prática equivalia a destruir as corporações populares, isto é, a única criação democrática da Idade Média.

«Os direitos do homem... No entanto, a fórmula superior daquela filosofia, visava, de preferência, através da solidariedade humana crescente, exatamente ao contrário -os deveres do homem.» Mas era exigir muito à loucura política do momento. Fazia-se mister, antes de tudo, que as franquias recém-adquiridas tivessem um traço incisivamente antiaristocrático. Que o camponês, absolutamente livre, fosse absolutamente dono da quadra de terra onde nascera e onde tanto tempo jazera aguilhoado à gleba feudal; enquanto o burguês das cidades pudesse agir libérrimo, dispondo a bel-prazer de todos os seus bens, despeado do liame das jurandes.

E o trono vazio dos Capetos teve em roda a concorrência tumultuária de não sei quantos milhões de liliputianos reis...

Despojados o clero e a aristocracia de suas propriedades (não raro precárias como privilégios sujeitos aos caprichos do poder monárquico) ficou em seu lugar -intangível, absoluta e sacratíssima- a propriedade burguesa, para a qual o ilustre Condorcet não encontrara limites no texto que forneceu à Convenção.

Por isto, a breve trecho, se patenteou a inanidade das reformas executadas: ao invés de um número restrito de privilegiados, nos quais o egoísmo se atenuava com as tradições cavalheirescas da nobreza, um outro, maior e formado pela burguesia vitoriosa, mais inapta ainda a compreender a missão social da propriedade, ávida por dominar na arena livre que se lhe abria, e ·tornando maior o contraste entre a sua opulência recente e a situação inalterável do proletariado sem voto naquele tumulto e destinada apenas a colaborar anonimamente na epopéia napoleônica, quando em breve, culminando a catástrofe revolucionária, o mais pequenino dos grandes homens surgisse, concretizando a reação disfarçada do antigo regime, e fosse restaurar, entre os fulgores de uma glória odiosa, o anacronismo da atividade militar.

Destruída desta maneira a obra memorável da Convenção, vê-se, contudo, que ela tinha, latentes e aguardando apenas um meio propício, os princípios de uma distribuição mais eqüitativa da fortuna. Para o rígido Camus, a propriedade «não era um direito natural, era um direito social»; acompanhava-o neste conceito o romântico Saint-Just; e sobre todos, mais incisivamente, num dizer claríssimo que lhe dá as honras de um precursor do coletivismo moderno, o incomparável Mirabeau atirava na anarquia das assembléias estas palavras singularmente austeras: «Le proprietarie n'est lui-même que le premier des salariés. Ce que nous appellons vulgairement la proprieté n'est autre chose que le prix qui lui paye la societé pour les distribuitions qu'il est chargé de faire aux autres individus par ses consommations et ses depenses. Les proprietaires sont les agents, les economes du corps social.»

Estas frases admiráveis, porém, que ainda hoje, transcorridos cento e tantos anos, são a síntese de todo o programa econômico do socialismo, ninguém as escutou. De modo que à massa infelicíssima do povo, a quem a revolução libertara para a morte despeando-a da gleba para jungi-la ao carro triunfal de um alucinado, restavam ainda, como nos velhos tempos, apenas as fórmulas enérgicas, mas inócuas, de alguns doutores canonizados; e em pleno repontar do século XIX (quando a filosofia natural já aparelhara o homem para transfigurar a terra) um triste, um repugnante, um deplorável, e um horroroso direito: o direito de roubo...

* * *

Mas esta filosofia natural, tão crescentemente revigorada e favorecendo tanto, no século que passou, o ascendente industrial, era por si mesma -isolada no campo das suas investigações- inapta à verdadeira solução do problema. Dizem-no os insucessos de todos os que o consideraram esteando-se nela, das estupendas utopias de Saint-Simon e dos seus extraordinários discípulos, às alienações de Proudhon, às tentativas bizarras de Fourier e ao soçobro completo da política de Luís Blanc.

Fora logo acompanhá-los. Se o fizéssemos, veríamos que, malgrado todos os recursos das ciências, eles pouco se avantajaram aos sonhadores medievais: o mesmo agitar de medidas fantásticas, e tão radicais, algumas, abalando tanto os fundamentos da sociedade, a começar pela organização da família, que acarretavam antes novos elementos perturbadores e novas faces à questão, dando-lhe um caráter por igual revolucionário e complexo capaz de a tornar perpetuamente insolúvel.

* * *

Assim ela chegou até meados do último século -até Karl Marx- pois foi, realmente, com este inflexível adversário de Proudhon que o socialismo científico começou a usar uma linguagem firme, compreensível e positiva.

Nada de idealizações: fatos; e induções inabaláveis resultantes de uma análise rigorosa dos materiais objetivos; e a experiência e a observação, adestradas em lúcido tirocínio ao través das ciências inferiores; e a lógica inflexível dos acontecimentos; e essa terrível argumentação terra-a-terra, sem tortuosidades de silogismos, sem o idiotismo transcendental da velha dialética, mas toda feita de axiomas, de verdadeiros truísmos, por maneira a não exigir dos espíritos o mínimo esforço para a alcançarem, porque ela é quem os alcança independentemente da vontade, e os domina e os arrasta com a fortaleza da própria simplicidade.

A fonte única da produção e do seu corolário imediato, o valor, é o trabalho. Nem a terra, nem as máquinas, nem o capital, mesmo coligados, as produzem sem o braço do operário. Daí uma conclusão irredutível: -a riqueza produzida deve pertencer toda aos que trabalham. E um conceito dedutivo: o capital é uma espoliação.

Não se pode negar a segurança do raciocínio.

De feito, desbancada por completo a lei de Malthus, ante a qual nem se explicaria a civilização, e demonstrada a que se lhe contrapõe consistindo em que «cada homem produz sempre mais do que consome persistindo os frutos do seu esforço além do tempo necessário à sua reprodução», -põe-se de manifesto o traço injusto da organização econômica do nosso tempo.

A exploração capitalista é assombrosamente clara, colocando mesmo o trabalhador num nível inferior ao da máquina. De fato, esta, na permanente passividade da matéria, é conservada pelo dono; impõe-lhe constantes resguardos no trazê-la íntegra e brunida, corrigindo-lhe os desarranjos; e quando morre -digamos assim- fulminada pela pletora de força de uma explosão, ou debilitada pelas vibrações que lhe granulam a musculatura de ferro, origina a mágoa real de um desfalque, a tristeza de um decrescimento da fortuna, o luto inconsolável de um dano. Ao passo que o operário, adstrito a salários escassos demais à sua subsistência, é a máquina que se conserva por si, e mal; as suas dores recalca-as, forçadamente estóico; as suas moléstias, que, por uma cruel ironia, crescem com o desenvolvimento industrial -o fosforismo, o saturnismo, o hidrargirismo, o oxicarborismo- cura-as como pode, quando pode; e quando morre, afinal, às vezes subitamente triturado nas engrenagens da sua sinistra sócia mais bem aquinhoada, ou lentamente -esverdinhado pelos sais de cobre e de zinco, paralítico delirante pelo chumbo, inchado pelos compostos do mercúrio, asfixiado pelo óxido carbônico, ulcerado pelos cáusticos dos pós arsenicais, devastado pela terrível embriaguez petrólica ou fulminado por um coup de plomb- quando se extingue, ninguém lhe dá pela falta na grande massa anônima e taciturna, que enxurra todas as manhãs à porta das oficinas.

Neste confronto se expõe a pecaminosa injustiça que o egoísmo capitalista agrava, não permitindo, mercê do salário insuficiente, que se conserve tão bem como os seus aparelhos metálicos, os seus aparelhos de músculos e nervos; e está em grande parte a justificativa dos socialistas no chegarem todos ao duplo princípio fundamental:

Socialização dos meios de produção e circulação;

Posse individual somente dos objetos de uso.

Este princípio, unanimemente aceito, domina toda a heterodoxia socialista -de sorte que as cisões, e são numerosas, existentes entre eles, consistem apenas nos meios de atingir-se aquele objetivo. Para alguns, e citem-se apenas João Ligg e Ed. Vaillant, os privilégios econômicos e políticos devem cair ao choque de uma revolução violenta. É o socialismo demolidor, que, entretanto, menos aterroriza a sociedade burguesa. Outros, como Emílio Vandervelde, se colocam numa atitude expectante: as reformas serão violentas ou não, segundo o grau de resistência da burguesia. Finalmente, outros ainda -os mais tranqüilos e mais perigosos- como Ferri e Colajanni, corretamente evolucionistas, reconhecendo a carência de um plano já feito de organização social capaz de substituir, em bloco, num dia, a ordem atual das coisas, relegam a segundo plano as medidas violentas, sempre infecundas e só aceitáveis transitoriamente, de passagem, num ou outro ponto, para abrirem caminho à própria evolução.

Ferri, em belíssimo paralelo entre o desenvolvimento social e o terrestre, mostra como os imaginosos cataclismos de Cuvier, perturbaram, sem efeito, a geologia para explicarem transformações que se realizam sob o nosso olhar, sendo os grandes resultados, que mal compreendemos no estreito círculo da vida individual, uma soma de efeitos parcelados acumulando-se na amplitude das idades do globo. Deslocando à sociedade este conceito, aponta-nos o processo normal das reformas lentas, operando-se na consciência coletiva e refletindo-se a pouco e pouco na prática, nos costumes e na legislação escrita, continuamente melhorada.

Nada mais límpido. Realmente, as catástrofes sociais só podem provocá-las as próprias classes dominantes, as tímidas classes conservadoras, opondo-se à marcha das reformas -como a barragem contraposta a uma corrente tranqüila pode gerar a inundação. Mesmo nesse caso, porém, a convulsão é transitória; é um contrachoque ferindo a barreira governamental. Nada mais. Porque o caráter revolucionário do socialismo está apenas no seu programa radical. Revolução: transformação. Para a conseguir, basta-lhe erguer a consciência do proletário, e -conforme a norma traçada pelo Congresso Socialista de Paris, em 1900- aviventar a arregimentação política e econômica dos trabalhadores.

Porque a revolução não é um meio, é um fim; embora, às vezes, lhe seja mister um meio, a revolta. Mas esta sem a forma dramática e ruidosa de outrora. As festas do primeiro de maio são, quanto a este último ponto, bem expressivas. Para abalar a terra inteira, basta que a grande legião em marcha pratique um ato simplíssimo: cruzar os braços...

Porque o seu triunfo é inevitável.

Garantem-no as leis positivas da sociedade que criarão o reinado tranqüilo das ciências e das artes, fontes de um capital maior, indestrutível e crescente, formado pelas melhores conquistas do espírito e do coração...

Ao longo de uma estrada

Margem do Turvo - novembro de 1901

... Considero, à porta da capuaba de pau-a-pique e taipa em que me abriguei, este trecho torturante da estrada de Tabuado, onde me colheu a noite.

E penso, desapontado, nas três mil léguas das quarenta e oito estradas romanas, estendidas, irradiantes, pela terra feito uma rede aprisionadora e forte desenrolada em roda da coluna fulgente do miliarum aureum, que centralizava o Fórum.

O viajante abalava por uma delas, a Via Flamínia, por exemplo, e contorneava todo o norte da Itália; entrava na Panônia; varava adiante, a Moécia e a Trácia, seguindo por Heracléia até Constantinopla; e daí para a Bitínia, para a Capadócia, para Antióquia, atravessando o Tauros, e para a Síria, a Palestina e o Egito; inflectindo, afinal, vivamente, à. direita, perlongando todo o norte da África, de Alexandria a Tânger.

Neste longo percurso -atravessando pantanais e montanhas sobre paredões de pedra ou galerias subterrâneas, pisava o chão duro dos stracta enrijados a cimento, cobertos pelas gláreas de saibro sobre que se estendiam os ladrilhos largos dos silhares.

Por ali disparavam as quadrigas velozes, como sobre raias unidas, e o pedestre desviava-se, a salvo, sobre as calçadas laterais de basalto, das margines, ladeadas de bancos intervalados e cômodos.

As viagens transcorriam rápidas naquelas avenidas continentais, animadas e vibrantes, onde estrepitava a galopada dos correios precipitando-se para as Gálias ou para a Síria, e derivavam, vagarosas, as caravanas dos mercadores, estacando às vezes para que de permeio lhes passassem céleres, no ritmo acelerado da estratégia de César, as coortes das legiões.

Há dois mil e tantos anos...

É natural que nos entristeçamos hoje, contemplando este trecho medonho de estrada, tortuoso e estreito, invadido de mato, rolando em aclives vivos, afundando em grotões, enfiando, feito num túnel, pelos tabocais que o cobrem, ou diluindo-se, impraticável, em tremedais extensos; -um picadão malgradado, de dezenas de léguas, atravessando todo o Estado de São Paulo até ao Mato Grosso.

Dir-se-á que os tempos são outros, outros os nossos recursos, e que a linhas férreas substituem com vantagem aquelas construções monumentais da engenharia antiga, com maior economia de esforços e resultados incomparavelmente maiores.

* * *

Mas esta estrada de Tabuado que, pelo seu traçado, é a mais importante não já de São Paulo mas do Brasil inteiro, merecia trabalhos excepcionais. Tem um caráter continental tão frisante que devíamos, tanto quanto possível, aproximá-la de uma estrada romana.

Desenvolvendo-se de Jaboticabal ao porto do Paraná, que a batiza, o seu prolongamento levá-la-ia, recortando o divortium aquarum do Amazonas e do Paraguai, a Cuiabá, quase no centro geométrico da América do Sul. Teria, então, um comprimento de duzentas léguas escassas e se fosse construída -não diremos com o luxo estupendo dos caminhos antigos, nem mesmo como os modernos planck-roads do Canadá -mas larga e abaulada, declives atenuados, atoleiros para sempre desfeitos com aterros firmes e drenagem completa, faixa reforçada por uma macadamizacão pouco espessa embora, pontes que não constringissem a vazão do rio nas estreitezas de uma economia extravagante, e tendo, regularmente espaçados, estações e postos de segurança, garantindo e policiando o tráfego; assim constituída, aquela estrada duplicaria em poucos anos a vitalidade nacional.

Não idealizamos.

Entre os coeficientes de redução do nosso progresso, avulta uma condição geográfica, que toda a gente conhece.

O Brasil é compacto. Falta-lhe penetrabilidade. Falta-lhe esse articulado fundo das costas, essa diferenciação do espaço que em todos os tempos e lugares da Grécia antiga à Inglaterra de hoje e ao Japão, reage vigorosamente sobre as civilizações locais.

Por outro lado, completando os inconvenientes de um aparelho litoral inteiriço, a sua estrutura geológica, matriz do facies topográfico -antemurais graníticas precintando planaltos- impropria-o ainda mais ao domínio franco.

Daí todo o esforço despendido para se modificar esta fatalidade geográfica.

Em torno do problema da viação geral do Brasil se tem travado discussões entre as mais interessantes de toda a engenharia.

Começaram em 1870. Tiveram a princípio, como objetivo exclusivo, o abandono do perigoso desvio pelo Prata, que, de 1850 a 1866, através de longa série de desastres diplomáticos enfeixados afinal numa campanha feroz, tornava precárias as comunicações com o Mato Grosso.

Apareceram, então, os traçados de Palm e Lloyd, B. Rohan, Antônio Rebouças e outros, que, variando apenas no escolher os diversos vales como linhas naturais de penetração, visavam, estreitamente estratégicos, alcançar o Paraguai, pelo sul daquele Estado remoto. Apenas Monteiro Tourinho ampliou o problema, sem o melhorar, com a idealização ousada de uma linha férrea das Sete Quedas, no Paraná, ao porto de Arica, no Pacífico.

Depois a questão se esclareceu melhor. Sem perder o ponto de vista militar, tornou-o apenas incidente de aspiração mais alta.

Surge o nome de Pimenta Bueno. O grande engenheiro firma, em 76, acompanhando a divisória das águas do Tietê e do Mogi-Guaçu, com o ponto obrigado de Santa Ana do Paranaíba, o rumo realmente prático das nossas comunicações com a capital de Mato Grosso.

Os que se sucederam, a própria comissão de cinco notáveis -Rio Branco, Beaurepaire Rohan, Buarque de Macedo, Raposo e Honório Bicalho- não encararam com maior lucidez o assunto.

A linha planeada, que a Companhia Paulista, infelizmente, acompanhou somente até Araraquara, permaneceu inteiriça, completa, sem comportar a variante mais breve, e cortando mesmo, vitoriosamente, depois, as paralelas desse grande triângulo da viação geral, que André Rebouças ideou, como um desafio ao nosso progresso máximo, no futuro.

Não pormenorizaremos estes vários traçados.

Notemos apenas que em todos eles os dignos mestres tiveram a obsessão permanente da locomotiva, rápida e triunfante, suplantando tão desmarcadas distâncias. Agiram num plano superior demais. Foram sobremaneira teóricos e olvidando o aspecto econômico, dominante na questão, parece terem imaginado que a simples chegada das vias férreas bastasse para que surgissem os elementos vitais e a matéria-prima da mais civilizadora das indústrias: o povoamento, a produção intensa e o tráfego contínuo.

Mas este despertar de energias em regiões despovoadas requer um prazo longo demais para os capitais que nele se arriscam, jogando contra o futuro.

Mostra-o, entre nós, uma experiência de trinta anos.

As nossas duas melhores estradas de penetração, aparelhadas pelos recursos acumulados de um progresso crescente, a Paulista e a Mogiana, inauguradas em 1872 e 1875, no avançarem para Mato Grosso e Goiás mal ultrapassam, hoje, um terço e a metade das distâncias.

Entretanto, organizaram-se na quadra certo mais pujante do nosso desenvolvimento econômico, que o gênio do Visconde do Rio Branco domina, e tiveram, nos anos subseqüentes, o amparo da riqueza crescente de São Paulo.

A primeira afastou-se do mesmo traçado civilizador de Pimenta Bueno, seguindo ilogicamente para Barretos, desviando-se de uma rota entregue hoje ao avançamento, naturalmente moroso, da estrada de Ribeirãozinho. Mas dado que persistisse no primitivo rumo e fosse encontrando sempre nas novas paragens atingidas as mesmas condições de vida, só alcançaria Cuiabá num prazo mínimo de sessenta anos...

E ainda quando, escandalosamente otimistas diante do nosso desfalecimento econômico, reduzíssemos aquele prazo, não apagaríamos o traço bem pouco animador que caracteriza a distensão das nossas redes de estradas de ferro.

De fato, nenhuma busca o centro do país visando despertar as energias latentes que o afastamento do litoral amortece. Progridem arrebatadas por uma lavoura extensiva que se avantaja no interior à custa do esgotamento, da pobreza e da esterilização das terras que vai abandonando.

Povoam despovoando. Não multiplicam as energias nacionais, deslocam-nas. Fazem avançamentos que não são um progresso. E, alongando para a frente os trilhos, à medida que novas terras roxas abrolham em novos cafezais, vão, ao acaso, nesse seguir o sulco das derribadas, deixando atrás um espantalho de civilização tacanha nas cidades decaídas circundadas de fazendas velhas...

Este fato, que ninguém contesta, define bem as anomalias de um desenvolvimento e de um progresso contestáveis. Reflete o vício de uma expansão em que não colaboram as forças profundas do país, porque vai da periferia para o centro, sobre não ter o caráter francamente nacional, a pouco e pouco extinto no vigor das correntes intensivas de imigrantes, que, diante da nossa indiferença fatalista pelo futuro, já vão assumindo o aspecto de uma invasão de bárbaros pacíficos.

Deste modo uma estrada de rodagem digna de tal nome, para o Mato Grosso, principalmente agora que o automobilismo libertou a velocidade do trilho, não seria apenas o melhor leito para a futura via férrea e o melhor meio de nos emanciparmos do Prata, neste fase incandescente da política sul-americana, mas ainda, sob aspecto mais grave, um belo laço de solidariedade prendendo-nos aos patrícios dos sertões e revigorando uma integração étnica, já consideravelmente comprometida.

* * *

E a tarefa é, relativamente, fácil.

Temos um termo de comparação expressivo na única estrada de rodagem de todo o Brasil, a da «União e Indústria».

Desenvolvida de Juiz de Fora a Petrópolis, com um percurso de 147 quilômetros, esta admirável avenida, macadamizada de feldspato e quartzo, que outrora faria inveja às melhores ruas das nossas capitais, é uma grande lição.

Surgiu da vontade de ferro de um homem -Mariano Procópio- e foi executada em condições desfavoráveis: de um lado as dificuldades técnicas decorrentes da feição alpestre do Rio de Janeiro e Minas, de outro a carência de aparelhos e maquinismos, que hoje existem, sendo o próprio britamento das pedras feito desvantajosamente, à mão, o que encarecia sobremodo os materiais empregados.

Mas foi feita -larga, de oito metros, abaulado o leito resistente e firme, perfeitamente drenado, decorado de obras de arte em que se salienta a ponte das Garças sobre o Paraíba, e infletindo em curvas capazes dos maiores retângulos de atrelagem, ou atenuando, malgrado o acidentado dos lugares, os esforços de tração, graças a um máximo de 3% para os declives.

É natural que sobre ela as diligências de cerca de três toneladas, corressem, rápidas, com a velocidade média de 17 quilômetros por hora, o que permitia o percurso total das suas vinte e duas léguas em muito menos de um dia.

Ora, uma estrada identicamente modelada, para Mato Grosso, seria apenas oito vezes e meia maior.

Realmente, dando-se aos caminhos de Jaboticabal a Cuiabá um desenvolvimento de 0,20 sobre a linha reta, o que não é pouco para uma estrada de rodagem, vemos que a sua extensão total importará em 1.250 quilômetros ou 190 léguas.

Com estes dados, confrontadas as duas empresas, verifica-se que todas as vantagens são pela última.

Dois Estados, o de Mato Grosso e o de São Paulo, e a União, por igual interessados, certo balanceiam, numa proporção maior, a energia única de um homem, sobretudo considerando-se que a intervenção da última acarretará a diminuição da mão-de-obra pelo emprego de engenharia militar e contingentes do Exército. Além disso, os tempos mudaram, estando a engenharia aparelhada de elementos incomparavelmente mais eficazes.

Ainda mais, o dilatado do desenvolvimento seria em grande parte compensado pela disposição mais acessível do terreno.

De fato, percorridos os 435 quilômetros que vão de Jaboticabal à margem direita do Paraná, fronteira ao Tabuado, mercê de uma ponte de 880 metros sobre o grande rio, a única obra de arte dispendiosa a executar, a estrada se desdobrará, a partir de Santa Ana, pelo vale do Aporé; e, deixando-o, irá deparar regiões ainda mais praticáveis, estendendo-se em cheio sobre esse divortium aquarum do Amazonas e do Paraguai, tão pouco acentuado e de relevos tão breves que os tributários dos dois rios quase se anastomosam em nascentes comuns. E se considerarmos que em todo este percurso lhe sobejam, nos seixos rolados de inumeráveis cursos de água e nos afloramentos de quartzitos, materiais que suplantam na facilidade do britamento, e na duração, o gnaisse granítico da «União e Indústria», vemos que, de feito, numerosíssimas condições favoráveis rodeiam a abertura desse caminho admirável, imposto por exigências sociais e políticas tão imprescindíveis e urgentes.

Quando isto suceder -dando-se mesmo às diligências, numa marcha diária de dez horas, uma velocidade média de doze quilômetros, a travessia de Jaboticabal a Cuiabá será feita, folgadamente, em dez dias- precisamente um terço, portanto, do que hoje se gasta na volta de quinhentas léguas pelo Prata.

Ademais, ficarão por uma vez removidos todos os embaraços, todos os empeços inesperados da travessia num rio, que, pelos atritos perigosos que tem originado, e despertará, é o Bósforo alongado na América do Sul.

E se isto não acontecer -então, parafraseando uma frase célebre, é que decididamente nos faltam «um grande engenheiro, um grande ministro e um grande chefe de Estado», para a realização das grandes obras.

Civilização

Convenha-se em que Spencer -o Spencer da última hora, o Spencer valetudinário e misantropo que chegou aos primeiros dias deste século para o amaldiçoar e morrer- desgarrou da verdade ao afirmar que há, nestes tempos, um recuo para a barbaria. Viu a vida universal com a vista cansada dos velhos. Não a compreendeu. Não lhe apreendeu os aspectos variadíssimos e novos. Certo, faltou-lhe às células cerebrais, exauridas pela idade, senão pelo mesmo acúmulo das imagens que se refletiram, a primitiva receptividade diante da época indescritível e bizarra em que as almas se dobram à sobrecarga de maravilhas e vacilam, deslumbradas, ora entre prodígios da indústria tão delicados, às vezes, que recordam uma materialização do espírito criador, ora entre as magias da ciência, tão poderosas que espiritualizam a matéria dinamizando-a na idealização tangível do radium...

Ou, então, afligiu-o um duro ferretoar da inveja. Ia-se-lhe a vida, próxima a estagnar-se no emperramento das artérias -e ficava-lhe na frente, maior e crescente, prefigurando novos encantos, novas revelações e novos ideais, o resplendor da civilização vitoriosa. Não se conteve. Partiu-se-lhe o aprumo de filósofo. Vestiu desastradamente a pele da raposa desapontada, e entrou na imortalidade através de uma fábula de La Fontaine.

Que mais desejava o sábio?...

Maior amplitude na ciência?

Mas esta é, hoje, tal que obriga a inteligência a diferenciar-se numa especialização indefinida. O mais desvalioso, o mais tíbio aspecto particularíssimo de uma existência, exige uma existência inteira. Em torno da criptógama mais rudimentar arma-se uma biblioteca. A mais afanosa vida não basta a estudar todas as algas.

Breve se organizarão academias para os zoófitos. O martelo do geólogo bate, nesta hora, na última aresta rochosa do último recanto perdido na anfractuosidade de um contraforte sem nome de uma montanha da África central. Aos sismógrafos, armados em toda a parte, não escapa o mínimo tremor, a mais célere crispatdura da terra. A ocultação da estrela mais imperceptível, sem nome ou apequenada nas últimas letras do alfabeto grego, não se opera sem que a acompanhe o olhar perspícuo de um astrônomo -do astrônomo que não induz como Newton, Kepler, nem calcula como Gauss, porque lhe é escassa a vida para as infinitas minúcias que repontam e fulguram na poeirada cósmica dos asteróides. Neste momento, um oceanógrafo, um NN imortal qualquer, arranca o brilho de uma revelação da vasa secular de um dos tenebrosos abismos do Atlântico; ou pompeia, vaidoso, o fruto de vinte anos de análises, descrevendo rigorosamente o movimento respiratório das nereidas.

E um anatomista, encanecido a estudar o grande zigomático, levanta-se gravemente numa academia real austera ou num instituto sisudo, e, diante da austera academia, que se edifica, ou do sisudo instituto, que se deslumbra, faz a filosofia do riso e a dinâmica hilariante da alegria...

Maior idealização artística?

Mas Shakespeare imortalizou-se, universalizando-se: foi a grande voz assombradora da natureza, ressoando com todas as tonalidades, da gagueira terrível de Caliban ao correntio harmonioso do rouxinol do Capuleto -ao passo que hoje os poemas irrompem, a granel, de um retalho qualquer da vida mais prosaica- e um largo, um irresistível misticismo baralha na mesma ebriez espiritualista os cientistas e os poetas.

Os raios n fulminam a positividade das ciências. E a crítica inexorável, que espantara os duendes e anulara o milagre, recua, por sua vez, surpreendida ante a ciência imaginária, que surge sobre os destroços da teoria atômica -e mostra-nos, em destaque, num quase eclipse da lei suprema da conservação da energia- o espiritista esmaniado ao lado do químico reportado, e a física de Roentgen desfechando nos mistérios telepáticos.

Maior expansão industrial?

Mas, posto de lado o indescritível das primorosas glorificações do trabalho, devia bastar-lhe, para aquilatar o império do homem sobre as coisas, este aproveitamento genial do solenóide terrestre na telegrafia sem fios: a terra inteira transmudada em serva submissa do pensamento humano, e toda penetrada dele, e absorvendo-o, irradiando-o, e expandindo-o no consórcio maravilhoso da sua força magnética imensurável com as vibrações ideais da inteligência...

Maior alevantamento moral?

Aqui se nos emperra a pena, a ranger, tarda e acobardada. O assunto é complexo e pregueia-se de inumeráveis refolhos. Não há abrangê-lo. O movimento industrial, ou científico, pode ao menos ser imaginado. Pode condensar-se num bloco resplandecente como essa Exposição de São Luís, que inscreve num quadrilátero de palácios o melhor de toda a atividade humana. Mas o progresso da moral...

* * *

Entre os atrativos da Exposição de São Luís, um há, interessantíssimo. Não se trata de algum novo motor, ou de uma nova aplicação elétrica. Trata-se de uma pantomima heróica. Imagine-se o drama esquiliano da Guerra do Transval sobre o palco amplíssimo de um vasto barracão de feira. A terra lendária, com o revesso dos seus alcantis arremessados e a angustura de seus desfiladeiros longos, aparece, à luz das gambiarras, na paisagem morta de lona chapada de largos borrões de tinta variadas e cruas ajustadas sobre pernas de serra e sarrafos.

Ali, desenrola-se a luta -nos estouros dos cartuchos de festim, no coruscar das espadas de papelão prateado, nos assaltos aos redutos de papier-maché, e no delírio, e no estavanado, e no tropear tumultuário dos guerreiros de rostos afogueados de vermelhão ou empalidecidos de pós-de-arroz, e ouvidos armados dos apitos do contra-regra...

O ianque aplaude. A ilusão é completa. Vê-se a celeridade nervosa de De Wet, a calma patriarcal de Krüger, a tardeza ameaçadora de Botha... E, vibrando na distensão repentina dos atiradores, ou concentrando-se em cargas violentas e compactas, dispersas em escaramuças ou fundidas, de golpe, no tumulto convulsivo da batalha, as brigadas impetuosíssimas dos boêres.

Depois Ladsmith, Kimberley, Magersfontain, todos os lugares refertos de reminiscências gloriosas...

Por fim, o assalto de Paardeberg e a bravura espantosamente tranqüila de Cronje.

Nesta ocasião, a imagem real da campanha é absoluta e o protagonista surge como o não representaria o Fregoli mais protéico e plástico. Porque é o mesmo Cronje, o Cronje autêntico, palpável -com a sua linha magnífica de herói de envergadura atlética, aparecendo aos clarões da ribalta, entre explosões de palmas e gritos entusiásticos que lhe bisam as façanhas.

Um cronista do Figaro, comentando o caso do único modo por que pode ele ser comentado -com um humorismo laivado de melancolia- explica que o general, numa carta ingênua e rude, declarou «que é preciso viver e que desgraçadamente ainda não há incompatibilidade entre a glória e a miséria»...

Não comentemos, nós. Admiremos, absortos, este traço adorável e utilitário dos tempos.

Acabou-se o tipo tradicional do herói transfigurado pela desfortuna; do herói importuno e triste; do herói que pede esmola ou morre escaveirado e tiritante, passando das palhas de uma enxerga para o mármore dos panteões. Não mais Camões e Belisários...

Rompe o herói prático, esplendidamente burguês; o herói que faz o truste do ideal; o herói que aluga a glória e que, antes de pedir um historiador, reclama um empresário.

Alevantamento moral...

Não prossigamos. Decididamente Spencer viu, pela última vez, este mundo com o olhar bruxuleante de um velho.

O mestre errou; errou palmarmente, desastrosamente, escandalosamente.

Os tempos que vão passando são, na verdade, admiráveis.