- XV -
E ainda com a proveitosa lição senti-me triste, profundamente triste.
Que dia infeliz! começou de manhã pelos procuradores que vi e que me causaram repugnância e tédio, e acaba à tarde com a contemplação de duas jovens formosas, que a princípio me pareceram dois anjos, e logo depois reconheci que eram duas criaturas condenadas, dois corações infeccionados, duas mulheres formosas, porém más, dois medonhos abismos cobertos de lindas flores.
Esta luneta é implacável e cruel: além da visão das aparências ainda não me concedeu uma contemplação suave.
Já aborreço os homens, e hoje principiei a desconfiar das mulheres.
Quero, preciso ter uma consolação, uma impressão felicitadora, que compense as tristes desilusões, por que tenho passado. Longe da minha luneta os homens e as mulheres! prefiro olhar, apreciar algum ser impecável, obra de Deus, não contaminada pelas malícias, e pelos vícios da humanidade.
Aí estão as duas pirâmides, e defronte o outeiro dos jacarés... são trabalhos do homem, desprezo-os; lá se mostram as flores... algumas são venenosas, e os perfumes das mais inocentes em certas condições podem matar; também não quero as flores; a água deste lago pode conter miasmas... não me convém...
Oh! eis ali um beija-flor!... a mais delicada e gentil criatura! eu o estou vendo com suas penas de esmeraldas e rubis, de ouro e topázio, de púrpura e de fogo... eu o estou vendo com a sua mobilidade faceira, com os seus vôos rápidos e graciosos, com o seu trêmulo adejar equilibrante no gozo puro do seu amor das flores...
Mas... que vejo ainda? que vejo agora?... ah! essa avezinha tão mimosa e tão linda é um monstro que me inspira aversão por seus instintos ferozes e qualidades perniciosas.
Egoísta, falso, incapaz de afeição durável, o perverso abusa dos seus encantos, e beija, profana e atraiçoa todas as flores, licencioso e infame, poluindo seus nectáreos e ostentando após a mais bárbara indiferença, a mais ostentosa e ilimitada inconstância.
O beija-flor é como a serpente pela extensibilidade da língua, e esta ainda nele se duplica, estendendo dois filetes, que lhe servem como as garras às aves de rapina.
Finalmente assassino e destruidor, ele mata e devora em cada dia dezenas e dezenas de insetos inocentes, fracos e incapazes de defender-se, ousando sem continência, nem respeito ir arrancá-los do mais doce asilo, do seio mimoso das flores!...
Hoje criei ódio aos beija-flores, passarinhos devassos, desmoralizados, traiçoeiros e malvados.
Flores da terra! acreditai na minha luneta mágica: tende medo dos beija-flores!
- XVI -
Esta última experiência afligiu-me profundamente.
Que! até nos seres irracionais, e entre eles na própria avezinha, mimo da criação, sorriso de anjo e raio de sol nascente tornados pelo criador em passarinho, no próprio beija-flor só me é dado encontrar maldades e perversão!!!
Sempre turvos e sinistros desenganos! sempre o mal neste mundo de peste e de misérias!... este mundo será pois o inferno, ou pode o inferno ser pior que este mundo?...
Deixei o Passeio Público, maldizendo da vida, detestando o homem, a mulher, toda criação, pedindo a Deus a morte, como o indigente faminto pede pão, como a escrava que é mãe, e a quem a maldição do cativeiro ainda não deturpou e anulou a sensibilidade, deseja e pede a liberdade do filho.
Que noite de horror e desespero passei! mas enfim a fadiga, o sofrimento do corpo que respondia às torturas morais da alma, venceram a contenção do espírito que procurava debalde imaginar consolações e lenitivo: ao romper da aurora adormeci.
Lembra-me que meu último sentimento na tormentosa vigília foi de desgosto da vida e de repugnância a toda a humanidade.
- XVII -
E como esses cinco últimos dias ainda mais trinta, um mês inteiro de desenganos e desilusões! em casa o quadro constante de tríplice traição na companhia obrigada de meus três e únicos parentes; fora de casa a pronta descoberta da maldade e da perfídia de todos os homens e de todas as mulheres.
Vi, encontrei somente o mal em tudo, e em toda a parte, nos seres orgânicos e nos inorgânicos, nas obras das ciências, e das artes, nos livros e nos monumentos.
Para escrever tudo quanto me mostrou a visão do mal me fora preciso encher com a pena molhada em fel muitos e volumosos livros, e atormentar a minha alma com o registro vivo das mais aflitivas observações.
Resumirei muito em breves palavras.
Eu tinha por amigos dois jovens da minha idade que moravam perto de nossa casa; a intimidade em que eu vivera com ambos nos tempos da minha miopia física e moral me fora sempre de grande consolação; mas a luneta mágica fez-me em breve conhecer o erro perigosíssimo dessas relações de tantos anos: um desses mancebos, o mais alegre, espirituoso e folgazão, era um homem imoral, desprezador das leis humanas, afrontador das leis de Deus, sem consciência, sem crenças, sem fé, tipo da sensualidade sem freio, besta que só cuidava em fartar-se nos pastos do mundo.
O outro que me agradava ainda mais, porque se mostrava sempre grave, pensador e comedido, era um calculista frio, sem escrúpulos na escolha dos meios para atingir ao fim que tinha em mira; o seu princípio moral consistia em salvar as aparências; furtaria a bolsa do amigo, se tivesse a certeza. de o não verem furtar; venderia sentenças, se fosse juiz; estava cansado de esperar pela morte de um tio, de quem contava ser herdeiro; filho único, porém não legitimo, do pai houvera abastada fortuna, e esquecia a mãe ainda viva e abandonada na miséria e no desprezo.
Separei-me de homens tão indignos da minha amizade; mas por isso mesmo mais profundos se tornaram o deserto e a noite da minha vida, e a medonha solidão no meio da mais ruidosa e brilhante sociedade.
O que faz sofrer este estado lúgubre, terrível do espírito ninguém sabe, ninguém faz idéia, só eu que o estou sofrendo.
- XVIII -
Um dia vi uma elegante e nobre senhora que passava, deixar cair com angélico disfarce duas moedas de ouro na mão de um mísero leproso, que deitado no primeiro degrau da escada do átrio de uma igreja, esmolava tristemente; vi-a levar o lenço aos olhos para enxugar duas grossas lágrimas, que lhe sublimizavam as faces; segui a nobre senhora com a minha luneta fixada sobre ela: ah! o disfarce fora mentira, a caridade era ostentação; as duas lágrimas duas pérolas falsas preparadas e expostas pelo artifício da hipocrisia; essa mulher casara rica, dominava o marido, gastava anualmente vinte contos de réis em vestidos e enfeites, economizando exageradamente em casa, negando ceia aos escravos, dando-lhes almoço e jantar muitas vezes insuficientes, e compensando a penúria da alimentação com freqüência de castigos ferozes e de torturas repugnantes.
Em outro dia vi um padre de aspecto venerando; não arredava do chão os olhos, trajava com severa decência própria do seu ministério, levava na fronte o selo da austeridade de seus costumes, e na expressão suave de seus olhos, e de sua boca meio risonha a manifestação da sua piedade: eram olhos de conforto espiritual, e boca de perdão. Observei-o com a minha luneta por mais de três minutos: os olhos de conforto espiritual eram vulcões de concupiscência, a boca do perdão era a fonte de palavras santas no altar e no púlpito, mas de seduções vergonhosas fora do templo; esse padre tinha corrompido uma donzela, abandonando-a depois aos frenesis da prostituição; esse padre discutia previamente a espórtula das missas, fazia sacrílegamente do altar balcão de traficantes, brigava por uma vela de libra ou meia libra de cera, guerreava os outros padres na sacristia, não se lembrava mais da conta das missas que devia, e desonrava enfim o sacerdócio, ultrajando o Cristo com exemplos de desmoralização e de ganância pervertedores do rebanho católico.
Uma vez quis ler um artigo de uma gazeta diária que me haviam recomendado por muito importante e bem escrito. Com efeito logo no primeiro período achei idéias sãs e luminosas enunciadas com elegância e pureza; bem depressa porem, revoltei-me, descobrindo oculta na metafísica de um principio a materialidade da ambição mais desenfreada, disfarçado em máximas de moral sublime o manejo intrigante do órgão de uma facção, nos protestos do amor da pátria a mentira do mais refalsado egoísmo e na ostentação de franqueza e independência dissimulado o preço por que se alugara o escritor. Irritado, fiz em pedaços a gazeta maldita.
- XIX -
Em outra ocasião, passando pela Rua dos Barbonos, parei diante de uma casa consagrada ao mais piedoso e santo mister, e vi armado em sua parede aquele aparelho movediço que se chama -roda dos enjeitados.
Ora pois! disse a mim mesmo; aqui é impossível que eu descubra o mal; porque neste caso o mal está somente na mãe, ou na família cruel, que enjeita o recém-nascido; mas no seio que se abre para recebê-lo, salvá-lo, adotá-lo não pode estar senão o bem, a caridade, a santidade.
E fitei a minha luneta na roda por mais de três minutos: quem o diria?... a roda da piedade bem depressa pareceu-me antes protetora do vicio e da desmoralização, do que providência salvadora de inocentes criancinhas condenadas; essa roda afigurou-se-me leito ruim de falsa caridade, porta do abandono, da perdição, talvez algumas vezes do cativeiro dos míseros enjeitados; li no berço dessa roda cem lúgubres histórias, e recuando espantado, preferi a miopia à visão do mal, e cheguei a pensar que para muitos dos enjeitados e para a sociedade fora melhor a sepultura, do que a roda.
E retirei-me, meditando, refletindo sobre o que acabava de ver.
Fique de parte a questão moral, social da conveniência de tais estabelecimentos de caridade.
Que faz a roda ao enjeitado? Se pode, livra-o da morte; mas depois condena-lhe a vida: era talvez preferível deixá-lo morrer.
Ser ou não ser: se a instituição é de caridade, seja-o plenamente, não se desnature, recorrendo a meios que em regra geral são fatais aos enjeitados; se não pode sê-lo plenamente, não cumpre o seu fim.
Que faz a roda? Recebe o enjeitado, e depois enjeita-o por sua vez. A verdadeira caridade não enjeita.
A roda que faz? Dá os enjeitados a criar, a quem os vem pedir e os leva a dez, a vinte, a cinqüenta e mais léguas de distancia, e fica muito contente de si, porque paga a criação do enjeitado por dois terços menos, do que de ordinário custa o aluguel de uma ama.
E por esse preço insuficientíssimo criar enjeitados é negócio que se explora!
Que fortuna espera ao enjeitado que a roda assim por sua vez enjeita? Faz tremer pensá-lo.
O mísero inocente é feliz, se acha seios de mulher em que se aleite, e fica apenas analfabeto e sem educação; a sociedade é que não pode esperar ser felicitada por semelhante enjeitado de roda.
E o que não é feliz desse modo tão infeliz?...
E o enjeitado que fica reduzido a escravo da família que o foi pedir?... e o enjeitado que morre à mingua longe da roda que o enjeitou, e que paga sua criação muitos meses além da afortunada morte do mísero condenado?
E o enjeitado de cor preta, ou de cor menos branca, que tão facilmente substitui o escravo que morre, e que toma dele o nome para ser vendido pela perversidade de algum infame dentre os negociantes de criação de enjeitados?
Esta ultima idéia, a suspeita da possibilidade... talvez da realidade de tão grande crime penetraram no meu espírito, como punhais ervados que me rasgassem o coração.
Tudo pois que eu via no mundo era maléfico, pavoroso, medonho!
- XX -
A minha vida se tornava mais pesada, insuportável fardo. Não havia para mim na terra nem consolação, nem luz de esperança; se me tivesse faltado a profunda fé em Deus, e a educação católica, o meu recurso teria sido o suicídio, porque a visão do mal me levara ao desespero.
Compreendi bem o horrível suplício da minha vida.
Em três parentes que eu possuía no mundo descobri três ignóbeis exploradores da minha fortuna e do meu infortúnio.
Em dois amigos quase da infância achei dois miseráveis sem moral, nem consciência.
Fiquei sem as santas prisões da família e sem a doce confiança da amizade.
Quis tomar conta dos meus bens e criar para mim uma família e empenhei-me em acertar com um bom procurador, e com uma donzela digna de ser minha noiva, e todos os procuradores que estudei, eram homens repulsivos e alicantineiros, e todas as donzelas que observei me inspiravam repugnância, pelas suas ruins qualidades morais, e gravíssimos defeitos.
Para qualquer lado que me voltei, fitando a minha luneta, vi somente sob falsas aparências corações corrompidos pelos vícios, ou enegrecidos pelo crime.
Não houve uma exceção!... todos os homens hediondos, todas as mulheres ainda piores que os homens! O mundo pareceu-me povoado por demônios de ambos os sexos; porque fora absurdo acreditar, que somente na cidade do Rio de Janeiro toda a população nacional e estrangeira fosse má e estivesse pervertida.
Descobri no sol fontes de terríveis calamidades, no beija-flor uma criatura malvada; na imprensa uma instituição condenável, em estabelecimentos de caridade lições e praticas de desumanidade.
Descri do advogado, do padre, do sábio, do artista, de todos e de tudo!
Achei-me na terra sem um parente amado, sem um parente possível, sem uma noiva possível, sem sociedade possível.
Em todos vi o mal; porque em breve desconfiei mesmo daqueles, que não estudara por mais de três minutos com a luneta mágica.
A visão do mal me causava já certa espécie de terror; um dia lembrou-me fitar a luneta no prato que acabavam de servir-me ao jantar; mas estremeci, e não a fitei, receoso de encontrar veneno; que me importava ser envenenado?... era melhor não ver.
Foi assim que passei mais outro mês que se arrastou como um século.
Que viver de torturas!
Tende piedade de mim, meu Deus! tirai-me deste mundo, onde eu vivo só, absolutamente só em solidão infernal, ou com um único, inseparável, amaldiçoado, mas implacável e sinistro companheiro, com o mal que eu vejo em tudo, em todos, em toda a parte.
- XXI -
O armênio tinha razão: a visão do mal é um poder fatalíssimo, uma faculdade que aniquila a paz, o sossego, as afeições, a vida do desgraçado que tem esse poder; mas agora é tarde! é muito tarde; precipitei-me em escarpado precipício, e é inevitável que eu vá morrer no fundo do abismo.
Pode-se viver sem crenças, sem a mais tênue esperança, sem o mais dúbio raiozinho de confiança em algum homem, em alguma mulher... pode-se; porque é assim que estou vivendo.
- XXII -
Recebi hoje uma carta do Reis, a quem não tornarei a chamar meu amigo; pois não me é possível ser amigo de homem algum.
Eu não tinha voltado à casa do Reis nem para cumprir o dever de cortesia, indo render-lhe agradecimentos, e também ao armênio pelo favor da luneta mágica.
Não voltei e não volto lá: detesto o armênio e desconfio do Reis; o melhor sinal de imerecida gratidão que a ambos posso e devo dar, é esquecê-los, é não ir lá fitar por mais de três minutos sobre eles a luneta que me deram: o armênio é concentrado e rude; o Reis é expansivo e obsequiador; quem sabe o que a minha luneta me mostraria no íntimo de qualquer deles?...
Devem ficar-me muito agradecidos por não ir vê-los: detesto o armênio, desconfio do Reis; não quero relações com eles.
Mas a carta do Reis deu-me que pensar; ei-la aqui ipsis verbis.
«Rio de Janeiro, 1.° de abril de 1868: Ilmo. Sr.: Não mereci a graça de uma visita de V. S. depois da noite da operação cabalística do armênio, e apenas desde anteontem comecei a ter singulares noticias da sua luneta mágica; mas de modo que sou obrigado a pedir a V. S. B. o favor de explicações que me são indispensáveis.
Há dois dias que o meu armazém é procurado por numerosos fregueses e desconhecidos que se empenham por obter esclarecimentos relativos à luneta mágica. Muitos zombam do caso, atribuem maravilhas inconvenientes que se contam à exaltação perigosa da imaginação de V. S.ª; exigem porém informações sobre o armênio e sobre a operação cabalística, de que têm notícia não sei por quem.
Outros, e infelizmente não são poucos, pretendem que com a luneta mágica tem V. S.ª a faculdade de ver os corações e as consciências de quantos observa por mais de três minutos, descortinando assim segredos, vícios que se escondem, erros que se ocultam e más qualidades que se dissimulam, protestando todos contra o perigo social que pode resultar de tão fatal e assombroso poder de encantamento.
Alguns enfim incômodos e teimosos querem por força que eu lhes venda lunetas iguais à sua, e perseguem-me com instâncias que me perturbam o sossego.
O maldito armênio diz que está pronto a encantar lunetas, sem dúvida com intenção maléfica; eu porem não consinto que ele apareça no armazém.
V. S.ª compreende que tenho urgente necessidade de saber tudo quanto há e se tem passado em relação à sua luneta mágica.
Devo aos meus fregueses e ao público em geral explicações sem reservas, transparência sem a mais leve sombra em tudo quanto se prepara e se faz, se imita, se aperfeiçoa, se inventa e se realiza nas minhas oficinas, e de quanto se vende no meu armazém ou dele sai, no cumprimento deste dever há para mim escrúpulo e honra; peço pois a V. S. a que me habilite para dar esclarecimentos e informações às pessoas que incessantemente me estão procurando, e inquirindo sobre esse importante assunto Sou etc. Reis.»
- XXIII -
A carta não me foi agradável; refleti por algum tempo e resolvi não responder ao Reis; a falta de resposta era inqualificável grosseria; eu porém já tinha em tão profundo desprezo e aborrecimento os homens, que pouco ou nada me preocupava a idéia de ofender o Reis. Decidi-me a fazer de conta que não recebera a carta.
Mas quem poderia ter atraiçoado o meu segredo? Tornado patente a minha facilidade da visão do mal?... Só três homens:
O armênio, de cuja ciência mágica se duvidava, e cujo testemunho era portanto suspeito, e para quase todos seria ridículo.
O Reis que me escrevia, interrogando-me, e que por conseqüência, nada sabia, visto que perguntava.
O velho Nunes, que assistira a cena dos trabalhos mágicos do armênio e a quem no dia seguinte eu confiara imprudente, louca e desastradamente o segredo do poder miraculoso da minha luneta magica.
Portanto, o traidor, o propalador do segredo fora o velho Nunes, o procurador imoral e refalsado, de quem eu fugira, e a cujo convite para jantar no seio de sua família faltara sem escusas ulteriores nem satisfações.
O velho trapaceiro e ignóbil procurava pois vingar-se do meu desprezo, denunciando a todos, publicando a força prodigiosa da luneta que eu possuía.
Vingança estéril, vã, estúpida! Que me importa o juízo dos homens? Que me importa o mundo?
Mundo, homens, velho Nunes e minha própria vida eu embrulho todos e tudo isso nos trapos ascosos do meu mais profundo desprezo.
Não dei a menor importância à revelação traidora, mal intencionada do velho Nunes: pensei que ainda quando ela pudesse trazer-me desgosto e porventura colocar-me em circunstâncias embaraçosas e desagradáveis, nem por isso chegaria a tornar-me mais desgraçado do que eu já era.
Atirei com a carta do Reis sobre a mesa, tomei o chapéu e sai a passear para desforrar-me de três dias de misantropa reclusão, a que me condenara.
Eu levava comigo o suplício da visão do mal, e não pudera imaginar que ainda outro suplício e igualmente horrível por ela me estivesse esperando no mundo em que vivia.
Saí, como disse, e avançara apenas alguns passos, quando reparei que muitas pessoas fugiam de encontrar-me, que outras voltavam-me as costas, que as senhoras se retiravam apressadas das janelas.
A princípio não pude explicar o fenômeno; logo depois, porém, lembrou-me a insidiosa revelação do velho Nunes, e compreendi que me fugiam por medo da minha luneta magica.
-Fogem, disse rindo-me; fogem, porque lhes doem as consciências e se reconhecem todos hipócritas e maus.
Era a primeira vez que me ria desde dois meses; o meu riso, porém, era cheio de fel, era o rir de maldição irônica lançando em face à humanidade-demônio.
Era quase noite; cheguei à Praça da Constituição, e entrei no jardim que estava cheio de povo.
De súbito ouvi surdo e longo ruído de centenas de vozes, semelhante ao trovejar longínquo da tempestade afastada; que me importava isso?... Continuei o meu passeio pelas ruas do jardim, mas antes de três minutos a Praça achou-se deserta, e no jardim apenas a estátua eqüestre e eu!...
-Que gente! exclamei sem poder conter-me: não há um homem, não há uma mulher que ouse afrontar a luneta mágica.
Veio-me o desejo de olhar e estudar a estátua eqüestre; imediatamente porém senti tanta repugnância ao desengano provável das idéias e sentimentos que eu acreditava ou antes acreditara presidindo e dirigindo o acontecimento majestoso e patriótico que esse belo monumento comemora, e atesta com sublime ufania que cedendo a generoso impulso, não quis contemplá-lo, e deixando o jardim, dirigi-me ao café vizinho, à muito conhecida casa do Braga.
Entrei, sentei-me a uma das primeiras mesas, e pedi uma xícara de café.
A sala estava atopetada de fregueses; mas apenas entrei, e tomei um lugar, despovoou-se de improviso, e um servente rude e mal-educado veio de mau modo dizer-me que não havia mais café, e que a casa dispensava a minha freguesia, e muito me agradeceria, se eu não tornasse a aparecer ali.
Desta despedida formal a uma expulsão à viva força a distância era pequena e quase nula, era a intimação antes da violência; eu tinha por mim o meu direito incontestável de ser servido, pagando o que se garantia ao gozo publico; a luta, a contenda porém não me podia convir: traguei o insulto, e saí sem responder uma única palavra ao caixeiro selvagem.
Andei às tontas, sem destino e sem norte pelas ruas; às oito horas da noite dirigi-me a um dos nossos teatros, pouco importa saber qual, comprei um bilhete, e fui tomar a minha cadeira.
Mal acabava de sentar-me, ouvi dizer perto de mim: «é ele!»
A essa voz que soara em tom baixo, seguiram-se outras que repetiram com ecos surdos: «é ele!»
Dentro em pouco o sussurro transformou-se em ruído, o ruído em desordem: as senhoras que estavam nos camarotes, recuaram os seus bancos até não poderem ser vistas, espectadores das cadeiras e da platéia levantaram-se ao mesmo tempo como um só homem, e geral gritaria de «fora! fora! fora!» ribombou estrepitosa, insistente, ameaçadora no teatro.
Um porteiro veio humildemente pedir-me que me retirasse, oferecendo-me com estúpida e revoltante aparência de benignidade a vil quantia, por que eu pagara o meu bilhete; resisti e furioso disse uma injúria ao mísero porteiro.
Mas a gritaria tempestuosa continuava; insultos desabridos, ameaças ferozes chegaram a meus ouvidos; a polícia interveio debalde em meu favor; a pateada violenta ameaçava degenerar em motim. No maior fervor da borrasca recebi da autoridade policial não uma ordem, porém um pedido para retirar-me do teatro, do qual então imediatamente sai vexadíssimo, ardendo em cólera, ferido pela reprovação de todos, e ao som dos aplausos escarnecedores, com que era festejada a minha vergonhosa retirada.
- XXIV -
Nos dois seguintes dias teimei em aparecer ao público e experimentei iguais testemunhas de geral condenação.
Nas ruas e praças fui cem vezes apupado.
Na tarde de um desses dias tentei ir passear a Niterói; mas a minha entrada na ponte da companhia Ferry, produziu um movimento ameaçador entre os passageiros, e eu tive logo de sair da ponte ao ouvir algumas vozes sinistras que repetiram: «deitá-lo-emos ao mar!»
Em um hotel negaram-se a dar-me o jantar que pedi.
O cocheiro de um carro da praça não quis acudir ao meu chamado.
E ninguém mais fugia de mim, porque todos me espantavam com ameaças.
No terceiro dia fiquei encerrado em casa; mas à noite fui a um aparatoso baile, para o qual estava desde algumas semanas convidado.
Era uma brilhante festa dada em aplauso e honra de um casamento com ardor desejado, e com júbilo abençoado pelas famílias dos noivos.
Apenas apareci foi extraordinária a agitação que se sentiu na sala cheia de convidados, as senhoras encheram-se de terror, e cobriram os rostos com os leques e os lenços, a noiva esteve a ponto de desmaiar; os homens deixaram-me perceber pragas que a cortesia, e o respeito à sociedade onde estavam, abafavam; o dono da casa três vezes encaminhou-se para mim e outras tantas recuou confuso e com evidentes sinais de contrariedade; eu o compreendi, e poupando-lhe o amargor de uma despedida formal, fiz o que me cumpria: fugi desesperado, chorando de raiva, e cada vez mais convencido da malvadeza de toda a humanidade.
- XXV -
Que noite de cruel vigília ainda mais cruel do que tantas outras, cujos horrores já havia provado!
Eis-me pois ainda mil vezes mais desgraçado do que dantes!
Não creio em homem algum, em mulher alguma: sou a descrença viva, ceticismo animado.
Desconfio de todos.
Aborreço a vida, mas sendo obrigado a viver, como vai correr a minha vida?
Um por um todos se arreceiam de mim, e todos me detestam.
Em toda parte sou por todos enxotado, de toda parte repelido.
Ninguém me quer ver; quando apareço, ninguém me tolera.
Tocou-me a lepra moral.
Eu sou como a peste, pois todos fogem de mim; sou pior que a peste, sou como um cão hidrófobo que se persegue, e cuja morte se deseja!
Oh, meu Deus! meu Deus! Eu sou católico e é somente por isso que não me mato; mas se alguma vez o suicídio pudesse merecer o perdão, a vez do perdão do suicídio era esta.
Meu Deus! eu pequei, confiando na magia, entregando-me a um pérfido mágico, aceitando para meus olhos o socorro do demônio!
Perdão, meu Deus!
Oh!... como é bom não ver!!!
- XXVI -
Não sei, não posso dizer quantas vezes nessa noite furioso lancei mão da luneta mágica para quebrá-la; mas, com vergonha o confesso, nunca tive animo bastante para realizar o meu pensamento.
Não dormi um instante, chorei quase toda a noite, e quando não chorei, revolvi-me, debati-me no leito em agitação violenta, e devorado por abrasadora sede.
- XXVII -
Na manhã seguinte eu tinha os olhos inchados, a cabeça atordoada, e o rosto inflamado; senti-me doente; mas não quis anunciar o meu estado.
Às dez horas introduziram no meu quarto o Sr. A..., o dono da casa, donde eu fora expelido na noite antecedente.
Recebi-o sem ressentimento.
-Está doente? perguntou-me.
-Um pouco; sofri muito esta noite.
-Eu o previ, meu amigo, e por isso me apressei a vir dar-lhe explicações, que reputo indispensáveis até para o bem do seu futuro.
-Agradeço a sua bondade; eu porém sei tudo e sei demais.
-Que sabe, pois?
-Que um miserável, o muito conhecido velho Nunes, fez espalhar a notícia de que eu possuo uma luneta magica, pela qual chego à visão do mal, e descubro todos os segredos e todas as maldades e vícios que se escondem e se dissimulam; e que o medo que causa a minha luneta faz com que se levantem contra mim todos os homens, porque com efeito todos são perversos e temem que sejam conhecidas suas perversidades.
-E então...
-Então desde que se espalhou tal noticia eu tenho sido apupado, insultado, repelido por toda parte, onde apareço. Não é isto?
-Não é tudo, como lhe parece.
-Explique-se.
-Não se ofenderá se eu lhe disser toda a verdade?
-Não: diga tudo.
-Meu amigo; a população da nossa capital é muito civilizada, e não acredita no poder da sua luneta mágica.
-Neste caso por que me fogem?... Por que me apupam?... Por que me temem?
-Aqueles que o têm perseguido com apupadas e os que fogem tremendo da sua luneta dividem-se em duas classes, uma a que pertencem todos os crédulos e pobres de espírito que ainda prestam fé a feiticeiros e artes mágicas: há dessa gente em todas as capitais; a outra é a dos garotos que ousam rir e zombar de infortúnios e males a que todos estamos sujeitos.
-Que quer dizer?
-Quanto aos mais eu vou dizer-lhe o que há, e arme-se de coragem para ouvir-me.
-Nada mais me pode admirar, e menos assustar neste mundo.
-O velho Nunes, que se proclama seu amigo e intimo confi dente, foi com efeito o propalador das notícias que correm; e sabe o que se pensa? O que todos acreditam?
-Diga.
-Que o senhor, tendo imaginação ardentíssima e fraquíssima razão, foi arrastado por um pérfido e malvado armênio até deixar-se dominar pela mais inacreditável mania; que por isso o senhor imagina ver o que não vê, o que não é real; supõe, julga infalível a visão extraordinária da sua luneta, e nas confidências de alguns amigos, que aliás abusam da sua credulidade enferma, descreve os corpos, e expõe íntimos das consciências de quantas senhoras, e de quantos homens fita com a sua luneta.
-Mentira e verdade! corpos não, é falso; minha luneta é honestíssima; almas sim, minha luneta as patenteia plenamente, e eu tenho visto em todos hediondas maldades.
-Não discutamos agora esse pretendido poder da sua luneta. O que écerto é que o simples receio de que o senhor, acreditando que vê realmente o que apenas molestamente imagina, e que descreve em confidências de amigos quadros físicos, defeitos e virtudes, em que ninguém crê; mas que em todo caso ridiculizam não pouco as vítimas da sua luneta, faz com que todos o evitem, todos o queiram longe, todos temam somente o ridículo que provém do que chamam sua mania.
-Mania!!! que o seja embora; mas eu juro que não tenho um só amigo, que não tenho confidentes: isso é calunia.
-Cumpria-me dar-lhe estas explicações, meu amigo. Fique certo de que não há homem, nem senhora de juízo que dê importância e que tema a sua luneta mágica; mas das suas falsas apreciações, e dos sonhos extravagantes mas não recatados, não ocultos da sua imaginação resultam o ridículo de que todos querem escapar.
-Entendo-o perfeitamente.
O Sr. A... disse-me ainda algumas palavras consoladoras; convidou-me a tratar da minha saúde alterada pelo excesso de imaginação, e fraqueza do espírito e deixou-me enfim.
- XXVIII -
E esta!
Por conseqüência estou definitivamente declarado doido pela opinião pública que é a rainha do mundo, e cujos decretos não tem apelação.
A humanidade perversa e infame engenhou o mais seguro dos meios para livrar-se de mim: não há recurso contra ela.
Todos os homens, todas as mulheres cientes do meu poder, todos e com eles e elas todos os médicos, autoridades declaradas e decretadas na matéria dizem -que estou doido!
Não há, não pode haver uma só voz que proteste contra a sentença; porque a todos eles e a todas elas convém que eu seja reconhecido -doido.
Há só uma voz que pode e há de protestar, é a minha, a voz suspeita, a voz do doido.
Por conseqüência estou -doido!!!
E amanhã, ou hoje mesmo, talvez daqui a uma hora, quatro ou seis policiais quatro ou seis urbanos virão agarrar-me, e hão de conduzir-me ao hospício da Prata Vermelha!...
E meu irmão se mostrará compungido, e a prima Anica fingirá chorar, e a tia Domingas rezara por mim nos seus rosários!!!
E rir-se-ão todos de mim!... e me chamarão o -doido!
Meu Deus! estarei eu realmente doido?...
Ninguém compreende os tormentos que sofri com esta nova perseguição da perversidade dos homens, com esta idéia da -loucura- que começou a agitar-me.
O atordoamento da minha cabeça aumentou, a febre devorou-me com milhões de línguas de fogo e eu bradei em alta voz:
-Água! água! quem me dá água?...
- XXIX -
Lembra-me que vi entrar o mana Américo, a tia Domingas, a prima Anica, e meia hora depois o médico da família.
Lembra-me que eu quis falar e não pude, porque faltou-me a voz; lembra-me que procurei saltar fora do leito e não pude; porque me seguraram.
Lembra-me que instintivamente cerrei a minha luneta na mão direita, e que não houve esforço humano que pudesse conseguir abrir-me a mão, até que o médico, chegando nessa conjuntura, proibiu severamente o emprego de tal violência.
Lembra-me que a prima Anica perguntou:
-Ele está mesmo doido, senhor doutor?
E que o médico respondeu:
-Veremos.
Sábia resposta que não resolvia a questão.
Lembra-me que o doutor sangrou-me copiosamente no braço esquerdo.
Vi tudo isso sem poder dizer que estava vendo.
Depois saíram todos, deixando ao pé do meu leito dois escravos possantes para, em caso de necessidade, conter o doido.
Creio que dormi; quanto tempo não sei, talvez mais de vinte e quatro horas.
Quando acordei, senti penetrante dor na mão direita: eram os meus dedos que pregados na parte superior da palma da mão defendiam a luneta mágica; abri os dedos, levantei-os a custo.
Quis ensaiar a voz e disse:
-Água!
Deram-me água, que bebi com ardor febril.
Descansando outra vez a cabeça no travesseiro, tornei a cerrar os olhos, mas com a consciência de me achar completamente acordado e refletidamente determinado a fingir que dormia.
O meu coração palpitava normal, eu não sentia mais nem atordoamento de cabeça, nem calor, nem sede; estava pois muito melhor, estava apenas um pouco abatido.
Ordenei minhas idéias, recordei quanto se havia passado, e tirei de tudo duas principais conclusões; primeira: que havia geral conspiração para que eu fosse declarado doido; segunda: que eu me achava no perfeito gozo das minhas faculdades intelectuais.
E a melhor prova que a mim próprio dei da segurança do meu juízo, foi a resolução que tomei de proceder com prudência e cautela, submetendo-me sem resistência, nem oposição ao médico e aos meus três parentes, e simulando-me ainda doente.
Havia porém uma condescendência, a que de modo algum me prestaria: era a entrega da minha luneta mágica, que em vão tinham já procurado arrancar-me; e para poupar-me a maiores lutas, tirei sutilmente o cordão que a fazia pender do meu pescoço, e atei-o a uma das minhas pernas. Era um recurso fraquíssimo, mas o único de que lembrei na situação em que me via com duas sentinelas dentro do quarto.
Calculei que para salvar as aparências de caridade, ao menos durante alguns dias, não empregariam violências materiais contra mim no empenho de descobrir e tomar-me a luneta.
É assim a natureza humana: na minha última noite de tormentosa vigília, tive horror da luneta mágica e até por vezes o pensamento de quebrá-la, e agora a fúria dos meus inimigos que a todo o transe queriam privar-me do poderoso meio que me assegura a visão do mal, centuplica em meu capricho o valor desse tesouro, que eu só e nenhum outro homem talvez possui no mundo.
O homem é assim; menino mais ou menos malcriado toda sua vida.
O espírito de oposição, o prazer de contrariar os outros começam no berço e só acabam, quando chega a morte.
Se quiserem que algum homem grite: -«não!», ordenem-lhe que balbucie: -«sim».
- XXX -
Asseveram que estou doido, e eu me sinto no pleno e perfeito gozo de minhas faculdades mentais.
Mas de que me aproveita a consciência do meu estado, a certeza de que estou em meu juízo, se o mano Américo, a tia Domingas, a prima Anica, e toda a população do Rio de Janeiro me declaram doido?
A opinião pública que dizem ser a rainha do mundo decretou que me acho vitima de alienação mental.
Vitima concordo que eu esteja sendo; mas alienado?... Protesto.
Doido por quê?... Porque tenho o privilégio de descobrir o mal que se dissimula; e porque não há máscara de hipocrisia, que resista à minha luneta mágica!
Doido!...
Ah! quantos homens de juízo não andarão por aí declarados doidos somente para que os golpes certeiros de suas palavras terríveis percam a força, com que devem ferir e despedaçar a imoralidade, os vícios ignóbeis e até os crimes de grandes figurões?...
Eu não creio, não posso mais acreditar na bondade ou na virtude de homem algum; todos são mais ou menos ruins, falsos, e indignos; há porém alguns que sem dúvida com o fim de ser mais nocivos aos outros, e para produzir maior dano, têm o merecimento de dizer a verdade nua e crua, e chamar as coisas pelos seus nomes próprios tornando-se verdadeiros e francos certamente ainda por maldade.
Pois bem: esses perigosos faladores são em breve denunciados ao publico sempre enganado, como -doidos.
Conversem um pouco e em voz baixa com a nossa capital, e hão de reconhecer os fundamentos desta observação.
Um exemplo: um desses homens de palavra solta e descomedida declara sem cerimônia e declinando nomes que tal e tal sujeitos que chegaram a titulares e são considerados, lisonjeados e adulados pela sua riqueza nas mais elegantes sociedades, mereciam antes estar na casa de correção por terem enriquecido com abusos escandalosos e crimes, de que ele faz a história. -É doido.
Outro exemplo: um jornalista que escreve sem luvas de seda, chama na imprensa ao ministro que dilapida, dilapidador; ao funcionário ou administrador que rouba, ladrão; e assim por diante sem limar o verso para que não fira. Que doido!
Terceiro exemplo: um desastrado falador diz a um pai cego e doido pelos filhos: -«os seus filhos são vadios e procedem indignamente»-; a um esposo de quem é amigo: -«a vida repreensível que vives, a depravação de teus costumes não só te nodoam, como talvez preparem a vergonha da tua casa... não desesperes tua pobre mulher: corrige-te». É doido, absolutamente doido.
E esses e outros semelhantes são doidos, e eu também estou doido; por que?...
Porque na sociedade a maior prova, o mais seguro sintoma de loucura é dizer a verdade sem rebuço, mesmo quando a verdade pode ser desagradável ou ofensiva.
- XXXI -
E em certos casos de que vale a consciência ao homem contra a guerra teimosa e perversa dos outros homens?...
Nem Hércules contra dois; que poderá um contra todos?...
Aqui estou eu certíssimo de me achar em meu perfeito juízo e com sérias apreensões de ver-me obrigado a endoidecer em breve.
Os meus parentes, os meus conhecidos, e todos crêem ou fingem crer, e dizem, proclamam, gritam por toda parte que estou doido.
Há situação mais horrível e ameaçadora?...
Considere-se cada qual no meu caso.
Em casa apenas levantado da cama, e durante o dia todo a família os parentes com hipócritas aparências de compaixão a repetiram mil vezes: -«coitado! está doido...»
Os falsos amigos em suas visitas dizerem-me: -«trate-se! creia que a sua cabeça não está boa...»
Na rua, no passeio, no teatro, em toda parte uns a rir e a gritar: -«está doido!»; outros com voz lastimosa a murmurar: -«pobre moço! está doido».
Durante a noite guardas possantes velando no quarto do doido.
E oito, quinze dias seguidos, um mês, família, amigos, conhecidos, desconhecidos, toda a população de uma cidade a repetir de hora em hora, de minuto a minuto, incessantemente: -«está doido! está doido!»
Quem seria, quem é capaz de resistir a semelhante impulso violento para a loucura?...
De que vale em tais casos a própria consciência contra esse acordo geral que a condena?...
O homem mais forte cede exasperado à convicção de todos, e em breve prazo começa a duvidar de si...
E desde que começa a duvidar de si, começa a enlouquecer...
Oh! é horrível!... e um martírio que os algozes mais ferozes nunca imaginaram!
Mas eu hei de reagir!
Zombarei da fúria desses monstros que se chamam homens.
Sinto-me grande, porque sou um a assoberbar a todos.
E para assoberbá-los é condição indispensável sofrer com frieza, resignação, e sem desesperar: saberei fazê-lo; e além da frieza e da resignação no sofrimento, é também essencial o mais profundo desprezo da humanidade.
Oh! é impossível que eu a despreze mais!
- XXXII -
Era dia, e eu estava lá cansado de refletir e de esperar.
Fraco, abatido e apreensivo, uma prolongada e grave meditação podia ter conseqüências funestas para mim; tive medo da exaltação do meu espírito mas para dominá-la, para arrancar-me a ela, eu precisava do uma distração poderosa.
Mas de que modo entreter-me, distrair-me no triste encerro do meu sótão; deitado no meu leito, e com guardas a dois passos?...
De que me havia de lembrar?... da minha luneta mágica; foi uma lembrança muito natural.
Tanto tempo já tinha passado sem que eu gozasse o poder miraculoso desse tão perseguido vidrinho ótico!
Não pede conter-me; a que risco me expunha?... os meus guardas eram escravos da família e habituados a respeitar-me; eu estava certo de que eles não ousariam vir lutar comigo para me tirar com violência a luneta mágica.
Não hesitei.
Com o maior cuidado e sossego desatei a luneta mágica, que pouco antes atara prudentemente a uma de minhas pernas, e deitado, como estava, não tendo objeto de escolha ou de preferência em que a fitasse, fitei-a indiferentemente no teto da casa.
O sótão, onde eu tinha o meu aposento, era cômodo, porém multo modesto, conforme as regras de humildade da tia Domingas; o teto era de telha vã, e a casa já contava de existência meia dúzia de lustros.
O que a minha luneta me mostrou foi uma multidão de insetos muito comuns, e demasiadamente conhecidos de todos nós para que eu me ocupe em fazer a sua descrição, segundo os apreciei durante os três minutos da visão das aparências.
Chegada porém a visão do mal que imensa corte de demônios! Quanta maldade em corpos tão pequenos!
- XXXIII -
Vi um grilo.
Em sua natureza maléfica o perverso diabrete sentindo-se incapaz de produzir maior dano, rogando uma contra a outra base de seus élitros produz o que lhe chamam canto, e que é um dos pequenos tormentos da humanidade.
Não julgueis que é insignificante o malefício perturba o sono, gasta a paciência, arranha os ouvidos, ofende os nervos e impede o sossego.
O grilo com o seu canto desagradável, teimoso, e importuno, é o tipo desses homens cruéis, estafadores da cortesia alheia, que muitas vezes tomam conta de uma pobre vítima que tem em que se ocupar, e horas inteiras a martirizam com interminável massada.
Felizmente para mim os grilos são mais freqüentes nas assembléias legislativas, do que no meu sótão.
- XXXIV -
Ao pé do grilo um seu irmão pela família. Vi um gafanhoto: outro malvado e ainda muito pior; é flagelo em vida, e o tem sido depois de morto.
Vivo, o gafanhoto é o inimigo do jardim, do pomar e da lavoura; dotado de infernal gula devora flores e folhas, ervas e searas; pelo seu peso parece desprezível, e todavia quando invade em multidão incalculável, quando é praga que ataca, ao seu peso estalam arvores que derribadas caem.
Morto, o gafanhoto é em certas circunstâncias muito pior e nisso tem por igual o seu irmão grilo. Dado o caso de emigração ou de praga de gafanhotos e de grilos, se uma súbita mudança atmosférica, alguma tempestade dá cabo deles, a conseqüente putrefação da imensidade desses malvadinhos determina a peste que povoa os cemitérios.
Os grilos e os gafanhotos não são melhores que os homens.
- XXXV -
Vi uma pulga. A perversa estava cheia de sangue, talvez meu, com que se havia regalado, e atenta descansava em suas grandes patas posteriores pronta a dar o salto de ataque ou de retirada.
A pulga é a parasita sanguinária que vive à custa de muitos quadrúpedes e que não pouco persegue o homem.
Vive de beber sangue a atroz, e freqüentemente agrava a atrocidade, ultrajando o decoro com perseguição revoltante. Inimiga declarada do homem e da senhora, ousa devassar o leito da honestidade e do recato, morder sem piedade a menina, a donzela, a esposa, a matrona, que temerosas dão-se a mil cuidados e diligências para descobrir e apanhar a incômoda sanguinária antes de se deitarem.
No teatro a pulga não falta, no baile também salteia, e assalta, embora menos freqüente; às vezes vemos no teatro ou no baile uma elegante senhora, que parece preocupada, que indicia no rosto, e em leves movimentos contrafeitos achar-se de mau humor ou indisposta; debalde lhe perguntamos se sofre, ou se alguma coisa lhe falta: ela o não confessa; é porém uma pulga insolente, que aferrada entre os dois níveos pomos, ou abaixo de algum deles lhe sorve o sangue com atrito cruel.
A pulga é um demônio que faz inveja a muita gente sem generosidade.
- XXXVI -
Vi um mosquito: outro monstro sanguinário dez vezes mais bárbaro que a pulga; porque a pulga farta-se do sangue em silêncio, e não zomba das vitimas, e o mosquito, à semelhança dos selvagens e dos bárbaros que dançavam festivos em roda dos cadáveres de suas vitimas, o mosquito, digo, bebe sangue ao som da musica, ou antes e depois de bebê-lo em nossos corpos, canta enfadonho, insuportável, desatinado, insistente como o grilo.
A natureza, que se me afigura mãe, fonte exclusiva do mal, auxiliou a perversidade do mosquito, dando-lhe, em facetas imperceptíveis e inumeráveis, imperceptíveis e inumeráveis olhos, com os quais o mosquito vê perfeitamente para diante e para trás, para a direita e para a esquerda, para cima e para baixo, pelo que é licito concluir uma coisa horrível isto é, que cada mosquito enxerga muito mais do que os afamados estadistas do Império do Brasil, que, segundo o testemunho dos fatos, mostram ser tão míopes como eu.
Por esta consideração ainda mais detesto o mosquito.
- XXXVII -
Vi o cupim.
O cupim não é sanguinário, mas a sua malvadeza não é menos prejudicial à sociedade.
A visão do mal patenteou-me segredos incríveis que li no seio recôndito desse inseto destruidor.
O cupim estraga, aniquila mais cabedais do que certos ministros da Fazenda e de Obras Públicas que temos tido no império do Brasil: façam idéia de quanto ele estraga para vencer na comparação!
Conhecendo a faculdade destruidora do maldito inseto, os carpinteiros, os livreiros, os alfaiates e as modistas fizeram comércio de amizade, e pacto de aliança com o cupim, e todos reunidos representam e formam uma firma comercial sob a denominação de Cupim e Cia.
Em dois anos arruina-se uma casa, em dois meses fica em pó e renda uma biblioteca, em duas semanas torna-se sem serventia um guarda-roupa.
E note-se, o cupim é implacável, profundamente desprezador de todas as conveniências, e revoltoso ao ponto de não dar importância nem a um decreto referendado pelo ministro do império; em seu furor o cupim é capaz de não parar nas velhas calças brancas da corte, e de ir até roer as novas calças azuis dos nossos gentis-homens.
O cupim é portanto um inseto-monstro que deve ser posto fora da lei.
- XXXVIII -
Além do cupim vi uma aranha.
Feio bicho; era porém ele que principalmente dominava o teto do meu sótão.
No centro da imensa teia que se estendia em admirável rede de mil fios entrelaçados por baixo de todo o telhado, o diabo da aranha se ostentava soberana.
A um movimento do ar que sacudia tênue fio da teia, a aranha avançava logo para, se era preciso, remendar ou dar nó à rede; ao toque de um inseto os fios tocados enlaçavam a mísera presa que a aranha ia logo devorar sem piedade.
O sistema da centralização política e administrativa estava ali perfeitamente realizado pela aranha.
Era exatamente como a administração, a polícia e a guarda nacional do Brasil.
Mas a aranha ia em perversidade muito além desse domínio escravizador do telhado.
Feia, assassina, terrível, a aranha excede em crueza a todos os animais irracionais, e, oh assombro! até aos racionais, até aos homens!
Como todos os insetos carnívoros caça, mata e devora outros insetos.
Pior que os outros insetos assassinos, guerreia, e mata os da sua própria espécie a semelhança dos homens.
E ainda pior que os homens, a aranha, o tipo da malvadeza levada ao zênite, à celeradez nec plus ultra, à mais horrível exceção em tudo, a aranha mistura o amor com o ódio e o gozo com o assassinato, a aranha cede ao instinto, obedece à lei da reprodução da espécie, e satisfeito o império natural da lei, a aranha, como a antiga e fabulosa amazona, ataca, fere, e mata aquele mesmo que pouco antes lhe dera a glória próxima de encher de ovos prolíficos a sua tela.
Onde se viu perversidade semelhante!!!
- XXXIX -
Horrorizado da aranha, desviei dela a minha luneta mágica e em movimento de repulsão levei-a até uma das extremidades do telhado, onde encontrei metade do corpo de um rato que me olhava esperto, e com ar que me pareceu de zombaria.
Senti vivo desejo de estudar o rato e fixei-o com a minha luneta; mas o tratante somente se deixou exposto durante minuto e meio, e fugiu-me, deixando-me ouvir certo ruído que me pareceu verdadeira risada de rato.
E fiquei sem poder apreciar esse quadrúpede roedor e daninho pela visão do mal!
O rato é de todos os animais que tenho encontrado, o único que não me foi possível estudar tanto quanto desejava.
Por quê?...
Seria isto efeito do acaso?
Ou é que os ratos tem no Brasil o privilégio de escapar à justa curiosidade, e às justíssimas diligências perseguidoras de quem os deve apanhar, e pôr em boa guarda?...
Não creio nesta segunda hipótese.
As ratoeiras abundam; todos o sabem.
Agora o que desconfio que seja verdade, e que a justiça pública arma ratoeiras que só apanham os camundongos, e deixa e tolera que famosas ratazanas vaguem impunes, floresçam e brilhem, fazendo farofa pelas ruas da cidade.
- XL -
Ainda conservava fixada a minha luneta mágica no ponto donde me fugira o rato, quando senti rumor de pessoas que vinham subindo a escada do sótão e ouvi distintamente a voz do médico.
O meu primeiro cuidado foi imediatamente esconder a luneta do mesmo modo que antes fizera, e em seguida fechei os olhos e fingi que dormia tranqüilo sono.
Era meu intento, fingindo-me adormecido, ouvir as observações do médico e dos meus três ruins parentes para saber o que devia esperar e temer, e como me cumpriria, ou me conviria proceder.
Confesso que foi grande atrevimento meu querer iludir o médico com um sono falso; contei porém a ligeireza habitual dos exames de muitos desses doutores que, depois do primeiro e esmerilhado estudo do doente, supõem governar a natureza e a moléstia, e dão a cada uma de suas visitas a duração de -cinco minutos por cerimônia.
Desconfio que a visão do mal tem me tornado mordaz; mas os homens merecem ser tratados assim.
- XLI -
Entraram.
Reconheci as vozes do doutor, do mano Américo, da tia Domingas, e da prima Anica.
-Ele dorme, disse a prima Anica.
-Sono reparador, observou o medico com um tom magistral.
E logo tomou-me o pulso com a maior delicadeza para não me despertar; tocou-me a fronte, passando por ela a palma da mão, e examinou-me o calor dos pés.
-Do mais grave perigo está salvo, disse então o doutor; operou-se uma crise benéfica, e a congestão foi a tempo embaraçada. Respondo pelo nosso homem.
-A noticia não pode ser mais agradável, disse o mano Américo; mas eu receio muito alguma recaída...
-Não é impossível.
-A causa subsiste...
-Que causa?...
-A posse em que ele está da luneta que supõe mágica.
-Luneta que é obra do diabo! exclamou a tia Domingas.
-Luneta aleivosa e má, acrescentou a prima Anica.
-Minhas senhoras, não indiciem acreditar no poder mágico da famosa luneta para que eu não me convença de que devo tratar aqui de três doentes em vez de um.
-Essa é boa! tornou a tia Domingas: pois seria a primeira vez que o espírito maligno fizesse das suas no mundo? Bem se diz que os médicos não são religiosos.
-O senhor doutor talvez tenha razão, disse Anica; há porém coisas que fazem tontear a gente!
-Eu creio, respondeu o médico em tom brincão: a senhora por exemplo não tem em si o espírito maligno, e contudo aposto que terá feito andar às tontas as cabeças de muitos moços de bom gosto.
-Ora, ora.
-Mas, doutor, acudiu o mano Américo; tratemos seriamente deste caso: eu também não tenho a simplicidade pueril de acreditar no poder mágico da luneta fatal; todavia meu irmão está possuído dessa idéia.
-O que é mau sintoma, convenho.
-Muita gente se julga ofendida pela luneta e a teme...
-Segue-se que também é preciso tratar dessa gente que padece tanto, como seu irmão.
-O doutor graceja...
-Não; falo sério.
-Penso que convinha muito e ainda mesmo à força tomar essa luneta, e quebrá-la.
-Francamente, disse o médico; julgo que seu irmão iludido por um suposto mágico, tem-se tornado vitima da própria imaginação exaltada no maior extremo; com efeito essa ilusão, de que ele é escravo, assumiu o caráter de mania...
-Então...
-Ou é possível ou impossível curar-lhe a mania: se é impossível, para que atormentar seu irmão inutilmente? Se é possível, nós o curaremos da mania mais tarde...
-Mas...
-Agora eu o vejo escapando apenas a um ataque cerebral que ameaçou tomar proporções terríveis, e o ressentimento de qualquer violência que ele sofresse, seria capaz de levá-lo à sepultura.
-E a influência maléfica da luneta?...
-Proíbo que contrariem e que desgostem de qualquer modo o nosso doente.
-Então ele está realmente doido, senhor doutor? perguntou Anica.
-Cuidado, minha senhora; seu primo foi multo seriamente ameaçado de uma congestão cerebral; acudimo-lo a tempo; conseguimos prevenir um caso talvez desesperado, mas qualquer imprudência pode ainda ser fatal.
-A minha pergunta...
-Foi menos prudente; se seu primo a ouvisse receberia cruel impressão. Felizmente ele dorme.
- XLII -
Senti verdadeira dor de consciência por estar com o meu fingido sono enganando ao homem que tão decidido me defendera.
Abri os olhos; fiz de conta que despertava.
-Como vamos? perguntou-me o doutor.
-Acho-me bom; mas fraquíssimo.
-Fui eu que o enfraqueci: tirei-lhe sangue, como nenhum outro médico se lembra mais de tirar; agora a moda é condenar a lanceta; eu porém adoro ainda a minha...
-Obrigado, doutor. Se me quiser estender sua mão, eu a beijarei... duas vezes.
-Tão bom me acha?
-Pela minha gratidão acho-o ótimo.
-Logo nem todos os homens são maus.
Compreendi a alusão e guardei silêncio.
-Daqui a alguns dias resolveremos esta importante questão; agora não lhe permito conversar nem mesmo com os seus parentes.
-Pode ficar descansado nesse ponto, doutor; juro-lhe que não lhes darei nem palavra.
-Que ingrato! murmurou Anica que me apertava uma das mãos.
-Além disso quero que esteja absoluta, perfeitamente tranqüilo, e sem a mais leve apreensão triste ou temerosa no ânimo.
-Como?
-Que é da sua luneta?
-Tenho-a escondida, doutor.
-Escondida por que?
-Não me pergunte o que sabe: a minha luneta é o único tesouro que possuo no mundo ou na vida, e querem roubar-ma!!!
-Não é preciso exaltar-se tanto; confie mais em seus parentes que o amam, e que são os primeiros a garantir-lhe a posse do seu pretendido ou verdadeiro tesouro.
-Ontem à noite empregaram a força, lutaram, magoaram-me para arrancar-me a luneta...
-Engana-se: ontem à noite o senhor teve ardente febre e delírio... não se passou, o que acaba de dizer; pode usar de sua luneta sem receio algum; tranqüilize-se, serene o seu espírito os seus parentes estão aqui, e em prova de cuidado e de amor estão prontos, embora não seja isso necessário, a dar-lhe todas as seguranças...
-Sim, mano Simplício, disse Américo com acentuação enternecida; podes usar da tua luneta com a mais plena liberdade, que eu serei o primeiro a fazer respeitar por todos os meios.
-Benza-te Deus, menino! Que mal nos faz a tua luneta? exclamou a tia Domingas.
-Primo, eu prefereria morrer a causar-lhe o menor desgosto, assobiou suavemente Anica com a sua voz de música afinada.
-Já ouviu? perguntou-me o doutor.
Eu estava dentro de mim revoltado contra aquela hipocrisia refinada dos meus três parentes inimigos; por eles media, aquilatava ainda uma vez a perversão e a malvadeza da humanidade, e em meu assanhado ressentimento desejei castigá-los, ostentando a minha desconfiança.
O médico proporcionou-me a oportunidade do castigo.
-Que é da sua luneta?... perguntou-me ele outra vez, notando sem duvida a minha reflexão.
-Receio... desconfio sempre, respondi com azedume franco.
-Apresente-a; sirva-se dela; conte com a proteção de seus parentes.
-E quem é deles o fiador? perguntei acerbo.
Percebi um movimento, tríplice movimento de contrariedade e de viva impressão de ofensa; libei a minha vingança.
-Injusto irmão! disse Américo.
-Que pecado contra a natureza! bradou a tia Domingas, acrescentando em voz baixa: Ave Maria, Deus te perdoe!
-Meu primo! como você é ingrato! balbuciou a prima Anica.
O doutor desatara a rir.
Os médicos são os homens que mais riem ou os homens que nunca riem, porque são os homens que mais e melhor estudam a humanidade por obrigação do ofício.
Eu quis provar que me não deixara comover, e aplaudindo em minha consciência a eloqüente risada do médico, firmei a sentença da minha bem fundada desconfiança, repetindo a pergunta:
-E quem é deles o fiador? Quem se atreve a ser o fiador dos meus três parentes?...
-Eu, disse o doutor.
Sem mais hesitar desatei a luneta, e apresentando-a, fixei-a ousadamente, observando em rápido volver as quatro pessoas que estavam diante de mim.
O médico ria-se, com um sarcasmo a rir desenvoltamente.
O mano Américo, a tia Domingas, e a prima Anica mostravam-se contrafeitos pelo vexame, e no mais completo e ridículo desapontamento.
Como é vil, ruim, baixa e indigna a humanidade!!!
- XLIII -
Este médico será uma exceção entre os homens?... será bom e honesto?... a sua boca pronunciou palavras justas e leais; o seu proceder foi o de um médico consciencioso; enganou-se com o meu fingido sono ou por ligeireza de observação, ou por inabilidade; mas que será este homem no fundo do coração?... evidentemente ele me defendeu; pareceu-me bom e honesto; eu porém não me fio mais em aparências.
Hei de com a luneta mágica estudar o meu doutor, quando tiver ocasião oportuna.
- XLIV -
Passaram pouco mais ou menos assim cinco dias.
Eu me sentia perfeitamente restabelecido; mas o médico teimava em administrar-me colheres de uma preparação que ajudada de severa dieta debilitava-me cruelmente.
Este tratamento martirizava-me; no quinto dia obtive que se suspendessem as malditas colheres de remédio que me estavam prostrando; mas ainda me ficou a dieta apenas ligeiramente modificada no sentido reparador.
Apesar disso o médico me convinha: achei nele o meu protetor, e, o que é mais, o defensor dos meus direitos de posse absoluta da luneta mágica. Ouvi-o por mais de uma vez lançar o ridículo sobre os meus três ferozes parentes que teimavam em sustentar a conveniência de despojar-me do meu tesouro.
Estimei, amei, adorei o excelente doutor, o único homem, que eu tinha encontrado com bastante amor à verdade para sustentar que eu não estava doido, e que não tinha receio da minha luneta, cujo poder, se eu nisso acreditava, era, dizia ele, apenas inocente mania facilmente curável.
Esta última apreciação, que era um erro, talvez notável contradição de médico, pois se havia em mim tal mania, era fácil que ela me levasse à perda completa do juízo, essa contradição, que bem podia ser um recurso de consolação empregado pelo doutor, por fim de contas me era útil, e tão agradecido me reconheci que deliberei não fitar a minha luneta no doutor.
Eu devia-lhe tanto, que preferi viver enganado com ele a expor-me a descobrir sentimentos repugnantes nesse homem.
- XLV -
Em todo este tempo o meu extremoso irmão que com tristes lamentações insistia em considerar-me doido, conservara sempre no meu quarto um ou dois escravos de sentinela.
No sétimo dia de tratamento o doutor logo que entrou acompanhado dos meus três adoráveis e estremecidos parentes, despediu as malditas sentinelas, declarou que não eram necessárias e que pelo contrário deveriam ter sido dispensadas desde o segundo dia.
Ficamos no quarto, o doutor, o mano Américo, a tia Domingas, a prima Anica e eu.
-Ora pois! disse o médico, dirigindo-se a mim, o senhor está bom, e hoje venho despedir-me do seu tratamento.
Desfiz-me em agradecimentos, que me saíram do coração.
-Muito bem, tornou ele; quero por em prova imediata a sua gratidão.
-Que quer de mim? mande, doutor.
-Todos falam da sua luneta mágica; o senhor pretende que por meio dela pode ler no livro intimo dos sentimentos dos homens: é isto verdade?
-É verdade, doutor.
-Otimamente; eu duvido de tudo isso e quero que dissipe as minhas dúvidas: dá-me palavra de honra que há de dizer em alta voz tudo quanto ler e encontrar nos arcanos da minha alma, fixando em mim sua luneta?
-Doutor!
-Eu o exijo.
-Oh! não!... eu lhe devo muito...
-Eu o exijo. Dá-me palavra de honra?...
-Dou-lha; é a pesar meu; mas dou-lha.
-Fite pois em mim a sua luneta: eia! venha a experiência.
Com ímpetos de curiosidade, talvez de insensata saudade da visão do mal, tremendo porém de grato medo, fixei a luneta mágica no rosto do médico, que imóvel e inabalável se deixou observar.
Vi e fui dizendo o que via.
-Cabelos castanhos e crespos, fronte soberba, olhos pequenos, mas brilhantes e incisivos no olhar, nariz aquilino, faces pálidas, lábios grossos e eróticos, pouca barba, mãos finas e delicadas, corpo bem feito, e... oh!...
-Que é isso?...
-A visão do mal!... exclamei.
-Venha ela!
-Não! não! não!
-Deu-me a sua palavra de honra: cumpra-a!
-Não!
-Eu o exijo.
Obedeci e falei tremendo e a pesar meu.
-Bela inteligência, e estudo profundo desvirtuados pela ambição do ganho, e pelo embotamento da sensibilidade! O senhor desperta à meia-noite ao chamado anelante de um pobre, cuja esposa lhe dizem que agoniza, e responde friamente: «procurem outro médico: se a mulher agoniza, não vou lá»; e conchegando ao corpo os lençóis, dorme sem remorsos; o senhor faz pacto de aliança com as moléstias dos ricos que pagam, prolonga os tratamentos para multiplicar as visitas, e dobrar os lucros... o senhor é materialista e incrédulo, não admite alma, espírito, ri da vida eterna, admira o acaso, e não reconhece Deus, criador do universo, criador do homem, Deus do castigo do mau que não se arrepende, Deus do perdão do pecador contrito!... O senhor é o homem da inteligência, raio do céu, e da ciência incompleta, vaidosa e corrompida da terra! O senhor é uma fonte de erros e de abominações, o senhor é perverso!...
O médico desatou em estrondosas gargalhadas, talvez para disfarçar a confusão em que sem dúvida ficara, e saiu do quarto, rindo-se cada vez mais estrepitosamente em seguimento de meu irmão, de minha tia e de minha prima que fugiram espantados do testemunho tremendo da visão do mal.
- XLVI -
A luneta mágica tinha caído no meu colo e eu me abismei mais tristes reflexões.
Ainda um desengano, o ultimo! O doutor que fora tão bom, tão leal para comigo, que se me afigurara tão escrupuloso no tratamento da minha moléstia, que com tanto acerto combatera, o médico que usando da sua autoridade proibira que empregassem a menor violência para me arrancarem a minha luneta, esse homem que eu quisera que fosse uma exceção entre os homens, era como os outros e mais do que muitos outros, indigno da minha estima pelo seu ruim caráter.
Os seus escrupulosos cuidados tinham tido por fim demorar a cura para ganhar mais dinheiro!...
A defesa da minha luneta fora devida à incredulidade materialista, que o levava até o selvagem extremo de negar a existência do espírito que anima o homem, e de Deus sempiterno e onipotente!...
Isso porém não me espantou: afligiu-me, aflige-me; mas eu já estava preparado para o desengano cruel; a meu despeito, a despeito dos impulsos da gratidão, eu já desconfiava do médico.
O que me preocupa agora, o que me atormenta é a negridão do meu futuro, e a incerteza terrível dos tormentos que me esperam.
Que será de mim?... que vou eu sofrer?... por que provações vou passar?...
- XLVII -
Não posso mais ser feliz: é impossível.
Aborreço a todos, e todos me aborrecem.
Sou um contra todos, a sociedade toda está em guerra aberta contra mim. Não pode haver luta, vou sucumbir; cairei ao primeiro golpe.
O grito do primeiro garoto, a pedrada do primeiro menino malcriado será o anúncio do meu sacrifício.
A voz geral brada que estou doido.
O médico que me tratou protesta que não estou doido; mas confessa que estou maníaco. A distinção não me salva.
Ficarei para sempre fechado neste quarto, ou, se aparecer na rua, gritarão mil vozes: «o doido! o doido!»
E arrastarão o doido para o hospício dos alienados...
E me arrancarão à força a minha luneta mágica, e hão de quebrá-la, destruir o poder da visão do mal!...
Oh! é horrível esta situação.
- XLVIII -
E de que me serve mais esta luneta fatal?...
Ela já me fez conhecer a sobras o mundo e os homens. Doravante nada mais pode ensinar-me que seja novo para mim.
Se ma arrancarem, se a quebrarem, ficarei em todo caso com a ciência que ela me deu.
Que a quebrem pois! Pouco importa.
O que me apavora é a incerteza e o medo dos transes, a que tenho de sujeitar-me.
Se ao menos eu soubesse, se eu pudesse prever o que se projeta, se planeja, e se realizará contra mim amanhã... de hoje a três dias, daqui a um mês ou mais tarde...
Se eu pudesse acabar de uma vez com esta incerteza que é o pior dos martírios...
Oh!...
O armênio me proibiu fixar a luneta mágica por mais de treze minutos, sobre o mesmo objeto, porque além de treze minutos começaria a visão do futuro.
A visão do futuro!... é a que eu aspiro, o que ardentemente agora desejo.
É verdade que o armênio também me assegurou que a visão do futuro me era negada, e que a luneta mágica se quebraria entre meus dedos, se eu a fixasse sobre o mesmo objeto por mais de treze minutos.
Mas quem sabe se o armênio procurou enganar-me?... Quem me diz que ele não inventou esse meio, que não empregou essa proibição dolosa para impedir que eu chegasse até a visão do futuro e dela me aproveitasse?...
A visão do futuro me daria poder igual ao do mais abalizado mágico; com ela eu seria igual ao armênio...
Diz-me o coração que o armênio quis enganar-me, e que eu posso ter a visão do futuro; e por ela igualá-lo na extensão do poder mágico.
Quero fazer a experiência. Que me pode acontecer de pior?... quebrar-se a luneta entre os meus dedos... ora!... e sem a visão do futuro, de que, para que mais me serve esta luneta?...
- XLIX -
O desejo impetuoso, irresistível da visão do futuro dominou-me absolutamente.
Ardi por efetuar a experiência.
Mas o futuro que eu principalmente e antes de tudo almejava conhecer, era o meu.
Como era possível que eu fitasse a minha luneta mágica em mim próprio, no meu próprio rosto?...
Pensei debalde uma hora, e acabei entendendo que não há recursos para vencer o impossível.
Pois há! mercê do encanto prodigioso da minha luneta mágica, há.
Em um momento de inspiração que me pareceu feliz, lembrou-me de fitar a luneta na imagem do meu rosto refletida pelo vidro do espelho.
E saltei da cama, e corri ao espelho, e fitei na imagem do meu rosto a luneta mágica.
- L -
Vi-me pálido, abatido, desfigurado, vi-me outro, e muito diferente, do que eu ainda era um mês antes... vi meus olhos encovados, e meu olhar inquieto, cheio de flamas, e como que temeroso... vi sem dar importância ao que via, os senões e talvez os dotes físicos do meu semblante...
Eu estava ansioso pelo fim dos treze minutos; quase que não tinha consciência do que estava por força vendo... eu tremia, e esperava a visão do futuro: era a minha idéia exclusiva.
De súbito estremeci violentamente.
Oh! sem que eu nisso cuidasse, sem que eu com isso tivesse calculado, oh!... cheguei antes da visão do futuro à visão do mal!...
E quereis sabê-lo?... vi a minha perversidade!...
Meu Deus! isto é necessáriamente mentira, ou castigo; meu Deus! eu não sou assim!...
Vi que sou o mais infame caluniador, e inimigo dos meus parentes! Vi que em frenesi de malvadeza infernal assaco aleives contra os homens, atiro aleives sobre nobres senhoras, e inocentes donzelas, ouso insultar ao pé dos altares os sacerdotes, respiro o mal, vivo do mal, semeio o mal...
Eu estava em convulsão... detestava-me... tinha horror de mim próprio, desprezo pela minha torpe individualidade, vi-me tão imundo, tão profundamente vil e asqueroso, que desejei cuspir, e, se pudesse, teria cuspido no meu rosto.
Vi-me ainda venenoso como a pior e a mais enraivada das serpentes; vi-me em fúrias de enraivadas atrocidades, possesso do demônio, vi-me morder em delírio todos os seres da criação, e maldito hediondo, horroroso, ultrajando a Deus, o criador.
Soltei um grito de pavor indizível, e apertando desesperado os dedos, quebrei, fiz em migalhas a luneta, e sem sentir a dor da mão ferida e ensangüentada pelos pedaços de vidro que tinham nela se entranhado, fui cair no leito chorando desabridamente, e por entre dolorosos soluços, bradando em alta voz:
-Perdão!... perdão!... perdão!...
- I -
Oito dias deixei-me clausurado em casa, maldizendo da minha infelicidade.
Eu tinha recebido da experiência uma grande lição; mas como quase sempre acontece ao homem, veio-me a lição da experiência, quando não podia mais aproveitar-me.
A insaciabilidade do desejo para a causa determinante do meu maior infortúnio.
Pobre míope o que eu mais ambicionara, por muito tempo debalde, consegui enfim obter um dia, tive uma luneta potente que deu a meus olhos a vista penetrante da águia.
Alcançado beneficio tão grande, tesouro tão precioso, aquilo que se me afigurara impossível desejei mais!
Quis ter e gozar a visão do mal, a que o armênio sabiamente me aconselhara não expor-me, esclarecendo-me sobre os seus perigos.
Mas desejei e quis ter, e tive essa visão fatal, e por ela tornei-me o homem mais desgraçado.
Não me corrigi ainda assim, e desejei a visão do futuro que me fora proibida, sob pena de quebrar-se em minhas mãos a luneta mágica.
Desejei e quis ter a visão do futuro; mas antes de chegar a ela detestei a luneta que me inspirava horror de mim próprio, e em furioso ímpeto despedacei o vidro mágico, realizando-se desse modo a sentença do armênio.
E agora os meus olhos ficaram sem luz, estou tateando as trevas, e o desejo de gozar com a vista a natureza é mil vezes mais ardente, do que outrora; porque eu já vi, e já sei o que perco não vendo, como pude ver.
Ah! no outro tempo eu era como um cego de nascença, infeliz; ao menos porém não apreciando bastante a profundeza da minha miséria; agora eu sou o cego que já viu, que cegou depois de ter visto, e que sabe tudo quanto perdeu com a cegueira!...
Maldita seja a insaciabilidade do desejo, que envenena a vida do homem, e que mil vezes o leva a sacrificar imenso bem que está gozando pela ambição de mais gozos ainda, e do que não lhe era preciso para a felicidade da vida!
Eu já vivi no mundo da luz, e agora estou condenado, condenei-me a vegetar no cárcere das trevas.
- II -
O despedaçamento, a destruição da minha luneta mágica foi muito festejada pelos meus três parentes e pelo que me disseram, a notícia do fato mereceu as honras de uma gazetilha do Jornal do Comércio, espalhou-se pela cidade, e tranqüilizou o espírito da sua população que tanto se exaltara contra a visão do mal que eu possuía.
O mano Américo teve a bondade de fazer-me ouvir um discurso consolador, em que me demonstrou que eu tinha sido vítima de um longo acesso de loucura; que eu nunca vira mais do que dantes; que a minha miopia não era suscetível de recurso ou socorro algum que me emprestasse vista, e que enfim, quebrando a luneta, eu me libertara de uma ilusão perigosíssima, e rematou o discurso com a eloqüente peroração, jurando que estava pronto a continuar a ver e pensar por mim.
A tia Domingas mandou apanhar todos os pedaços do vidro que eu quebrara, e lançá-los ao mar, dizendo que havia neles malícia do diabo, de que eu estivera possesso, durante não poucas semanas, e manifestando finalmente a crença de que ao poder das suas orações fora devido o despedaçamento da luneta mágica, e de que a salvação da minha alma, e a doce tranqüilidade da minha vida teriam tanto mais segurança, quanto mais completa e irremediável fosse a minha miopia, que me livrara de enormes pecados.
A prima Anica foi dos três parentes o único que teria podido fazer-me sorrir, se nos meus lábios fosse ainda possível ralar um sorriso suave, e haver no meu coração um resto de confiança para essa moça interesseira e egoísta.
A prima Anica procurou convencer-me de que a minha luneta diabólicamente encantada me fizera ver os objetos ao contrário do que eles são na realidade, e que por isso mesmo eu devia acreditar e considerar formosa a senhora que me tivesse parecido feia ou menos bonita, e ter em conta de virtuosa, recatada e dedicadíssima aquela que pela visão do mal eu houvesse julgado loureira, má e calculista. Lembrou-me Cícero, pleiteando a própria causa.
E logo depois dessa teoria sobre a luneta mágica, a prima perseguiu-me cruelmente para que eu lhe confiasse em segredo todas as revelações que eu recebera da visão do mal relativamente às senhoras do seu conhecimento. Uma vez, por inocente malícia, comuniquei-lhe uma apreciação cruel, talvez aleivosa, dos sentimentos, e do caráter da mais intima, e aparentemente mais estimada das suas amigas, que aliás eu não tivera ocasião de observar com a minha luneta.
A prima Anica, ouvindo-me, exclamou:
-É isso mesmo! exatíssimo juízo!...
-Anica, disse-lhe eu; a minha luneta era diabólica, como você me assegura, e o que ela me fez apreciar e me mostrou, deve-se entender pelo contrário, segundo a sua opinião...
-Primo, respondeu-me Anica sem hesitar, o diabo para enganar facilmente, às vezes diz e mostra a verdade.
Eu fiquei profundamente convencido, de que houvera menos diabo na minha luneta mágica, do que havia nos pensamentos e nos sentimentos da prima Anica.